O julgamento de Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho, e de Monique Medeiros pela morte de Henry Borel, de 4 anos, entrou em uma fase decisiva após completar seis dias de depoimentos no Tribunal do Júri do Rio de Janeiro. Ao longo das sessões realizadas no Fórum Central, testemunhas de acusação e defesa apresentaram relatos que ajudam a reconstruir a rotina da criança nos meses que antecederam sua morte, em março de 2021.
Até o momento, 16 testemunhas foram ouvidas pelo Conselho de Sentença, formado por sete jurados responsáveis por decidir se os réus serão condenados ou absolvidos. A acusação sustenta que Jairinho agrediu Henry até a morte e que Monique tinha conhecimento das agressões e deixou de agir para proteger o filho. Ambos negam as acusações.
O sábado marcou o início da fase de depoimentos das testemunhas de defesa de Monique, entre elas o irmão da ré, Bryan Medeiros da Costa Silva, além do engenheiro Ari Mamed e da funcionária do condomínio Majestic Marcia Eduarda Andrade Vieira.
Enquanto os relatos avançam, o julgamento vem sendo marcado por momentos de forte emoção, divergências entre as versões apresentadas pelas partes e acusações que atingem diretamente os dois réus.
O depoimento emocionante de Leniel Borel
Um dos momentos mais impactantes do júri ocorreu durante o depoimento de Leniel Borel, pai de Henry. Emocionado, ele relatou aos jurados que percebeu sinais de que o filho enfrentava problemas na convivência com Jairinho semanas antes da tragédia.
Segundo Leniel, Henry mencionou que um “tio” costumava lhe dar “abraços fortes”, o que despertou preocupação.
Ao recordar a madrugada de 8 de março de 2021, quando chegou ao Hospital Barra D’Or, o pai do menino não conseguiu conter as lágrimas.
“Eu vejo meu filho cheio de marcas, deitado na maca, rígido. Eu o entreguei bem de saúde horas antes. Aquela criança já não era meu filho”, comentou.
Leniel também afirmou que estranhou a narrativa apresentada por Jairinho sobre os momentos que antecederam a chegada ao hospital.
“Isso já me chamou atenção. Ligou o alerta na hora.”
Em outro trecho marcante, ele disse acreditar que Monique tinha conhecimento das agressões sofridas pelo filho.
“Todos os sinais demonstram que a Monique sabia.”
Ao falar sobre Jairinho, foi ainda mais enfático:
“Com tudo que a gente tem na mão hoje, o Jairinho só foi morar com a Monique por causa do Henry. (…) Ele foi morar com a Monique por causa do Henry. Porque ele tinha prazer em agredir crianças.”
Leniel contou ainda que questionou Monique sobre a causa da morte apontada pelo Instituto Médico Legal, mas afirmou que ela não respondeu.
Segundo ele, a mãe de Henry escreveu uma mensagem após a morte do menino:
“Ele está nos braços do pai. Se eu pequei alguma vez foi por excesso nunca por falta. Minha consciência está tranquila”
Durante o depoimento, a defesa de Jairinho confrontou Leniel sobre acusações feitas contra o ex-vereador, enquanto os advogados de Monique questionaram aspectos de sua vida pessoal e de suas avaliações sobre a personalidade da ré.
Peritos descartam acidente doméstico
Os depoimentos técnicos tiveram peso relevante ao longo do julgamento.
O perito do Ministério Público Luiz Carlos Leal Prestes rejeitou a hipótese de que as lesões encontradas no corpo de Henry tenham sido provocadas por manobras de ressuscitação.
“Houve um homicídio por espancamento, esse menor chegou sem vida a esse hospital. A multiplicidade de lesões em sítios diferentes fez com que, inequivocamente, se concluísse que essa criança foi agredida e por isso houve a hemorragia interna”, disse.
O especialista afirmou ainda que não há elementos que sustentem a tese de acidente doméstico.
