Na noite ou na tarde, dependendo de qual versão o leitor prefira comprar, de 8 de fevereiro de 1959, um domingo de Carnaval no qual o Brasil sambava como se não houve amanhã, uma tropa da truculenta Guarda Especial de Brasília invadiu o acampamento da construtora Pacheco Fernandes Dantas e abriu fogo contra operários que pouco antes haviam reclamado da comida estragada do refeitório; o resultado oficial foi um morto e uns poucos feridos. Testemunhas e historiadores, porém, falam em uma tragédia muito maior.  

Tudo é estranho e controverso nesse caso. Efetivamente, durante o Carnaval de 1959, houve uma operação de guerra em pleno coração do Planalto Central, com direito a corredor polonês, tiros nos dormitórios e, supostamente pelo menos, corpos de operários desaparecidos enterrados em valas comuns. O massacre da Pacheco Fernandes é uma ferida aberta na história oficial de Brasília.  

Mais do que um episódio de violência, ele revela a face obscura do “progresso” e a desumanização a que foram submetidos os milhares de candangos que construíram a capital. A verdade sobre o número de mortos e feridos permanece soterrada sob camadas de silêncio, versões oficiais e memórias disputadas. Em 2009, 50 anos após o massacre, um modesto monumento foi inaugurado na Vila Planalto em homenagem aos mortos, mas a justiça e o reconhecimento pleno da tragédia ainda não foram alcançados.  

O Palácio do Planalto durante sua construção | Crédito: Reprodução

Qual é a história da empresa Pacheco Fernandes? 

A Construtora Pacheco Fernandes Dantas S/A foi uma das inúmeras empreiteiras contratadas para erguer Brasília a toque de caixa entre 1956 e 1960, no ritmo febril imposto pelo prazo político de Juscelino Kubitschek.  Sua sede de operações em Brasília ficava na área hoje correspondente à Vila Planalto, onde mantinha um acampamento que chegou a abrigar por volta de 1.300 trabalhadores. 

A empresa tinha péssima fama entre os candangos. De acordo com o Memorial da Democracia, a Pacheco Fernandes era conhecida por jornadas de trabalho que, com frequência, ultrapassavam dezoito horas em turnos ininterruptos e o principal, que parece até piada considerando o que vem pela frente, ela oferecia a pior comida entre todos os canteiros de obra da capital. 

Ela participou da construção de alguns dos cartões-postais da capital federal. Entre eles o Palácio do Planalto, o Hotel Nacional e o Brasília Palace Hotel. Esses edifícios, concebidos pelos arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, se tornaram símbolos da modernidade brasileira, mas foram erguidos por mãos que, em muitos casos, não viram o resultado de seu trabalho. 

Trabalhadores durante a construção de Brasília | Crédito: Reprodução

Uma burrada feita em conjunto 

De acordo com os pesquisadores, praticamente todas as construtoras pressionadas pelos prazos para a entrega da nova capital em 1960 tentaram de algum jeito evitar que os trabalhadores aproveitassem o Carnaval de 1959. Mas, segundo apontam documentos históricos e depoimentos colhidos pela Comissão da Verdade do Distrito Federal, dentre elas, a diretoria da Pacheco Fernandes, para dizer o mínimo, adotou uma tática truculenta. 

Ela não pagou no sábado, dia 7, o pagamento dos funcionários como de hábito. Ou seja, dois dias antes da Segunda-feira de Carnaval. E ainda cortou a água dos alojamentos para que, sem poder tomar banho, sujos de poeira e entulho, os operários tivessem menos disposição, além de menos apresentação, para buscar diversão fora dos limites do acampamento na Cidade Livre, atual Núcleo Bandeirante, que reunia bares, cabarés e a maior concentração de comércio informal da região. 

O estopim  

A partir daqui o terreno começa a ficar pantanoso. O que se sabe sem discussão é que no almoço do domingo de Carnaval, dia 8, os empoeirados trabalhadores da Pacheco Fernandes, sem confete ou serpentina, reclamaram da comida servida no refeitório com o cozinheiro e os funcionários da copa. O encarregado Presbi Elpídio de Medeiros, em vez de contornar a situação de algum jeito, achou mais fácil chamar a polícia. 

Algumas versões falam em três operários como os primeiros revoltados que começaram um quebra-quebra no refeitório. Outras fontes falam em dois homens que se indignaram com a comida e foram às vias de fato com o cozinheiro. Seja qual versão a correta, o que era um protesto pontual escalou. 

Os operários jogaram a comida fora e passaram a bater os pratos de alumínio contra as mesas, em um gesto de protesto coletivo. O episódio, que começara como uma queixa razoável sobre condições alimentares mínimas, transformou-se em poucos minutos numa desordem que a direção da empresa julgou fora de seu controle, e foi esse julgamento, mais do que a confusão em si, seja lá qual tamanho tomou, que precipitou tudo o que veio a seguir. 

Uma das prisões da GEB, a milícia armada das construtoras de Brasília | Crédito: Reprodução|

O que era a Guarda Especial de Brasília?  

