Existe na Praia do Mar do Norte, em Rio das Ostras, um conjunto de desenhos gravados nas pedras que conseguiu, ao longo de décadas, ser atribuído a piratas, a povos pré-colombianos, a civilizações perdidas e, como não poderia faltar na lista, visitantes de outros planetas. É aquele tipo de história que a internet teria adorado inventar, mas que a realidade foi gentil o suficiente de inventar ela mesma. O Brasil não precisa de roteiristas.
A praia em questão fica a aproximadamente 15 quilômetros do centro de Rio das Ostras, no litoral norte fluminense, dentro do Monumento Natural dos Costões Rochosos _ unidade de conservação que abrange três praias e cinco ilhas. É uma praia de mar azul, areia com conchinhas e ondas levemente agitadas, que talvez não figurasse em nenhum roteiro turístico relevante não fosse pelo detalhe de que alguém passou anos esculpindo figuras nas pedras do seu costão com uma dedicação que qualquer gestor de redes sociais invejaria. O atrativo funciona até hoje: quem quiser ver os desenhos precisa caminhar cerca de duas horas pelo Circuito Permanente de Caminhadas na Natureza, inaugurado pela prefeitura local.
Mas antes de chegarmos ao desfecho vale a pena percorrer com certa calma o ciclo completo de teorias que os petróglifos de Mar do Norte foram capazes de inspirar. É um exercício útil sobre como a imaginação humana opera diante do desconhecido: primeiro vem o assombro, depois vêm os piratas, depois vêm os extraterrestres e, finalmente, quando não há mais saída, vem a verdade.
O que é um petróglifo?
A palavra soa como o nome de um dinossauro anão, mas petróglifo é, na definição mais direta possível, uma imagem gravada na pedra. A palavra vem do grego petros (pedra) e glyphein (gravar, entalhar), e a prática é uma das formas de expressão humana mais antigas e disseminadas que existem.
Quase todos os continentes do planeta possuem petróglifos, e os exemplares mais antigos conhecidos datam de aproximadamente 12 mil anos. São imagens geometrizadas, representações de animais, figuras humanas e padrões abstratos que traduzem, segundo os especialistas, alguma linguagem ritual ou simbólica dos povos que os produziram.
A definição técnica, contudo, não exige que a pedra seja antiga, que o autor seja desconhecido ou que a motivação seja religiosa. Exige apenas pedra e entalhe. É nesse detalhe que reside toda a confusão de Mar do Norte. E convenhamos, toda a graça da história.
Existem mais de 80 petróglifos distribuídos pelas rochas do costão da Praia do Mar do Norte, conforme divulgado pela própria Prefeitura de Rio das Ostras. Os desenhos são geometricamente precisos e retratam principalmente mandalas e animais. A perfeição geométrica, registre-se, foi um dos fatores que mais alimentou as teorias mirabolantes ao longo dos anos. Afinal, quem, sem instrumentos modernos, conseguiria fazer aquilo?

As especulações históricas
Quando imagens inexplicadas aparecem em pedras à beira-mar no Brasil, o roteiro folclórico costuma seguir uma sequência previsível: primeiro alguém menciona piratas, depois aparecem os templários, em seguida, extraterrestres e então, inevitavelmente, entra em cena alguma civilização avançada cujos traços se perderam no tempo.
Com os petróglifos de Mar do Norte não foi diferente. A região do litoral fluminense carrega, de fato, uma história colonial densa. Rio das Ostras tem origem documentada que remonta a cerca de 4 mil anos de ocupação humana, com registros arqueológicos de caçadores e coletores seminômades e sítios demarcados em 1967 pelo Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), segundo o Geoparque Costões e Lagunas.
Esse substrato histórico real ofereceu terreno fértil para teorias que associavam os desenhos das pedras a marcas de civilizações pré-colombianas ou a rotas de navegação de povos anteriores à chegada dos portugueses. O problema é que nenhuma dessas hipóteses chegou a ser sustentada por qualquer pesquisa arqueológica publicada.
A Lenda da Sereia de Rio das Ostras
Rio das Ostras não é uma cidade que economiza em lendas. Entre as histórias que correm de geração em geração na região está a da sereia solitária que habitaria as águas do litoral. Há duas versões sobre o efeito desse encontro: numa quem ouve o canto é abençoado com a sorte; na outra, o som funciona como presságio de tempestade.
É difícil resistir à tentação de especular se a lenda da sereia e os petróglifos das pedras não chegaram a se entrelaçar no imaginário local. Afinal, figuras esculpidas em rochas à beira-mar, descobertas sem autoria conhecida, combinam bem com o tipo de ambiente em que sereias costumam aparecer.

Como os ETS entraram nessa história?
Com cobertura de imprensa. A associação com ETs não foi fortuita: os desenhos começaram a aparecer na década de 1990, exatamente o mesmo período em que surgiram pelo mundo outros sinais geométricos misteriosos, os famosos crop circles, que alimentaram uma onda global de especulação sobre visitantes interplanetários. A coincidência temporal foi suficiente para que os petróglifos de Mar do Norte entrassem nesse caldeirão. Segundo o Portal Rio das Ostras, os petróglifos chegaram a ser tema da Revista UFO (famosa publicação brasileira especializada em ufologia) graça a sua suposta relação com extraterrestres.
O jornal O Globo também cobriu o tema, e ajudou a consolidar o mistério em torno das pedras. Depois de estudos concluiu-se que as imagens foram feitas por seres humanos. A prefeitura, em texto oficial citado pelo Portal Rio das Ostras, chegou a registrar que o autor seria “um artista que deseja se manter no anonimato”. O anonimato, no entanto, duraria apenas até 3 de janeiro de 2012.
Mas afinal, o elas que são?
Arte. Arte contemporânea, feita à mão, com intenção declarada e autor identificado. Em 3 de janeiro de 2012, o escultor Luiz Cláudio Bittencourt, o Dunga, publicou em sua página no Facebook uma revelação que encerrou de vez o mistério, que ele escolheu fazer exatamente no dia em que completou 60 anos.
No post, reproduzido integralmente por diversos jornais, ele escreveu: “Hoje, exatamente hoje, completo meus 60 anos. Aproveito essa data para, com esse novo trabalho sobre os petróglifos de Mar do Norte, fazer a entrega oficial deles à humanidade. Hoje _ sessentão _ me revelo como autor dessa obra, deixando os ETs um pouco tristes.” A obra, segundo ele, foi inspirada e feita em meio a adversidades, durante o que descreveu como “um dos bons tempos” de sua vida.

O motivo pelo qual Dunga manteve o anonimato por tanto tempo foi, ao menos em parte, prático: Mar do Norte fica dentro de uma unidade de conservação ambiental, e gravar nas pedras de uma área protegida é, juridicamente, uma questão delicada. Segundo o Portal Rio das Ostras, foi justamente a proteção ambiental da área que levou o artista a encerrar a produção dos petróglifos.
E no fim das contas, as mesmas leis que impediam a continuidade da obra foram as que, ao preservar o costão, preservaram também os desenhos, que hoje integram oficialmente o Circuito Permanente de Caminhadas na Natureza do município e atraem turistas que encaram duas horas de trilha para vê-los de perto.






Deixe um comentário