“O acidente doméstico está completamente descartado. Isso é uma versão fantasiosa.”
Ao detalhar os ferimentos encontrados, o perito afirmou que a criança sofreu intensamente antes da morte.
“Essa criança sofreu durante algum tempo até sucumbir. Essa morte foi lenta, essa morte foi agônica, progressiva. Imagina uma criança de 4 anos. Qualquer arranhão a criança reclama.”
O médico-legista Luiz Airton Saavedra de Paiva também apresentou conclusões semelhantes em laudos que apontam incompatibilidade entre as lesões e qualquer hipótese de acidente.
A pediatra Maria Cristina de Souza Azevedo, que participou do atendimento de Henry no Hospital Barra D’Or, reforçou essa avaliação.
“As lesões que o Henry tinha não poderiam ter sido provocadas pelos procedimentos [de reanimação]”, disse ela.
Segundo a médica, Henry chegou ao hospital já em parada cardiorrespiratória e sem resposta aos estímulos luminosos.
Ela também relatou um momento que emocionou o plenário ao lembrar do pedido feito por Leniel durante as tentativas de reanimação.
“Quando a gente ia parar, o pai chega para a gente e pede para a gente não desistir do filho dele.”
Investigação apontou versão falsa, diz delegado
O delegado Edson Henrique Damasceno, responsável pelo inquérito policial, afirmou que as investigações desmontaram a versão inicialmente apresentada pelos réus.
“No decorrer da investigação, a gente mostrou que tudo era uma farsa ensaiada, que as versões apresentadas eram mentirosas e que as lesões que o menino sofreu eram incompatíveis com qualquer queda de cama. As lesões são gravíssimas”, afirmou.
Segundo ele, a perícia foi fundamental para o esclarecimento do caso.
“Se o corpo não tivesse ido para o IML, a mentira iria seguir. Se não tivessem os prints mostrando as agressões, a mentira iria seguir.”
O delegado também afirmou que Monique tinha conhecimento de episódios anteriores de violência.
“Ela sabia disso e, mesmo assim, quando o menino morreu por ação contundente, com somente ela, o menino e o Jairo em casa, foi à delegacia dizer que o Jairinho tinha um relacionamento maravilhoso com ele.”
Relatos de ex-companheiras e acusações de violência
O júri também ouviu depoimentos de mulheres que mantiveram relacionamentos com Jairinho e relataram supostos episódios de violência envolvendo seus filhos.
Kaylane de Oliveira Duarte Pereira afirmou ter sofrido agressões quando era criança.
“…na piscina ele ficava me afundando, até eu bater no chão da piscina.”
Ao comentar a morte de Henry, ela revelou o sentimento que carregou nos anos seguintes.
“Eu me senti muito culpada. Se eu tivesse falado, talvez não chegasse ao que chegou”
A jovem também relatou comentários feitos por Jairinho sobre sua presença na vida da mãe.
“Ele dizia que, se eu não existisse, ia ser muito melhor. Que eu atrapalhava ela, que se fosse só ele e a minha mãe a vida dela ia ser muito melhor.”
Outra ex-companheira, Débora Mello Saraiva, contou que seu filho relatou agressões após assistir reportagens sobre o caso Henry.
“Ele veio pra mim e falou: ‘Mamãe, você sabe o que o Jairinho fez comigo?’. Ele disse que Jairinho tinha pisado na barriguinha dele e ficou rindo”, contou.
Débora também fez uma grave acusação envolvendo violência sexual.
“Eu estava dopada e ele me dopou nesse dia. Foi o mesmo dia que ele me estuprou”, relembrou.
Segundo ela, Jairinho teria admitido posteriormente o episódio.
“Ele riu, admitiu, e disse que eu gritei igual uma cachorra e me mijei todinha (…) Eu tenho medo e raiva pelo que ele fez comigo e pelo meu filho.”
