O Brasil chegou a 2 milhões de pessoas trabalhando por meio de plataformas digitais e aplicativos de serviços em 2025, contingente equivalente a 1,9% dos 102,4 milhões de ocupados no país. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O transporte de passageiros concentra a maior parcela desses trabalhadores, com 1,2 milhão de pessoas, ou 58,9% do total. Os números revelam, porém, que a expansão do trabalho por aplicativos ocorre em um cenário de elevada informalidade e baixa cobertura previdenciária.
Entre os motoristas de automóveis que trabalham por plataformas, somente 25,5% contribuem para a previdência social. Isso significa que 74,5% estão fora dessa proteção. Considerando todos os trabalhadores de serviços por aplicativos, apenas 34% fazem contribuição previdenciária.
Dos 2 milhões de trabalhadores identificados pelo levantamento, 1,8 milhão tinham as plataformas como ocupação principal, 182 mil como atividade secundária e 28 mil utilizavam aplicativos nas duas situações.
Trabalho por plataformas cresce 36,8% desde 2022
Considerando a ocupação principal, o contingente de trabalhadores em plataformas digitais aumentou 36,8% em comparação com 2022 e 9,1% em relação a 2024.
O crescimento mais acentuado no último ano ocorreu entre entregadores de comida e outros produtos. O número avançou 18,6%, passando de 274 mil para 325 mil pessoas.
Os aplicativos de transporte particular de passageiros, sem considerar os táxis, reúnem 941 mil trabalhadores. Outros 220 mil atuam em plataformas voltadas especificamente para taxistas.
As plataformas de entrega concentram 531 mil pessoas. Desse grupo, 325 mil trabalham diretamente como entregadores e 205 mil utilizam os aplicativos para captar clientes para seus próprios negócios de comércio ou alimentação. Outros 300 mil atuam por meio de aplicativos de serviços gerais e profissionais.
O trabalho por plataformas também apresenta forte concentração masculina: 84,4% dos ocupados são homens e somente 15,6% são mulheres. Quase metade, 47%, tem entre 25 e 39 anos.
Mesmo salário mensal exige jornada maior
Um dos principais contrastes revelados pelo IBGE aparece na comparação entre remuneração e tempo trabalhado.
Em 2025, os trabalhadores de serviços por aplicativos receberam, em média, R$ 3.147 por mês, praticamente o mesmo rendimento dos profissionais não plataformizados, que ganharam R$ 3.148.
Para chegar a valores mensais semelhantes, entretanto, os trabalhadores por aplicativos cumpriram jornadas maiores. Foram, em média, 44,7 horas semanais, contra 39,3 horas dos demais trabalhadores do setor privado — diferença de 5,4 horas por semana.
Como consequência, o rendimento por hora dos plataformizados ficou em R$ 16,20, 12% abaixo dos R$ 18,40 registrados entre os demais trabalhadores.
A informalidade também é significativamente maior: alcança 72,1% entre os trabalhadores de plataformas, ante 42,7% entre os demais ocupados no setor privado.
Motoristas trabalham mais e recebem menos por hora
Entre os condutores de automóveis, o país tinha 2 milhões de trabalhadores em 2025, dos quais 905 mil, ou 45,9%, atuavam por meio de plataformas.
Os motoristas de aplicativos receberam R$ 2.873 mensais, em média, trabalhando 45,9 horas por semana. Entre os não plataformizados, a renda ficou em R$ 2.805 para uma jornada semanal de 40,4 horas.
A diferença se inverte quando considerada a remuneração por hora: motoristas de aplicativos receberam R$ 14,40, enquanto os demais alcançaram R$ 16.
A desigualdade é ainda maior na proteção social. Somente 25,5% dos motoristas de aplicativos contribuem para a previdência, enquanto entre os não plataformizados a proporção chega a 59,2%.
Entre motociclistas, 405 mil dos 1,2 milhão de trabalhadores do segmento utilizavam plataformas. Eles receberam R$ 2.221 mensais, com jornada média de 44,9 horas semanais. Apenas 19,4% contribuíam para a previdência social.
Dependência dos aplicativos limita autonomia
A flexibilidade aparece como uma das principais razões para a entrada nesse mercado. Entre os entrevistados, 26,8% apontaram a possibilidade de organizar os horários como motivação, enquanto 24,6% citaram falta de oportunidades em outros empregos e 20,8% disseram buscar rendimentos superiores aos oferecidos no mercado tradicional.
Essa autonomia, entretanto, encontra limites na própria operação das plataformas. Embora 81,1% dos motoristas de transporte particular afirmem poder escolher dias e horários de trabalho, 80,2% dizem que os preços são determinados integralmente pelos aplicativos. Entre entregadores, essa proporção chega a 78,3%.
Além disso, 56,3% dos motoristas afirmaram que bônus e incentivos tarifários influenciam suas jornadas. Outros 28,1% mencionaram sugestões de turnos feitas pelas empresas e 25,3% disseram ajustar suas rotinas diante de ameaças de punições ou bloqueios.
A dependência também aparece no número de plataformas utilizadas. Segundo o IBGE, 62,7% trabalham exclusivamente por meio de plataformas digitais e 62,5% utilizam somente um aplicativo. Ao combinar as duas condições, 38,8% dependem exclusivamente de uma única plataforma.
E-commerce apresenta cenário diferente
O levantamento de 2025 também analisou empregadores e trabalhadores por conta própria que utilizam plataformas de comércio eletrônico para vender produtos ou encontrar clientes.
Nesse segmento, foram identificadas 210 mil pessoas, equivalentes a 4,2% dos 5 milhões de comerciantes do país.
Ao contrário do observado nos serviços de transporte e entrega, as mulheres são maioria no comércio eletrônico plataformizado, representando 51,8% dos trabalhadores. O grupo também apresenta escolaridade mais elevada: 33,5% possuem ensino superior completo.
Os resultados financeiros também são diferentes. O rendimento médio mensal dos comerciantes que utilizavam plataformas de e-commerce chegou a R$ 4.932, 44,4% acima dos R$ 3.415 recebidos pelos comerciantes que não utilizavam essas ferramentas.
Por hora trabalhada, a diferença também favoreceu quem utiliza o comércio eletrônico: R$ 27,40 contra R$ 19,80, uma vantagem de 38,4%.







Deixe um comentário