Antes de o Rio existir, antes de os portugueses erguerem muralhas e fortalezas, antes de alguém começar a tentar organizar uma cidade no meio de pântanos, charcos e lagos, a Baía de Guanabara já era habitada por um universo invisível povoado por espíritos, seres da mata, criaturas das águas e forças de dar inveja a qualquer autor de fantasia estilo Neil Gaiman. Entre os povos Tupi, essas entidades não eram necessariamente “monstros” no sentido moderno, mas faziam parte de uma visão de mundo na qual a floresta, os rios, o mar e a noite tinham vontade própria.
O problema é que a história colonial não nos deixou um catálogo lá muito confiável dos seres sobrenaturais, especificamente cultuados pelos Temiminó da Guanabara. Os registros dos cronistas europeus são tardios, fragmentários e frequentemente misturam povos, regiões e tradições distintas. A própria historiografia já mostrou como descrições de autores quinhentistas foram posteriormente transformadas em supostos retratos gerais dos povos originários. Ou seja, para reconstruir o sobrenatural da Guanabara é preciso caminhar com cautela.
Até porque há um fio possível. Anhangá, Caapora, Ipupiara e Jurupari pertencem a tradições e registros associados ao universo indígena tupi. Eles não formam uma espécie de “Liga da Justiça Tupi da Guanabara”. São personagens e conceitos de tradições diversas, registrados em momentos diferentes e reinterpretados ao longo do tempo. O que os aproxima é a ideia de que, antes da cidade, a paisagem já era habitada pela presença deles.

Qual principal mitologia entre os povos nativos da região da Baía de Guanabara?
A cosmologia que reinava absoluta nas margens da Guanabara era a dos povos de matriz Tupi, em especial os Tupinambá e os Tamoios, que ali se estabeleceram muito antes dos portugueses decidiram fundar a cidade. Para esses grupos, a natureza, a ancestralidade e o sagrado não eram entidades separadas, mas faces de uma mesma realidade entrelaçada.
Diferentemente do panteão grego ou da teologia cristã, a mitologia tupi-guarani não se organizava em uma hierarquia rígida de deuses, mas em um conjunto de narrativas sobre heróis, espíritos e forças da natureza. A “Terra Sem Mal”, um paraíso mítico para onde iam os espíritos dos mortos, era um dos destinos almejados, mas para chegar lá era preciso antes navegar por um mundo repleto de entidades nada amigáveis.
Não havia uma estrutura de templos ou sacerdotes formais, mas sim a orientação dos pajés e caraíbas. O ecossistema mítico da Guanabara funcionava como um código ético de convivência com a natureza, em que cada pedaço de mata e cada enseada possuía guardiões e regras específicas de respeito.
Os jesuítas suaram a batina para traduzir esse universo simbólico para os grilhões do pecado e da salvação cristã. O que para os povos originários era um espírito protetor, para os padres era um demônio a ser exorcizado. O folclorista Luís da Câmara Cascudo, um dos maiores estudiosos do folclore brasileiro, dedicou boa parte de sua obra a desfazer esses mal-entendidos, mostrando como a visão europeia distorceu sistematicamente as crenças nativas. A mitologia da Guanabara, portanto, é um testemunho vivo de um diálogo (muitas vezes às turras) entre o velho e o novo mundo.

O avô do vencedor do Oscar?
Ipupiara era o pesadelo das águas. O relato mais antigo sobre ele na região da Guanabara vem de Jean de Léry, nos anos 1550, que em “Viagem à Terra do Brasil” reproduz o testemunho de um pescador tupinambá. Durante uma pescaria, um grande peixe teria agarrado a canoa com garras, e o índio, ao decepar a garra com um facão, viu cair dentro do barco uma mão de cinco dedos, idêntica à de um homem.
Ferido, um monstro ergueu a cabeça da água, uma cabeça de traços humanos, e soltou um gemido antes de desaparecer. O próprio Léry hesita em classificar a criatura, sugerindo que o leitor decida se era um tritão, sereia ou “bugio marinho”. Conforme outros relatos de cronistas quinhentistas e seiscentistas, como Frei Vicente do Salvador, o Ipupiara atacava pescadores e banhistas, arrastando-os para as profundezas e devorando olhos, nariz e pontas dos dedos.
Agora, se o Ipupiara era mesmo o ser aquático do filme “A forma da água”, é uma questão mais complexa. Perguntado a respeito o diretor Guilhermo Del Toro disse que não, sua verdadeira inspiração foi o filme “O Monstro da Lagoa Negra” (1954), um clássico do cinema de terror da Universal que o fascinou desde a infância. Só que existe um elo indireto e mitológico entre os dois filmes.
A produção de O Monstro da Lagoa Negra utilizou como pano de fundo lendas sobre homens-peixe da Amazônia, que por sua vez guardam parentesco direto com os mitos de seres aquáticos tupis como o Ipupiara. Ou seja, a ideia de que o filme vencedor do Oscar seria uma adaptação direta de um mito aqui da Guanabara é apenas uma saborosa lenda urbana, embora ambos partilhem o mesmo arquétipo do anfíbio misterioso.