Psiquiatra aponta padrão de comportamento
Entre os especialistas ouvidos, o psiquiatra Rafael Bernardon Ribeiro apresentou uma das análises mais contundentes do julgamento.
Ao examinar documentos do processo, ele afirmou ter identificado um padrão de comportamento atribuído a Jairinho.
“Eu percebi que há um padrão repetitivo de abuso infantil por parte do réu [Jairinho], um padrão de prazer em infligir dor em crianças.”
O especialista também fez considerações sobre Monique.
“Subordina sistematicamente o bem-estar de seu filho aos seus próprios interesses narcísicos e ambições materiais.”
Segundo ele, a mãe de Henry era uma pessoa “autocentrada, ambiciosa, vaidosa, e, ao longo da relação com o Henry, priorizava os seus interesses ao invés dos interesses de proteção da criança”.
Irmão de Monique acusa Jairinho e critica antigo advogado
O depoimento de Bryan Medeiros, irmão de Monique, trouxe novos elementos ao julgamento.
Ele afirmou acreditar que Jairinho foi o responsável pela morte da criança.
“Só pode ter sido ele”, afirmou.
Bryan também declarou que identificou semelhanças entre os relatos de outras ex-companheiras do ex-vereador e cartas escritas por sua irmã.
“Hoje eu tenho elementos para caracterizar que o modus operandi dele (Jairinho) é semelhante a esse. Ela é categórica em dizer que havia essas agressões”
Além disso, acusou o advogado André França de orientar Monique a mentir em seu primeiro depoimento à polícia.
“A Monique foi treinada para mentir no primeiro depoimento, e a gente não tinha ideia que seria extremamente prejudicial. Ele não defendeu a Monique, porque ele modificou a narrativa dos fatos após a morte do Henry”, pontuou Bryan Medeiros.
Segundo ele, uma narrativa teria sido construída para minimizar suspeitas sobre Jairinho.
“Falar que o Jairo acordou seria extremamente prejudicial. Então, ele coloca a monique na posição de ter acordado primeiro e que não haveria suspeitas. ‘A gente vai falar que ela estava sentada recostada na cama’. Nossa missão era disseminar essa narrativa”
Contradições e novos relatos
Outras testemunhas ajudaram a reconstruir episódios apontados pela acusação como possíveis agressões anteriores à morte de Henry.
A empregada doméstica Leila Rosângela de Souza Mattos relatou ter visto o menino sair assustado de um quarto após ficar sozinho com Jairinho.
“Ele saiu do quarto com cara de apavorado.”
Já a cabeleireira Tereza Cristina dos Santos afirmou ter presenciado uma videochamada entre Monique e Henry em fevereiro de 2021.
Segundo ela, o menino relatou que havia sido derrubado por um “tio”.
“O tio me deu uma banda”, teria dito Henry.
A testemunha afirmou que, mesmo após ser informada de que o filho estava machucado, Monique manteve o atendimento no salão normalmente.
“Só quando eu estava na parte da franja é que ela pediu para acelerar. Antes disso, tudo normal”, declarou.
O relato foi corroborado pela manicure Paloma dos Santos Meireles.
Defesas seguem em caminhos opostos
O julgamento também evidencia o rompimento da estratégia conjunta adotada pelos réus no início da investigação.
Inicialmente, Jairinho e Monique compartilhavam a mesma defesa e sustentavam a versão de um acidente doméstico. Após as prisões, os caminhos se separaram.
Enquanto a defesa de Jairinho concentra esforços na contestação das provas técnicas e dos laudos periciais, os advogados de Monique sustentam que ela vivia uma relação abusiva e era manipulada psicologicamente pelo então companheiro.
Com novas testemunhas ainda previstas para os próximos dias, o Tribunal do Júri segue avançando para uma etapa decisiva. Após o encerramento dos depoimentos, serão realizados os interrogatórios dos réus, os debates entre acusação e defesa e, por fim, a deliberação dos jurados que decidirão o destino de Jairinho e Monique Medeiros.






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