Banco Master pagou R$ 543 milhões a escritórios de advocacia em quatro anos, segundo CPI

Documentos enviados à CPI revelam repasses a 91 escritórios entre 2022 e 2025, com aumento expressivo no último ano de operação do banco

O Banco Master desembolsou ao menos R$ 543 milhões com pagamentos a 91 escritórios de advocacia entre 2022 e 2025. Os dados constam em documentos enviados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado, no Senado, e mostram uma escalada significativa nos gastos jurídicos da instituição ao longo do período.

A lista de beneficiários inclui algumas das principais bancas do país, com atuação em diferentes áreas do direito. Ao todo, 15 escritórios receberam valores superiores a R$ 10 milhões durante os quatro anos analisados.

Além dos pagamentos a advogados, os documentos também indicam repasses a figuras políticas de destaque, ampliando o alcance das relações institucionais mantidas pelo banco durante sua operação.

Crescimento acelerado das despesas jurídicas

Em 2022, o Banco Master gastou cerca de R$ 40,1 milhões com serviços jurídicos. No ano seguinte, o valor subiu para R$ 56,8 milhões, indicando um crescimento gradual nas despesas com advocacia.

O salto mais expressivo ocorreu em 2024, quando os gastos chegaram a R$ 183,7 milhões, coincidindo com o início das investigações da Polícia Federal envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Já em 2025, ano marcado pelo avanço das apurações e negociações com o Banco de Brasília (BRB), os custos com advogados atingiram R$ 262,4 milhões, o maior patamar registrado antes da liquidação da instituição.

Escritórios mais bem remunerados

O escritório Barci de Moraes lidera a lista de pagamentos, com R$ 80,2 milhões recebidos em 22 meses entre 2024 e 2025. O valor representa uma média anual de aproximadamente R$ 40 milhões.

Em nota, a banca afirmou não confirmar os dados divulgados, alegando que as informações seriam incorretas e obtidas de forma ilícita, destacando ainda o caráter sigiloso de dados fiscais.

Na sequência, aparecem os escritórios do grupo Monteiro, Rusu, Cameirão e Bercht, que somaram R$ 79,1 milhões em pagamentos entre 2022 e 2025. A banca declarou que parte dos honorários contratados não foi quitada pelo banco, apesar dos serviços prestados.

Atuação jurídica e estratégias de defesa

Outros destaques incluem escritórios ligados ao advogado Walfrido Warde, que receberam R$ 76,6 milhões no período. Segundo a defesa, os serviços seguiram critérios de sigilo profissional e conformidade legal.

Warde atuou como um dos principais defensores de Vorcaro desde 2017 e esteve envolvido em estratégias jurídicas consideradas agressivas para tentar reverter a liquidação do banco.

Investigações apontam que advogados teriam atuado para impedir medidas judiciais contra o ex-banqueiro, incluindo tentativas de evitar sua prisão em momentos críticos da operação policial.

Volume de processos e justificativas

O escritório Gabino Kruschewsky Advogados Associados aparece como o quarto maior beneficiário, com R$ 54 milhões recebidos no período. A banca afirmou ter atuado em mais de 45 mil processos relacionados ao banco.

Segundo o escritório, o valor médio por processo gira em torno de R$ 1.200, considerado compatível com o mercado para causas semelhantes.

Outras bancas também defenderam a proporcionalidade dos honorários em relação à complexidade e ao volume de demandas jurídicas enfrentadas pela instituição.

Pagamentos a políticos e ex-autoridades

Os documentos também revelam pagamentos a figuras políticas, como o ex-presidente Michel Temer, que teria recebido valores por serviços jurídicos ligados a negociações do banco.

O escritório ligado a Ricardo Lewandowski recebeu ao menos R$ 6,1 milhões, enquanto bancas associadas ao presidente do União Brasil, Antônio Rueda, somaram R$ 6,4 milhões desde 2023.

As defesas destacam que todas as atividades foram realizadas dentro da legalidade e em conformidade com o exercício profissional da advocacia.

Contexto das investigações e desfecho

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi preso durante a Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal. A ação resultou também na liquidação da instituição pelo Banco Central.

Atualmente, o ex-banqueiro negocia um acordo de delação premiada e permanece detido em Brasília.

Os dados analisados pela CPI não detalham os serviços específicos prestados pelos escritórios, mas indicam que o aumento dos pagamentos coincidiu com a intensificação das investigações e a adoção de estratégias jurídicas para tentar conter os impactos legais e financeiros enfrentados pelo banco.

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