Cais do Valongo é declarado patrimônio histórico-cultural afro-brasileiro

Local por onde desembarcaram cerca de 1 milhão de africanos escravizados é símbolo da memória afro-brasileira e da diáspora africana

O Cais do Valongo, na zona portuária do Rio de Janeiro, passou a ocupar um espaço ainda mais central na preservação da memória histórica do Brasil e do mundo. O sítio arqueológico, considerado o maior porto de entrada de africanos escravizados na América Latina, recebeu da Unesco o título de Patrimônio Cultural da Humanidade.

Além do reconhecimento internacional, uma lei sancionada na quinta-feira (11) declarou o cais como patrimônio histórico-cultural afro-brasileiro, estabelecendo diretrizes de proteção e valorização do espaço.

Redescoberta durante as obras olímpicas

Construído em 1811 e aterrado em 1911, o Cais do Valongo permaneceu oculto por um século até ser redescoberto em 2011, durante as obras de revitalização do Porto Maravilha para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

As escavações revelaram um acervo arqueológico de enorme relevância, com milhares de objetos que contam fragmentos da vida dos africanos escravizados: calçados, botões de osso, colares, pulseiras, anéis, amuletos e até jogos de búzios utilizados em rituais religiosos.

Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o local é “um espaço de preservação da memória, com valor extraordinário para toda a humanidade”.

A marca da diáspora africana

Estima-se que cerca de 1 milhão de pessoas escravizadas tenham desembarcado no Valongo ao longo do século XIX. Por sua dimensão e impacto, pesquisadores apontam o sítio como o lugar mais importante de memória da diáspora africana fora da África.

Em 2018, a Unesco já havia inscrito o Cais do Valongo na lista de Patrimônios Mundiais por atender ao critério VI da Convenção do Patrimônio Mundial, que reconhece locais associados a tradições vivas, crenças, obras artísticas e acontecimentos de relevância universal.

Dor, sobrevivência e identidade

A Unesco ressalta que o sítio carrega memórias dolorosas, mas fundamentais para compreender a história da escravidão e da resistência dos povos africanos e seus descendentes. Trata-se de um espaço que simboliza tanto o sofrimento imposto pela escravidão quanto a sobrevivência cultural que moldou o Brasil contemporâneo.

Hoje, afrodescendentes representam mais da metade da população brasileira, e o reconhecimento do Cais reforça sua centralidade na formação da identidade nacional.

Proteção e valorização cultural

A lei publicada nesta semana estabelece que o espaço deve ser preservado como lugar de memória e de respeito às manifestações culturais afro-brasileiras. Isso inclui a conservação de objetos encontrados e o incentivo a atividades que reforcem a herança cultural do local.

Com a nova legislação, o Cais do Valongo passa a ter dupla proteção: como patrimônio nacional, sob responsabilidade do Iphan, e como patrimônio da humanidade, sob o olhar da Unesco.

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