Em meados de 1746, um navio vindo de Angola enfrentou uma violenta tempestade ao se aproximar da entrada da Baía de Guanabara. A bordo estava o beneditino Dom Antônio do Desterro Malheiro Reimão, recém-nomeado bispo do Rio de Janeiro. Segundo relatos preservados pela tradição católica e por registros históricos, o religioso em pânico fez uma promessa desesperada ao avistar uma pequena igreja isolada junto ao mar. Se sobrevivesse à tormenta, restauraria completamente o templo. O episódio acabaria mudando não apenas a história da igrejinha dedicada à Nossa Senhora de Copacabana, mas também o nome de uma das praias cariocas mais famosas do planeta.
Naquele tempo, Copacabana ainda não era Copacabana. A região era conhecida pelo antigo nome indígena Sacopenapã, e era um areal distante e quase deserto do centro colonial do Rio de Janeiro, separada da cidade por morros, lagoas e caminhos difíceis. Havia pescadores, pequenas roças e uma ermida simples voltada para o oceano.
A história sobreviveu graças à boa mistura de documentação histórica, tradição religiosa e memória popular. O que começou como uma promessa feita por um padre aterrorizado no meio de uma tempestade marítima terminou incorporado à identidade do Rio. Para muitos historiadores, foi naquele instante, entre ondas violentas e relâmpagos, que nasceu simbolicamente o bairro de Copacabana.
Que bispo foi esse?
Um dos personagens principais de nossa história era filho de fidalgos portugueses e nascido em Viana do Castelo no ano de 1694. Dom Antônio do Desterro Malheiro Reimão era um homem de erudição e prestígio na Ordem de São Bento. Doutor em Teologia pela Universidade de Coimbra, não era um novato no mar. Ele já cruzara o oceano para exercer o bispado de São Paulo de Luanda, em Angola, onde permaneceu por seis anos.
Era uma figura de trânsito livre na corte portuguesa, sendo nomeado pelo rei Dom João V para assumir a imensa Diocese de São Sebastião do Rio de Janeiro em 1745, posto que exerceu até sua morte em 5 de dezembro de 1773, aos 79 anos. É lembrado como o sexto bispo da Cidade Maravilhosa e o responsável por transformar uma modesta capelinha no santuário que daria nome e fama mundial à praia de Copacabana.

A tempestade, a promessa e uma igrejinha avistada do mar
Em 1746, Dom Antônio viajava de Angola ao Rio para assumir a diocese. Mas antes de entrar na baía de Guanabara, eu navio foi surpreendido por uma impetuosa borrasca. Em meio à chuva forte e aos solavancos da nau, o bispo avistou, de longe, a igrejinha dedicada à Nossa Senhora de Copacabana, que ele já conhecia, pois havia passado rapidamente pela cidade em uma viagem anterior entre Portugal e Luanda.
No meio do aguaceiro e aterrorizado pelo naufrágio iminente, ver o topo daquela colina com o pequeno templo foi como encontrar um farol divino. Dom Antônio então prometeu à Nossa Senhora de Copacabana que, caso se salvasse, faria melhorias naquela construção. Salvo do desastre, Dom Antônio cumpriu a promessa.

Mas então já existia uma igreja de Copacabana lá?
Bem, a igrejinha que Dom Antônio avistou no meio da tempestade não era nova. Documentos históricos indicam que em 1732 o templo já estava em ruínas, o que prova que sua fundação ocorreu muito antes da chegada do bispo beneditino. Mas a origem exata da igrejinha de Nossa Senhora de Copacabana, onde hoje está o Forte de mesmo nome, é um dos pontos mais nebulosos de nossa história.
A versão mais difundida atribui a iniciativa aos chamados “peruleiros”: comerciantes bolivianos e peruanos de prata que chegaram à região no século XVII. Os imigrantes trouxeram na bagagem uma réplica da imagem de Nossa Senhora de Copacabana. Sobre um rochedo da praia então chamada Sacopenapã, eles construíram a capelinha.
Outra vertente diz que a igrejinha foi construída por pescadores locais no início do século XVIII. O mais provável é que as duas histórias se misturem: a imagem trazida pelos peruleiros pode ter sido inicialmente abrigada de forma precária e a estrutura, consolidada depois pelos pescadores da região.

