A operação de R$ 132,9 milhões envolvendo uma empresa criada poucas semanas antes da emissão de títulos de dívida ganhou destaque nas investigações da Polícia Federal sobre o empresário Felipe Vorcaro. Segundo documentos encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF), a PF aponta que o executivo do BTG Pactual Rafael Chitarra teria atuado para viabilizar a transação mesmo diante de alertas feitos por setores jurídico e de compliance de uma das instituições participantes do negócio.
O episódio integra o conjunto de elementos apresentados pela PF para justificar a conversão da prisão temporária de Vorcaro em preventiva. Para os investigadores, a operação pode indicar a continuidade de práticas consideradas suspeitas mesmo após o início da Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025.
De acordo com a investigação, a Infrasolar Holding, empresa criada apenas 18 dias antes da operação, emitiu notas comerciais no valor de R$ 132,9 milhões em abril deste ano. O BTG apareceu como comprador dos títulos. Parte dos recursos obtidos foi utilizada para quitar débitos da BRGD, companhia do setor de energia solar controlada por Felipe Vorcaro que possuía dívidas com o próprio banco.
A Polícia Federal classificou a movimentação como um possível “fluxo circular de recursos”, argumentando que o dinheiro liberado retornou ao BTG por meio da quitação dos empréstimos. Os investigadores também apontam uma suposta desconexão entre a estrutura da operação e sua justificativa econômica formal.
Outro ponto destacado pela PF envolve a atuação da Oliveira Trust, responsável pela administração fiduciária e pelas garantias da operação. Segundo o relatório, a instituição identificou inconsistências relacionadas à capacidade econômico-financeira da Infrasolar e comunicou as suspeitas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Mensagens extraídas do celular de Felipe Vorcaro, apreendido durante as investigações, indicariam que o empresário buscou apoio de Rafael Chitarra para superar as resistências internas levantadas pelos setores de compliance e jurídico da Oliveira Trust. Para a PF, o executivo teria desempenhado papel relevante na interlocução necessária para viabilizar o negócio.
Os investigadores também citam conversas nas quais o nome do banqueiro André Esteves teria sido mencionado como forma de reforçar a credibilidade da operação durante reuniões com representantes do mercado financeiro.
BTG contesta suspeitas
Em manifestação apresentada ao STF, o BTG Pactual defendeu a legalidade da transação e afirmou que o negócio fazia parte de uma estratégia regular de reestruturação de crédito. Segundo o banco, a BRGD acumulava atrasos em financiamentos concedidos entre 2020 e 2021, totalizando cerca de R$ 135,8 milhões.
A instituição sustenta que a Infrasolar foi criada especificamente para viabilizar a reorganização financeira e que a operação passou por análises internas de compliance, jurídico e auditoria externa. O banco afirma ainda que a destinação de parte dos recursos para quitação da dívida já estava prevista desde o início da estruturação do negócio.
Enquanto a PF investiga se houve irregularidades na transação, o BTG mantém a posição de que todos os procedimentos seguiram critérios técnicos e regulatórios. O caso segue sob análise do STF e integra um dos principais eixos da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e crimes financeiros relacionados ao grupo empresarial de Felipe Vorcaro.





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