O deputado estadual Rodrigo Bacellar (União), presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), abriu uma sessão no dia 2 de dezembro com discurso citando “uma faxina” para investigar a venda ilegal de ingressos em jogos no Maracanã com a criação de uma CPI.
Na ocasião, disse, ainda, que queria convocar o presidente da Suderj (Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro) para que explicasse os relatos sobre cambistas vendendo ingressos por R$ 1 mil. “Também trazer o Procon, trazer todos os órgãos de fiscalização junto com a Assembleia Legislativa para a gente dar uma faxina nessa questão dos ingressos do Maracanã”, disse Bacellar.
A Polícia Federal citou uma conversa entre Bacellar e o desembargador Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2), para ilustrar a relação de “estreita amizade” entre os dois. O conteúdo dos diálogos foi citado em decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a prisão do magistrado no âmbito de uma apuração sobre o vazamento de informações sigilosas de operações policiais, informa O Globo.
Como parte das provas, a Polícia Federal também cita uma conversa interceptada em que o desembargador pede ingressos para o jogo do Flamengo contra o Ceará, realizado em novembro deste ano pelo Campeonato Brasileiro. Bacellar respondeu que faria o possível para atender ao pedido: “Nem que eu arrebente o portão darei um jeito. Tenho juízo, meu padrinho”.
Na sequência, o magistrado explica que os ingressos seriam para o irmão e o sobrinho, descritos por ele como “flamenguistas doentes”. Bacellar então afirma que “vai dar um jeito” e pede para o desembargador ficar “despreocupado”: “Amanhã eu vou saber a carga que eu tenho exata que a Suderj vai me informar. Eu não vou mesmo, eu sempre fico de casa, entendeu? Eu gosto de ver jogo quieto.”
‘Irmão de vida’, diz Bacellar a desembargador
Em uma conversa de 4 de novembro de 2025, Bacellar escreveu ao magistrado: “Vc eu levo pro caixão meu irmão nunca duvide disso”, após Judice Neto agradecer “pela confiança”. Em outro momento, o ex-presidente da Alerj afirma: “Você é irmão de vida”.
O desembargador também se referia a Bacellar como “irmão” e, em determinado trecho, chegou a escrever: “Te amo”.
Encontro na véspera de operação policial
Além das mensagens, a decisão registra que Bacellar e o desembargador se encontraram presencialmente na noite de 2 de setembro de 2025, na Churrascaria Assador, no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. O encontro ocorreu na véspera da deflagração da Operação Zargun, realizada pela Polícia Federal no dia 3 de setembro.
Na ocasião, o então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias, foi preso por suspeita de atuação para o Comando Vermelho (CV).
Segundo Moraes, “elementos de prova apresentados pela autoridade policial demonstram que a relação de amizade é estreita e próxima”. O ministro acrescenta que a PF concluiu que “os investigados utilizaram dessa relação de intimidade para se encontrar presencialmente, na véspera da deflagração da operação policial, em alinhamento para a prática de condutas delitivas”.
A decisão também menciona que, no mesmo período em que Bacellar e o desembargador estavam juntos, TH Joias trocava mensagens com Bacellar sobre a iminência da operação policial. Para a Polícia Federal, os diálogos indicam que o investigado teve acesso prévio a informações sigilosas.
Segundo a PF, a “estreita relação” entre Bacellar e Judice Neto teve “impacto relevante no prosseguimento das investigações”, com indícios de obstrução de justiça e violação de sigilo funcional.
Prisão de Bacellar e reação da defesa
Na primeira fase da operação, realizada no início de dezembro, Rodrigo Bacellar foi preso e afastado do comando da Alerj. Posteriormente, ele foi solto após decisão da Assembleia Legislativa, que revogou o mandado de prisão expedido pelo ministro do STF.
Em nota, o advogado Fernando Augusto Fernandes, que defende o desembargador Macário Ramos Judice Neto, afirmou que Alexandre de Moraes “foi induzido a erro ao determinar a medida extrema”. Segundo ele, “a defesa apresentará os devidos esclarecimentos nos autos e requererá a sua imediata soltura”.






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