A santa boliviana e o Lago Titicaca
Para entender o que uma imagem vinda da Bolívia fazia numa capelinha de pescadores cariocas, é preciso recuar ao século XVI e subir aos 3.800 metros de altitude até a cidade boliviana de Copacabana, situada às margens do Lago Titicaca. O nome vem do aimará “kota kahuana”, que significa “vista do lago” e já era usado desde os incas.
Segundo a tradição andina, um indígena chamado Yupanqui teria esculpido uma imagem da Virgem Maria no século XVI que ficou conhecida como Nossa Senhora de Copacabana, e seu culto rapidamente se espalhou pela região. A devoção cresceu rapidamente e se espalhou pelo mundo através das rotas comerciais coloniais.
No século XVIII, comércio e contrabando entre a região da atual Bolívia e o Rio de Janeiro fizeram com que uma imagem da santa fosse trazida para o Brasil pelos “peruleiros”. E numa dessas reviravoltas do banditismo colonial, há quem afirme que a imagem que veio para cá foi a original e não a cópia.

O poder da Mitra e a mudança do nome
Cumprida a promessa do bispo, a igreja foi completamente reformada em meados do século XVIII e ganhou uma hospedaria para abrigar romeiros. Com a intervenção direta e o aporte financeiro de Dom Antônio, o templo e as terras adjacentes foram integrados ao patrimônio da Mitra Arquidiocesana.
Na prática da engrenagem colonial, isso significava que a Igreja Católica assumia o controle jurídico, administrativo e econômico de toda aquela região pontiaguda do litoral. A administração deixava de ser comunitária ou informal e passava a responder diretamente ao palácio episcopal.
Foi exatamente nesse período de centralização e expansão da romaria que o nome Copacabana começou a ganhar força. A população que frequentava as missas e as festas da padroeira passou a identificar todo o areal circundante pelo nome da santa da igrejinha. Historiadores coloniais e geógrafos concordam pelo menos que a força cultural da paróquia e a influência da Mitra foram determinantes para que o termo boliviano batizasse a praia, transformando o vocábulo andino em sinônimo de praia carioca.

Mas então por que alguns dizem que foi Dom Antônio quem batizou Copacabana?
A expressão é, claro, uma figura de linguagem. Dom Antônio não presidiu nenhuma cerimônia de batismo formal do bairro. Mas o bispo foi a figura central para que o nome “Copacabana” se tornasse predominante. Depois que Dom Antônio, muito abalado pela tempestade, reformou a capela e construiu uma hospedaria, a devoção a Nossa Senhora de Copacabana cresceu enormemente. O nome da santa se impregnou na memória popular e foi se estendendo à praia, ao povoado e, por fim, ao bairro inteiro. Por isso, ainda hoje os historiadores atribuem ao bispo assustado o mérito, ou a “paternidade” simbólica, de ter “batizado” a região com o nome que ela carrega até hoje.

A demolição
A igrejinha que Dom Antônio reformou sobreviveu a dois séculos de história, mas não sobreviveu à Primeira Guerra Mundial. Ou, cá entre nós, ao pretexto que a guerra forneceu. A lógica militar era simples: o local onde ficava a igreja era o ponto mais estratégico da entrada sul da Baía de Guanabara, ideal para posicionar artilharia pesada.
O projeto de uma fortificação naquele ponto remontava ao século XVIII, segundo o Museu Histórico do Exército, mas só foi viabilizado no início do século XX. A pedra fundamental foi lançada em 1908, e o Forte de Copacabana foi inaugurado pelo presidente Marechal Hermes da Fonseca em 28 de setembro daquele ano.
Antes da demolição, porém, a imagem de Nossa Senhora de Copacabana foi recolhida pela família Tefé, uma das mais tradicionais do Rio, e levada para a residência deles em Corrêas, Petrópolis. Em 1953, a imagem foi transferida para uma pequena capela construída dentro das dependências do próprio Exército, onde permanece até hoje como testemunho silencioso da devoção que começou com um bispo apavorado e uma promessa feita sob o rugido de um temporal.






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