Na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua do Rosário, em pleno coração do Centro do Rio, um dos mais importantes templos coloniais da cidade permanece fechado há quase uma década. Tombada pelo IPHAN desde 1938, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte enfrenta um lento processo de deterioração enquanto aguarda a solução de uma crise administrativa, financeira e judicial que culminou, em 2026, com o afastamento da dirigente da irmandade responsável pelo imóvel por decisão da Justiça.
Do lado de fora, milhares de pessoas passam diariamente apressadas em direção aos escritórios, bancos e estações de metrô. Pouquíssimas levantam os olhos para observar a discreta fachada setecentista comprimida entre edifícios muito mais altos. Ainda menos imaginam que, atrás das portas fechadas, repousam obras de alguns dos maiores artistas do Brasil colonial, ameaçadas pelo tempo, pela umidade e pelos cupins.
A devoção dedicada à “Boa Morte” nasceu para celebrar uma passagem serena da vida terrena para a eternidade. Hoje, quem parece agonizar lentamente é justamente a igreja dedicada a ela, sobrevivente das reformas urbanas de Pereira Passos, das demolições do século XX e da especulação imobiliária, mas incapaz de escapar ao desgaste provocado pelo abandono administrativo. Ou talvez até coisa pior.
Quem é Nossa Senhora da Boa Morte?
Nossa Senhora da Boa Morte não representa uma aparição mariana específica, mas um dos antigos títulos atribuídos à Virgem Maria pela tradição católica. A devoção celebra o momento em que Maria teria encerrado sua vida terrena em paz, cercada pelos apóstolos, antes de ser elevada ao céu na Assunção. A expressão “boa morte” não possui sentido trágico. Pelo contrário. Durante séculos, significou morrer preparado espiritualmente, reconciliado com Deus e amparado pelos sacramentos da Igreja. Essa era considerada uma das maiores graças que um cristão poderia alcançar.
Essa devoção ganhou enorme força em Portugal e, posteriormente, no Brasil colonial, principalmente entre confrarias e irmandades leigas dedicadas às obras de misericórdia. Muitas dessas associações tinham como missão acompanhar os irmãos enfermos, garantir sepultamentos dignos, rezar pelos mortos e prestar auxílio às famílias dos falecidos. Em uma época marcada por epidemias, guerras e alta mortalidade, assegurar uma “boa morte” era também uma forma de assistência social.
No Rio de Janeiro, a devoção acabou sendo unificada à de Nossa Senhora da Conceição quando duas antigas irmandades decidiram fundir suas atividades no início do século XVIII. Dessa união nasceu a Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte, responsável pelo templo que permanece até hoje na Rua do Rosário.

Quando foi construída a Igreja?
A história do edifício atual remonta ao ano de 1735, quando a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição e a Irmandade da Assunção e Boa Morte uniram suas forças e recursos para erguer uma sede própria no Centro da cidade. Após funcionarem de maneira provisória em outras capelas e enfrentarem os entraves burocráticos da colônia, os irmãos iniciaram os trabalhos da estrutura definitiva que cruzou os séculos.
A fachada que hoje se observa na esquina com a Avenida Rio Branco foi concluída na segunda metade do século dezoito, tendo sua inauguração oficial registrada no ano de 1785. O templo conseguiu sobreviver milagrosamente às grandes reformas urbanísticas da capital, incluindo o bota-abaixo promovido pelo prefeito Pereira Passos no início do século vinte para a abertura da antiga Avenida Central, ficando curiosamente colada a um prédio vizinho em estilo neorrenascentista.
Sua importância é imensurável. Tombada pelo Iphan em 1938, ela abriga um acervo com peças dos séculos XVII, XVIII e XIX; incluindo obras de arte, vestimentas sacras, tecidos ornamentais, peças litúrgicas, livros e documentos antigos. Seu altar-mor exibe uma talha rococó de autoria de Mestre Valentim, que também assina a porta do templo, além de lâmpadas de prata e telas dos evangelistas. O coro, hoje infestado de cupins e prestes a ceder, é outro elemento de valor histórico. Em suma, é um museu de arte sacra a céu aberto. Ou melhor, a céu fechado, já que ninguém entra lá há quase dez anos.

Mas qual é a situação da Igreja e por que ela está fechada?
A resposta oficial, segundo apurações do Iphan e da Arquidiocese do Rio, é curta e grossa: abandono. O Vicariato da Arquidiocese do Rio, responsável por fiscalizar irmandades e ordens terceiras, formalizou denúncia ao Iphan relatando que o interior do templo está infestado de cupins, traças e mofo, com risco para peças de valor inestimável protegidas pelo tombamento. Um laudo técnico da empresa Imunegold, anexado à denúncia, apontou elevado nível de degradação estrutural.
O ofício ao Iphan descreve o cenário: “todo o interior do templo, que está comprometido por falta de manutenção e cuidados, encontra-se infestado de cupins, traças e mofo”. Peças de valor inestimável estão em ruínas. Vestimentas sacras dos séculos XVII a XIX estão “estufadas, desabando e na iminência de se esfarelarem”. O templo, que chegou a ser usado como depósito de lixo e materiais de construção, teve sua fachada “lambrecada” de branco na calada da noite para esconder os defeitos, quando o Iphan e a Polícia Federal foram realizar vistorias no local para verificar possível extravio de peças.
E mente quem diz que essa situação absurda é falta de dinheiro. A renda proveniente de aluguéis de imóveis pertencentes à irmandade, que incluem apartamentos, lojas e salas comerciais em áreas valorizadas da cidade, é milionária, mesmo com a igreja fechada ao público, o que tornou ainda mais gritante o contraste entre a fortuna administrada e o estado de decadência do templo.
E foi só mexer um pouquinho para a justiça ter uma surpresa.

