BTG comprou mais de R$ 1,1 bi em créditos do Master via Credcesta e enfrenta bloqueio judicial

Operações com consignados renderam bilhões ao Master, mas hoje estão sob questionamento da Justiça

O banco BTG Pactual acumulou, desde 2021, a aquisição de R$ 1,150 bilhão em carteiras de crédito consignado originadas pelo Banco Master por meio do Credcesta, em operações estruturadas que não foram divulgadas publicamente, informa o colunista Demétrio Vecchioli, do portal Metrópoles. As transações, realizadas via debêntures, permitiram ao banco de Daniel Vorcaro antecipar ao menos R$ 1,66 bilhão com a venda desses ativos, em um modelo que combinava liquidez imediata para o emissor e potencial de alta rentabilidade para o investidor.

O arranjo, considerado lucrativo para ambas as partes, passou a enfrentar obstáculos após a liquidação do Banco Master. Atualmente, parte desses créditos está bloqueada ou sob disputa judicial, o que impacta diretamente os fundos ligados ao BTG e compromete o fluxo esperado de pagamentos.

Estrutura financeira viabilizou operações bilionárias

A operação foi estruturada por meio da CB Securitizadora, empresa criada em 2021 para adquirir cédulas de crédito bancário do Master e transformá-las em debêntures destinadas a investidores. Na prática, o mecanismo funcionava como uma antecipação de receitas: o investidor financiava a compra das carteiras, enquanto os pagamentos dos consignados eram repassados, com juros, ao longo do tempo.

Nesse modelo, o Master concedia o crédito e rapidamente o vendia, com margem de ganho, transferindo o risco ao investidor. Em contrapartida, os rendimentos oferecidos eram elevados, com taxas entre 21% e 25% ao ano.

A primeira operação, realizada em dezembro de 2021, movimentou R$ 431 milhões. O BTG teve participação central, atuando como coordenador, estruturador e responsável pela seleção dos ativos. Além disso, o próprio banco adquiriu a totalidade da série sênior, no valor de R$ 303 milhões.

A partir das emissões seguintes, as operações passaram a ocorrer de forma privada, com menor exigência de transparência. Nessas fases, o BTG seguiu como principal investidor por meio do fundo Alternative Assets I, que adquiriu cerca de R$ 850 milhões em carteiras em menos de um ano.

Modelo lucrativo passou a enfrentar entraves

Apesar do potencial de retorno, o modelo começou a apresentar fragilidades com a crise envolvendo o Banco Master. Decisões judiciais passaram a restringir o acesso aos fluxos financeiros dessas carteiras.

Uma das principais controvérsias ocorreu no Rio de Janeiro, onde o Tribunal de Justiça autorizou o bloqueio de valores relacionados a consignados de servidores estaduais para compensar perdas da previdência estadual, estimadas em R$ 970 milhões. O fundo ligado ao BTG e a securitizadora alegaram que os recursos já haviam sido cedidos e, portanto, não pertenciam mais ao banco originador. O argumento, no entanto, não foi acolhido.

Em outro caso, envolvendo créditos vinculados ao INSS, os pagamentos também foram suspensos após suspeitas de irregularidades. Embora tenha havido decisão favorável em caráter provisório, a medida foi revertida posteriormente, mantendo o bloqueio dos valores.

Dúvidas sobre qualidade das carteiras

As dificuldades não se limitam ao campo jurídico. Há indícios de problemas na qualidade dos ativos que lastreiam as operações. Em pelo menos duas ocasiões, carteiras da primeira emissão precisaram ser substituídas, o que levantou questionamentos sobre sua consistência.

Relatórios financeiros também apontam sinais de alerta. Em 2023, a CB Securitizadora registrou prejuízo líquido de R$ 24,6 milhões, o que indica que a estrutura de securitização pode não ter gerado retorno suficiente para compensar custos e riscos.

Além disso, auditores independentes destacaram incertezas relevantes ao analisar os balanços da empresa. A securitizadora registrou mais de R$ 1,2 bilhão em direitos creditórios, mas não foi possível comprovar plenamente o valor desses ativos. Na prática, isso significa que não há garantia clara sobre o lastro das carteiras.

BTG evita comentar operações

Apesar de ter sido protagonista nas operações, o BTG Pactual não comentou o caso quando procurado. Recentemente, o banqueiro André Esteves afirmou publicamente não ter interesse nos ativos do Banco Master atualmente sob gestão do BRB, sem mencionar, no entanto, as carteiras adquiridas anteriormente pelo próprio BTG.

O cenário atual expõe os riscos de estruturas financeiras complexas baseadas em ativos de alta rentabilidade, mas com menor transparência e maior exposição a mudanças regulatórias e decisões judiciais.

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