Alcolumbre resiste à votação do fim da escala 6×1 e atribui impasse a Lula: ‘Ficou 90 dias sem falar comigo’

Governo pressiona presidente do Senado para avançar com uma das principais bandeiras eleitorais de Lula, mas aliados dizem que proposta deve ficar para depois das eleições

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Em meio à tentativa de reconstrução da relação entre o Palácio do Planalto e o comando do Senado, o fim da escala de trabalho 6×1 tornou-se um novo ponto de pressão entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Segundo informa a jornalista Malu Gaspar em sua coluna no jornal O Globo, lideranças governistas querem que o senador coloque a proposta em votação, mas, até agora, ele evita assumir compromisso com um calendário.

A medida estabelece jornada de 40 horas semanais distribuídas em cinco dias, garantindo dois dias de descanso, sem redução salarial. A proposta foi aprovada pela Câmara dos Deputados em maio, mas permanece sem avanço no Senado.

O tema ganhou ainda mais peso por integrar a estratégia política de Lula na campanha pela reeleição. Apesar das cobranças de integrantes da base governista, Alcolumbre tem evitado indicar quando pretende encaminhar a matéria.

Ao ser questionado sobre a demora, o presidente do Senado atribuiu o impasse ao período de afastamento entre ele e Lula.

“A culpa é do Lula, que ficou 90 dias sem falar comigo”, disse Alcolumbre a um influente parlamentar da base governista.

Reaproximação depois de três meses

O relacionamento entre Lula e Alcolumbre atravessou aproximadamente três meses de distanciamento após uma das maiores derrotas do governo no Congresso: a rejeição, pelo Senado, da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).

A indicação foi rejeitada em abril, e Alcolumbre teve participação central na articulação que impôs a derrota ao Planalto. Depois do episódio, Lula resistiu aos pedidos de auxiliares para retomar o diálogo com o presidente do Senado e chegou a afirmar que poderia apresentar novamente o nome de Messias ao Supremo.

Segundo relatos de aliados, Alcolumbre sustenta que havia avisado previamente o governo de que Messias não reunia os 41 votos necessários para ter a indicação aprovada pelo Senado. A vaga havia sido aberta com a aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso, em outubro do ano passado.

A retomada do diálogo ocorreu na semana passada, durante um jantar na casa do ministro Alexandre de Moraes, no Lago Sul, em Brasília. Interlocutores classificaram a conversa como uma “lavagem de roupa suja”, concentrada principalmente nas razões que provocaram o rompimento entre Lula e Alcolumbre.

Um novo encontro entre os dois está previsto para esta quarta-feira (12), desta vez com a expectativa de que sejam discutidos assuntos de interesse do governo no Congresso.

Escala 6×1 entra no cálculo eleitoral

Mesmo com a retomada das conversas, aliados de Alcolumbre avaliam como reduzida a possibilidade de o projeto sobre a escala 6×1 avançar antes das eleições de outubro.

A expectativa desse grupo é de que a discussão no Senado seja retomada somente depois da votação, quando o resultado da disputa presidencial já estiver definido.

Dois fatores pesariam na estratégia. De um lado, empresários vêm pressionando senadores contra a aprovação do texto, sob o argumento de que a redução da jornada pode elevar custos e produzir impactos sobre a economia. De outro, o projeto tornou-se uma bandeira eleitoral de Lula e conta com apoio expressivo entre os eleitores.

Pesquisa Quaest divulgada em julho mostrou que 69% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1, enquanto 22% são contrários.

Um aliado do presidente do Senado resumiu o componente político envolvido na decisão:

“Alcolumbre não vai dar esse presente assim de mão beijada pro Lula”, afirmou à equipe da coluna um aliado do senador. “Lula vai ter que ganhar a eleição sem isso. Depois, leva [a aprovação do fim da escala].”

Lula inclui proposta no plano de governo

A campanha de Lula colocou formalmente a mudança na jornada de trabalho entre os compromissos apresentados ao eleitorado. No plano de governo divulgado na semana passada, com 84 páginas, a candidatura afirma que, em caso de reeleição, continuará atuando junto ao Senado para concluir a votação.

O documento prevê a “ação junto ao Senado Federal para assegurar o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho para 40 horas, sem redução salarial, nos termos aprovados na Câmara dos Deputados.”

A estratégia aumenta a importância eleitoral de uma eventual votação antes de outubro. Uma aprovação permitiria ao governo apresentar a mudança como uma conquista ainda durante a campanha, enquanto o adiamento transferiria a decisão para depois das urnas.

É justamente esse cenário que, segundo aliados, ajuda a explicar a resistência de Alcolumbre em acelerar a tramitação.

Flávio Bolsonaro critica proposta

Segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto, o candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro, posiciona-se contra o projeto nos moldes aprovados pela Câmara e já classificou a iniciativa como “eleitoreiro”.

Durante a Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, realizada em maio, Flávio argumentou que a mudança poderia gerar custos elevados para as prefeituras.

“Todos nós queremos trabalhar menos e ganhar mais, só que é uma legislação que está atrasada, engessada, que vai causar um impacto nos municípios de 50 bilhões reais por ano se for aprovada dessa forma”, discursou.

As divergências entre Flávio e Alcolumbre, porém, não se restringem à jornada de trabalho. O candidato do PL também se irritou com a articulação atribuída ao presidente do Senado para que a federação formada por União Brasil e Progressistas mantivesse posição de neutralidade na disputa presidencial, em vez de apoiar sua candidatura.

Nesta terça-feira, Flávio também atacou Alexandre de Moraes por ter recebido Lula e Alcolumbre em sua residência. O senador chamou o ministro de “grande articulador político de Lula, promovendo encontro dentro da casa dele com outros políticos”.

Votação permanece sem prazo

A reaproximação entre Lula e Alcolumbre abre espaço para que outros temas de interesse do Executivo voltem à mesa de negociações, mas ainda não há indicação concreta de que isso será suficiente para destravar a proposta sobre a escala 6×1.

O projeto reúne ingredientes que tornam a discussão especialmente sensível em pleno período eleitoral: apoio majoritário da população, resistência de setores empresariais e posições divergentes entre os principais candidatos à Presidência.

Enquanto o governo tenta aproveitar a retomada do diálogo para acelerar a votação, Alcolumbre mantém o controle sobre o calendário do Senado. Nos bastidores, a sinalização de seus aliados é de que o fim da escala 6×1 pode ter de esperar a eleição presidencial passar.

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