Terreno na Pequena África, na Praça Mauá, vai ter espaço construído para preservação da cultura negra

No local será construído um prédio de três andares onde irá funcionar o Centro Cultural Rio-África, com salas de exposições, debates e reuniões, além de espaço educativo e área de convivência

O terreno no Centro do Rio que já abrigou a Pró Matre, na Avenida Venezuela, localizado na Praça Mauá na região conhecida como Pequena África, próximo ao Cais do Valongo, e declarado pela Unesco Patrimônio Cultural da Humanidade, vai receber brevemente um espaço para preservação da memória e da cultura negra no Rio de Janeiro.

No local será construído um prédio de três andares onde irá funcionar o Centro Cultural Rio-África, com salas de exposições, debates e reuniões, além de espaço educativo e área de convivência.

O escritório de arquitetura paulista Estúdio Módulo teve seu projeto vencedor do projeto do Centro Cultural Rio-África. O centro será instalado no número 153 da Avenida Venezuela, onde funcionou por mais de nove décadas, até 2009, a tradicional maternidade. O espaço onde será erguida a nova construção foi adquirido pela construtora Cury, responsável pela maioria dos empreendimentos residenciais na região do Porto Maravilha.

A empresa está cedendo a área à prefeitura, por conta das contrapartidas pelo volume de unidades construídos por ela naquela região. A previsão é de que obras durem dois anos e meio, segundo os cálculos do prefeito Eduardo Paes.

— Eu acho que isso aqui é a continuidade de um processo de revitalização da região. Nessa revitalização a gente consegue descobrir coisas incríveis como o Cais do Valongo, consolidando essa região da cidade como o que a gente chama de Pequena África. E essa história do povo negro, africano escravizado, dessa diáspora africana vinda para o Brasil, especialmente aqui no porto do Rio, no cais do Valongo, ela tem que ser contada e repetida várias vezes para que a gente conheça essa história, para que ela não se repita e para que a gente diminua o racismo do Brasil — afirmou o prefeito.

Paes disse que ainda não tem como determinar o custo da obra, já que, após anunciar a proposta vencedora, a próxima etapa será o detalhamento do projeto vencedor. O trabalho apresentado pelo arquiteto Marcus Vinícius Damon, da equipe do Estúdio Módulo, foi considerado pelos jurados o que melhor traduziu a ancestralidade e a valorização da memória da identidade afro-brasileira.

O edifício se organiza ao redor de um pátio arborizado, destacando a importância das árvores para a cultura africana e para a sobrevivência da biodiversidade da Mata Atlântica. O local receberá espécies como agapanto, moreia, capim-do-texas e outras que fazem parte de cultura afro-brasileira, como a popular espada de São Jorge.

Na cobertura, o terraço oferece vista para a praça e para o Cais do Valongo, criando um espaço de memória viva dos africanos escravizados trazidos para o Brasil. A fachada foi projetada para ser um filtro de luz natural criado para realçar a harmonia entre os céus dos orixás e a terra dos homens, segundo os criadores do projeto.

— É um projeto em que a gente buscou estabelecer um respeito enorme com tudo que já existe ao redor, desde o Cais do Valongo às Docas de Dom Pedro (onde funciona o galpão da Ação da Cidadania). A gente buscou desenhar um projeto que não competisse com esses locais e estabelecesse um grande respeito. É um edifício que tenta ser sutil na implantação. Não é mais alto que as docas. A gente poderia fazer mais alto, mas escolheu ser mais respeitoso (com a história do lugar). Busca estabelecer um diálogo com a arquitetura moderna brasileira e seu legado, principalmente mais focado na arquitetura carioca que tem uma relação muito bonita com o paisagismo, como a gente vê no Parque Guinle (em Laranjeiras) e no Aterro do Flamengo — explicou Marcus Vinícius.

Segundo o arquiteto paulista, a intenção foi criar um diálogo com a ancestralidade africana que, em alguns momentos é sutil e em outros mais direta e explícita.

Yago Feitosa, coordenador de Promoção da Igualdade Racial da Prefeitura do Rio (CPIR), destacou a importância de um espaço de preservação da memória e da cultura negra na cidade. Ele espera que o local se transforme num lugar de desenvolvimento de talentos da juventude negra e local de convívio, onde as pessoas possam expressas as diversas manifestações da cultura negra.

O concurso que definiu o projeto vencedor foi inclusivo e considerado inédito, por ter sido aberto exclusivamente para arquitetos negros brasileiros ou africanos de países de língua portuguesa.

A comissão julgadora, igualmente composta só por pessoas negras, avaliou 27 projetos de vários estados brasileiros e um de Cabo Verde, na África. Além dos classificados nas três primeiras colocações também foram concedidas menções honrosas a outras quatro propostas apresentadas.

A iniciativa foi feita por meio da Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos (CCPar) e do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RJ), com apoio da Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial, da Secretaria da Casa Civil.

Com informações de O Globo.

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