Um veado branco com olhos em chamas
O Anhangá era, na cosmologia Tupi, uma entidade imaterial e protetora dos animais e da floresta, conhecida por punir quem caçasse por ganância ou desrespeitasse fêmeas com filhotes. Segundo os registros do padre José de Anchieta e de Luís da Câmara Cascudo em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, o termo Añanga significava originalmente sombra, espírito ou alma errante. Ele não possuía uma forma corporal fixa, podendo se manifestar como um veado branco com olhos de fogo, um pássaro assustador ou um sopro de vento gelado na mata.
Os jesuítas, fiéis ao hábito de traduzir tudo para a linguagem do pecado, associaram o Anhangá ao demônio cristão, uma leitura que, segundo pesquisadores do tema, distorceu o sentido da coisa. Para os povos originários, ele não era o “mal” absoluto, mas uma força equilibradora, um fiscal da natureza que não hesitava em assombrar e desorientar caçadores predadores. Nada mau para uma criatura cujo único crime era zelar pela fauna da Guanabara antes do IBAMA e do ICM-Bio.

Quem foi o Caapora? E qual a diferença dele para o Caipora?
O Caapora, cujo nome vem do tupi ka’a’pora, “habitante do mato”, é descrito pelo folclorista Luís da Câmara Cascudo, como um índio tapuia de pele escura, sem pelos pelo corpo e com os pés na posição normal, características que o distinguem do primo mais peludo e de pés virados que é o curupira. Fumante inveterado e apreciador de cachaça, o Caapora era papo reto com os caçadores: se recebesse fumo como oferenda, deixava a caça correr em paz; se fosse desrespeitado, soltava seus animais protegidos, geralmente catetos e queixadas, para tirar satisfações.
A confusão entre Caapora e Caipora é antiga, mas sua explicação é de gênero gramatical: Câmara Cascudo defendia que Caapora seria a forma masculina e Caipora a feminina, com a vogal mudando de “a” para “i”. Na prática, porém, o uso regional embaralhou tudo, e em boa parte do país “caipora” também é um gíria para qualquer pessoa perseguida pela má sorte, uma acepção que nada tem a ver com zoologia mística e tudo a ver com o brasileiro que perde o trem por sair de casa atrasado.

O legislador místico transformado em demônio
Jurupari é, talvez, a figura mais complexa e mal compreendida de toda a mitologia tupi. Para os europeus, ele foi rapidamente rotulado como o Mal encarnado. Os missionários católicos, em sua cruzada catequética, associaram Jurupari ao diabo para facilitar a conversão dos nativos, transformando um herói cultural em vilão.
Para os indígenas, no entanto, Jurupari era um herói mítico, um legislador e reformador dos costumes, filho do Sol com a virgem Ceuci. Era o fundador de ritos masculinos e o estabelecedor de uma ordem social, uma figura central em um culto bastante difundido pela Guanabara na época da chegada dos portugueses.

E até o nome “Jurupari” é fonte de debate. O tupinólogo Eduardo Navarro defende que vem do tupi antigo Îurupari, que significa “boca torta”. Já Câmara Cascudo sugeria que seria uma corruptela de “jurupoari”. O que importa é que, mais uma vez, a visão europeia distorceu completamente o significado original, transformando um símbolo de lei e ordem em um ícone do terror. Jurupari representa o conflito fundamental entre duas visões de mundo: a indígena, que via na natureza e em seus heróis uma fonte de sabedoria e organização, e a europeia, que via em tudo que não fosse cristão a marca do demônio.


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