Quem é o responsável pela Igreja?
A proprietária do templo é a Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte, associação de fiéis católicos com personalidade jurídica própria, fundada em 1721. Isso significa, tecnicamente, que a irmandade não pertence de forma direta à Arquidiocese do Rio de Janeiro, ainda que exista vínculo canônico entre as instituições e seus membros sejam, ao menos nominalmente, católicos.
Mas o detalhe é que a irmandade é administrada há cerca de 25 anos pela mesma família, os Rachid José Pedro, o que levou moradores e frequentadores do Centro a apelidarem a instituição de “Nossa Senhora dos Rachid”. Ao lado da Venerável Ordem Terceira, o mesmo clã comanda também a Venerável Irmandade do Glorioso Mártir São Braz, que não possui templo próprio, mas mantém um altar histórico na Igreja de São Bento.
Em 21 de janeiro deste ano o Ministério Público formalizou denúncia contra Brígida Rachid José Pedro pelo desvio de cerca de R$ 12 milhões de quatro instituições católicas centenárias ao longo de aproximadamente dez anos, respondendo pelos crimes de apropriação indébita e lavagem de dinheiro.
As instituições vitimadas foram a Venerável Irmandade do Glorioso Mártir São Braz, o Patrimônio da Caridade dessa mesma irmandade, a Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte e a Caixa de Caridade dessa ordem. Segundo a denúncia, o mecanismo central do esquema foi a empresa Support Serviços Empresariais, criada pela própria acusada e descrita pelo MP como “uma empresa de fachada, desprovida de capacidade operacional, criada exclusivamente para permitir a transferência ilícita de recursos das irmandades”. A empresa tinha capital social de apenas dois mil reais, nenhum funcionário, mas movimentava milhões de reais. Resumindo: Brígida é acusada de contratar a própria empresa para gerir os imóveis das irmandades, cobrando valores milionários por serviços simulados ou inexistentes.
E quem é Brígida Rachid José Pedro?
Brígida é organista de profissão e assumiu o controle das irmandades em 2011 e 2012, sucedendo seus pais na administração e passando a exercer, segundo o Ministério Público, controle absoluto sobre o patrimônio eclesiástico das instituições. O lado irônico da história é que reportagens afirmaram que ela já havia sido investigada anteriormente por exercício ilegal da profissão de dentista, e que atuou também como síndica de um edifício comercial na Rua Buenos Aires, onde teria sido obrigada a devolver mais de um milhão de reais desviados da administração condominial, firmando acordo interno para evitar maiores desdobramentos.
De acordo com a denúncia do MP, a acusada recebia parte dos aluguéis em dinheiro vivo, inclusive dentro da sacristia da própria igreja, e chegou a firmar contratos de locação de imóveis pertencentes às irmandades em seu próprio nome. Seus irmãos também ocupam cargos nas irmandades, um como vigário do culto e outro como tesoureiro em ambas as ordens, além de sua companheira, igualmente citada nas investigações.

Qual a situação do processo?
O processo corre em segredo de Justiça, mas a acusação é grave e robusta. Brígida teria usado as irmandades como verdadeiras “caixas eletrônicos” pessoais, enquanto o patrimônio sagrado se deteriorava. Ao aceitar a denúncia, o juiz Renan de Freitas Ongaratto, da 2ª Vara Especializada em Organização Criminosa, determinou o afastamento imediato de Brígida da gestão das irmandades, a nomeação de um interventor indicado pela Mitra Arquiepiscopal e a proibição de acesso da acusada às sedes, documentos, contas bancárias e demais estruturas das instituições, incluindo contato com funcionários.
O caso ganhou apelido informal entre causídicos e jornalistas: “Lava Jato da Fé”. Segundo um dos irmãos de Brígida, ouvido por uma reportagem, o rombo total pode chegar em suas palavras, a cerca de meio bilhão de reais, valor que ainda não foi confirmado oficialmente pelas investigações do Ministério Público.

Existe alguma proposta de restauro ou recuperação?
Ao menos no papel. Diante da denúncia da Arquidiocese, o Iphan classificou a intervenção como de caráter emergencial, reconhecendo que todo o interior estava comprometido por infestação e risco às peças protegidas pelo tombamento. A nomeação de um interventor ligado à Mitra Arquiepiscopal, determinada pela Justiça junto com o afastamento de Brígida, abre caminho para que a administração da irmandade e, por consequência, do templo, passe a ser conduzida sob supervisão eclesiástica direta.
Vale lembrar que, conforme o Decreto-Lei 25 de 1937, que rege o tombamento federal no Brasil, a responsabilidade pela conservação de um bem tombado é sempre de seu proprietário, cabendo ao Iphan fiscalizar e recomendar as adequações necessárias, mas não custear obras por conta própria. Isso significa que qualquer restauro efetivo da Igreja da Boa Morte dependerá, na prática, da gestão que a irmandade tiver daqui para frente, agora sob os olhos mais atentos da Justiça, do Ministério Público e do próprio Iphan.
Procurados, os membros da família não retornaram as mensagens.






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