A Guarda Especial de Brasília, conhecida pela sigla GEB, era uma corporação policial ostensiva criada diretamente pela Novacap para manter a ordem e a disciplina nos canteiros de obras e acampamentos da nova capital. Sem treinamento adequado em direitos humanos e atuando sob comandos severos, a GEB funcionava como uma milícia paramilitar destinada a garantir o ritmo das construções a qualquer custo.  

Os agentes da GEB atuavam com extrema violência física, patrulhando alojamentos, coibindo a organização sindical e reprimindo severamente qualquer manifestação ou consumo de álcool entre os operários. A corporação era temida pelos trabalhadores pela facilidade com que recorria a espancamentos e arbitrariedades contra a população carente. E enquanto isso JK cantava o “Peixe Vivo”.  

Como foi a operação?  

Atendendo ao chamado da gerência da construtora, a GEB enviou inicialmente um contingente modesto de três guardas para reprimir os manifestantes no refeitório. Todavia, ao tentarem baixar a paulada nos operários, os policiais é que foram espancados. 

Derrotados no primeiro momento, os guardas recuaram, enquanto o representante da empresa retornou ao comando de segurança afirmando que as forças policiais corriam risco de morte. Sob ordens do chefe da Seção de Controle da Polícia, coronel Fernando de Faria Pimentel, organizou-se uma expedição punitiva de reforço com dezenas de homens fortemente armados com fuzis e metralhadoras. 

Na calada da noite daquele mesmo domingo, os soldados da GEB invadiram o acampamento da Vila Planalto quando a maior parte dos operários já não protestava mais e se encontrava recolhida nos galpões de madeira, descansando, jogando cartas ou dormindo em seus beliches. Os policiais cercaram os barracos e abriram fogo às cegas contra as paredes de tábua, atingindo trabalhadores indefesos em suas camas. 

 Em seguida, invadiram os dormitórios, arrancaram os homens à força e submeteram centenas de operários a um humilhante e violento corredor polonês, onde foram espancados com cassetetes, coronhadas e submetidos a disparos à queima-roupa.

Destacamento da GEB de vigia após o massacre | Crédito: Reprodução

Quantas pessoas morreram? 

A versão oficial divulgada pela Novacap e publicada nos jornais alinhados ao governo sustentou por anos que o incidente resultara em apenas uma vítima fatal, identificada em alguns registros como um certo Mário Evaristo. Mas repórteres do jornal O Popular, de Goiânia, denunciaram uma contagem de pelo menos nove mortos no local encontrados já na manhã de segunda-feira. 

Porém, pesquisas históricas e depoimentos colhidos pela professora da UnB Nair Bicalho apontam para um massacre de proporções muito maiores, com relatos de operários indicando entre 50 e mais de 100 mortos.  

Testemunhas afirmaram que caminhões-caçamba da própria empresa foram usados durante a madrugada para recolher cadáveres e transportá-los para covas clandestinas em Planaltina ou para descarte na Lagoa Feia, em Formosa. O achado de cerca de 93 malas sem dono abandonadas no acampamento no dia seguinte reforça a tese de eliminação e desaparecimento em massa de trabalhadores. 

Assim como ocorreu com o número de mortos, os dados oficiais sobre os feridos foram drasticamente manipulados para minimizar a gravidade da tragédia. A versão do governo admitiu apenas de três a quatro trabalhadores lesionados no entrevero. 

Entretanto, documentos do Arquivo Público do Distrito Federal revelam que dezenas de candangos deram entrada no Hospital Distrital e no Hospital do IAPI. Laudos médicos comprovaram que ao menos 60 operários sofreram ferimentos graves provocados por disparos de armas de fogo. 

Monumento aos mortos instalado na Vila Planalto | Crédito: Reprodução

O que disseram a respeito do episódio Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e JK? 

Oscar Niemeyer foi entrevistado por Vladimir Carvalho para o documentário Conterrâneos velhos de guerra, que reuniu relatos sobre a construção de Brasília e o episódio da Pacheco Fernandes, mas tergiversou. O cineasta também ouviu Lúcio Costa, Ernesto Silva e outras pessoas ligadas ao círculo de construção da capital. Segundo o relato publicado pelo Correio Braziliense, Lúcio Costa afirmou que os trabalhadores e pioneiros tinham tendência a romancear histórias e disse que, se tivesse sabido do caso na época, não teria dado grande importância ao episódio. 

O presidente Juscelino Kubitschek manteve rigoroso silêncio oficial sobre o massacre, permitindo que a Novacap instaurasse inquéritos sumários que acabaram arquivados sem a punição dos mandantes ou dos policiais envolvidos. O silêncio das autoridades foi uma tentativa de proteger a imagem do projeto faraônico, varrendo para debaixo do tapete o preço humano pago por sua realização. Curiosamente, após o episódio, JK dissolveu a GEB, e o patrulhamento da futura capital passou a ser feito por homens das Forças Armadas. 

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