Um levantamento do NetLab, laboratório de estudos de internet e redes sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou 2.326 anúncios sobre o processo eleitoral, as instituições responsáveis por conduzi-lo e seus membros nas plataformas da Meta, dona do Instagram, Facebook e WhatsApp. Eles foram veiculados entre 16 de agosto e 16 de setembro, o primeiro mês da campanha. Segundo o relatório, 1.586 (68,1%) atacam as instituições ou questionam sua legitimidade.
Os anúncios foram publicados por 454 páginas, custaram até R$ 2,1 milhões e alcançaram até 224 milhões de impressões. Os valores são os limites superiores das faixas informadas pela própria Meta.
Os pesquisadores coletaram 6.757 anúncios, dos quais 4.960 foram classificados como político-eleitorais conforme a Resolução 23.732/2024 do TSE.
Moraes é o alvo central
Dos 2.326 anúncios, 1.637 mencionam ou representam autoridades do STF e do TSE, e 94% deles se referem a Alexandre de Moraes, que aparece em 1.542 peças. André Mendonça é citado em 511, Edson Fachin em 157, Dias Toffoli em 142 e Flávio Dino em 141. O TSE é mencionado em 93.
Em 437 anúncios, Moraes aparece ao lado de Mendonça numa narrativa de confronto: Mendonça é descrito como “independente” e “corajoso”, e Moraes como “bandido” e “ditador”.
O volume de peças cresceu a partir de 1º de setembro, quando Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal com mensagens de Daniel Vorcaro a Moraes. O pico foi em 14 de setembro, com 386 novos anúncios, na véspera do julgamento no STF sobre a abertura de investigação contra o ministro.
Quem paga
Perfis ligados a candidaturas concentraram quase 95% dos anúncios pagos sobre o tema. Candidatos do PL investiram até R$ 749 mil, para até 87,2 milhões de impressões, e os do Novo, até R$ 487,6 mil, para até 57,5 milhões. Juntos, respondem por até 59% do investimento e 65% das impressões.
Segundo o estudo, a maior investidora individual foi a candidata ao Senado Cristina Graeml (PSD-PR), com entre R$ 161 mil e R$ 196 mil em 80 peças, todas com críticas a Moraes. Entre os 507 anúncios de candidatos ao Senado que citam o STF ou seus integrantes, 65,3% defendem o impeachment de um ou mais ministros. O relatório também cita Gustavo Gayer (PL-GO), que gastou até R$ 15 mil em uma peça que alcançou mais de 1 milhão de usuários.
Violência, urnas e intervenção estrangeira
O relatório identificou 41 anúncios que incitam violência ou contêm ameaças de ruptura institucional, incluindo montagens feitas com inteligência artificial que sugerem agressão física a Moraes. Em um deles, o candidato a deputado federal Pedro Pôncio (Novo-SP) disse que o impeachment seria “um band-aid em um câncer” e que o país precisaria de “quimioterapia”.
Outros 19 anúncios sugerem intervenção de atores estrangeiros. Um deles, do candidato Renan Jordy (PL-RJ), diz ser “legítimo pedir apoio internacional”. Há ainda 35 peças que levantam suspeitas sobre a segurança das urnas, uma delas com trecho de uma transmissão de Eduardo Bolsonaro e Fernando Cerimedo sobre uma suposta “arquitetura da fraude”, que alcançou ao menos 11 mil usuários.
Em 622 anúncios, o NetLab encontrou campanha negativa, prática vetada pelo TSE em conteúdo pago. O principal alvo foi o presidente Lula, em 475 peças que o associam ao STF e a acusações de corrupção. Flávio Bolsonaro também foi alvo, em anúncios que o ligam, junto com Moraes, a Vorcaro.
Falhas de rotulagem
O estudo aponta 167 anúncios políticos sem o rótulo correto da Meta. Sem ele, a peça deixa a Biblioteca de Anúncios após o fim da veiculação e não mostra alcance, segmentação nem investimento. A Meta corrigiu o rótulo de 29 deles, só depois de terem sido exibidos. Entre os não rotulados, 11 eram de 10 candidatos, e a plataforma recategorizou apenas quatro.
Os pesquisadores encontraram ainda 54 páginas não autorizadas a impulsionar conteúdo político que pagaram por 74 anúncios que promovem ou atacam candidaturas, o que a Resolução 23.610/2019 restringe a candidatos, partidos, federações e coligações. Flávio Bolsonaro foi o principal beneficiado, com 16 peças. Entre as que atacam, Lula teve 14, Flávio 8 e Augusto Cury 3.
Para o NetLab, a desconfiança nas instituições funciona como estratégia política deliberada de campanha. O laboratório afirma que a Meta descumpre normas eleitorais e que, sem dados completos, a extensão real do problema é desconhecida. Os pesquisadores usaram 52 termos de busca e uma ferramenta própria de coleta, de modo que o número de anúncios não representa o total veiculado no período.







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