Áudios revelam conluio entre policiais civis do RJ, advogados e traficantes para liberar 10 toneladas de maconha

Carga milionária foi apreendida no Rio, mas liberada após pagamento de propina

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Uma investigação da Polícia Federal revelou um esquema criminoso que envolve policiais civis, advogados e integrantes do Comando Vermelho, responsável pela liberação de uma carga de 10 toneladas de maconha apreendida no Rio de Janeiro. As informações foram divulgadas neste domingo (8) pelo programa Fantástico, da TV Globo.

Segundo a reportagem, a droga saiu do Mato Grosso do Sul com destino à capital fluminense escondida em um caminhão com nota fiscal de frango congelado. A carga foi inicialmente interceptada pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), mas liberada após uma negociação que incluiu o pagamento de propina milionária a policiais civis do Rio. “O que houve foi uma negociação para pagamento de valores em troca da liberação da droga”, declarou o promotor de Justiça Fabiano Oliveira.

Em áudios interceptados pela PF, Lucinara Koerich, esposa de um dos traficantes, relata: “Os polícia tão pedindo dois milhão pra soltar a mercadoria. Eles querem dar um milhão e meio”. O caminhão era escoltado por duas viaturas da Polícia Civil quando foi parado pela PRF na Serra das Araras. Em vez de lavrar o flagrante, os policiais civis iniciaram as tratativas com advogados da facção.

O delegado federal Pedro Duran afirma que os próprios agentes civis usaram o celular do motorista para entrar em contato com os advogados Leonardo Galvão e Jackson da Fonseca, identificados como os principais intermediários da negociação. “Efetivamente, a carga chegou ao destino, mediante o pagamento desse valor e abasteceu às comunidades da região”, afirmou Duran.

Nos áudios, o traficante Carlos Alberto Koerich detalha a situação à sua esposa: “Tô no maior desenrole com o cana aqui, amor. Pegaram o caminhão ali na Serra das Araras.” Ele e o sogro, Marcelo Luiz Bertoldo, vieram de Santa Catarina para acompanhar a entrega no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio.

Jackson da Fonseca afirma, em uma das gravações, que os advogados ficariam com 10% do valor da propina, mas se queixa de que o combinado não foi cumprido: “Chega na hora, os caras levaram tudo, mano (…) A gente que agilizou tudo. Tem consideração nenhuma pelo colega.”

Para liberar o caminhão, o policial civil Deyvid da Silveira redigiu manualmente um termo informando que “nada foi encontrado” e liberando o motorista. Dias depois, no retorno ao Sul, o veículo foi novamente parado pela PRF, que encontrou fragmentos de maconha suficientes para um exame pericial, confirmando a presença da droga.

Durante a investigação, a PF descobriu que os policiais civis envolvidos mantinham um grupo de mensagens chamado “Mente de um Vilão”, onde discutiam esquemas semelhantes desde 2020. Em um dos áudios, o policial Juan Felipe Alves comenta: “A gente pode beliscar alguma coisa (…) Arruma umas nota fiscal, entendeu? Vai ganhando e amenizando nossa dor.”

Foram identificados como envolvidos os policiais civis Juan Felipe Alves, Renan Guimarães, Alexandre Amazonas, Eduardo de Carvalho e Deyvid da Silveira; o policial militar Laercio de Souza Filho; e os advogados Leonardo Galvão e Jackson da Fonseca. Todos, com exceção de Jackson, foram soltos por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que considerou não haver provas suficientes de tráfico, já que o caminhão foi encontrado vazio. Eles respondem em liberdade apenas por corrupção.

Já Carlos Alberto Koerich, Lucinara Koerich e Marcelo Luiz Bertoldo permanecem presos, indiciados por tráfico de drogas e organização criminosa.

A Corregedoria da Polícia Civil informou que todos os agentes envolvidos foram afastados e respondem a processo administrativo que pode resultar em demissão. “A gente respeita muito o trabalho da polícia, mas lamenta a ousadia de quem, em vez de combater o tráfico, se associa a ele”, criticou o delegado Duran. O promotor Fabiano Oliveira completou: “A sociedade deve confiar na polícia, mas ações como essa abalam a credibilidade do Estado.”

As defesas de Laercio de Souza Filho, Renan Guimarães, Leonardo Galvão e Alexandre Amazonas optaram por não se manifestar. A defesa de Juan Felipe Alves afirmou, por nota, que “a decisão do Superior Tribunal de Justiça restabeleceu a justiça e a verdade processual”. Os demais investigados não foram localizados ou não responderam aos contatos do Fantástico.

Veja a reportagem do Fantástico e ouça os áudios no link abaixo do portal G1:

https://g1.globo.com/fantastico/video/audios-revelam-como-policiais-exigiram-propina-para-liberar-caminhao-com-maconha-13664639.ghtml

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