Em 5 de julho de 1924, São Paulo acordou em guerra. Batalhões do Exército e da Força Pública se sublevaram contra o presidente Arthur Bernardes e, em poucas horas, transformaram aquela estranha cidade cinza ao Sul do País (#xexeolives) em campo de batalha, com trincheiras cortando ruas, canhões apontados para palácios e uma população, à época, de mais de 700 mil habitantes tentando entender o que aconteceu para, de repente, o céu cair sobre suas cabeças. Tudo porque, depois de quatro dias tentando desenrolar a insurreição na conversa, as forças do governo do Brasil decidiram bombardear pesadamente São Paulo, principalmente a região central e bairros como Brás, Belenzinho, Mooca e Vila Mariana. O saldo, ao fim de 23 dias, foi medido em centenas de mortos, milhares de feridos e uma cidade em ruínas, um episódio que a historiografia batizou, com ironia quase cruel, de Revolução Esquecida.
E esquecida é a palavra certa, porque, vamos combinar: não é todo mundo que consegue bombardear a própria capital econômica por quase um mês e depois passar cem anos relegando aquilo a um ou duas linhas dos livros de história. Enquanto a Guanabara ostenta um certo orgulho com suas revoltas navais e fortes rebelados, São Paulo parece ter decidido que sua guerra particular era assunto para esquecer bem no fundo da gaveta das meias. Talvez porque, ninguém aqui saiu bonito na foto. Nem os tenentes, que perderam, muito menos o governo, que arrasou bairros inteiros para vencer.
Só que esse movimento acabou dando início a um novo capítulo. Os remanescentes da Revolta de 1924 encontraram-se em Foz do Iguaçu com as forças do capitão Luís Carlos Prestes, que vinha do Rio Grande do Sul, e formaram a Coluna Prestes, que percorreu mais de 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil entre 1925 e 1927, tornou-se um símbolo da resistência tenentista contra a República Velha. A Revolta de 1924, portanto, não foi um movimento isolado: ela foi o trampolim para a mais longa e épica marcha militar da história brasileira. O que começou como um bombardeio sobre São Paulo terminou como uma epopeia sertaneja. Mas a capital paulista, coitada, ficou apenas com os escombros.

O que foi e o que motivou a Revolta Paulista de 1924?
A Revolta Paulista de 1924, frequentemente apelidada de “A Revolução Esquecida”, foi o maior conflito urbano já registrado no Brasil. O movimento integrou a segunda fase do tenentismo, corrente político-militar composta por jovens oficiais do Exército rebelados contra as oligarquias rurais da política do “café com leite”. Segundo historiadores como Boris Fausto e Hélio Silva, a insurreição resultava do acúmulo de tensões herdadas da Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, ocorrida dois anos antes na Guanabara.
Segundo historiadores como Boris Fausto e Maria Yedda Linhares, os rebeldes exigiam a renúncia do presidente Artur Bernardes, a instituição do voto secreto, a moralização do sistema judiciário, o ensino público gratuito e a reforma do modelo eleitoral vigente. Os líderes do levante, sob o comando militar do general da reserva Isidoro Dias Lopes e com figuras chave como Joaquim Távora, Juarez Távora, Eduardo Gomes e Miguel Costa, nomes que a história reservaria para capítulos posteriores, viam o governo federal como uma ditadura disfarçada de democracia constitucional.
Durante quantos dias a cidade esteve sob o controle dos insurgentes?
Os oficiais rebeldes mantiveram o controle efetivo sobre a capital paulista durante vinte e três dias ininterruptos, de 5 a 27 de julho de 1924. No primeiro dia do levante, o presidente (o mesmo que governador) de São Paulo, Carlos de Campos, abandonou o Palácio dos Campos Elíseos e refugiou-se em um vagão do trem governamental na estação de Guaiaúna, no bairro da Penha, deixando a sede do governo abandonada à própria sorte.
Nos primeiros dias, os rebeldes conseguiram expulsar as tropas legalistas para a periferia, mas a partir de 11 de julho, com a chegada de reforços federais, a situação se inverteu completamente. Ao longo dessas três semanas, os rebeldes estabeleceram seu quartel-general no Palácio dos Campos Elíseos e organizaram a administração provisória.
Importante frisar que o controle dos revoltosos sobre a capital nunca foi absoluto. Eles dominavam o centro e alguns bairros, mas as forças do governo, posicionadas em áreas como a Penha e o Ipiranga, mantinham pressão constante.

Daí o governo resolveu bombardear a cidade? Simples assim?
Sim, e de forma avassaladora. Nos primeiros dias do conflito, os rebeldes detinham a vantagem em poder de fogo, disparando seus canhões Krupp de 75 e 105 milímetros de posições como o Campo de Marte e o Cemitério do Araçá contra alvos legalistas. Os tiros rebeldes, porém, eram imprecisos e acabaram vitimando civis, mas pelo menos pressionaram o governador Carlos de Campos a retirar as tropas legalistas para a periferia no dia 8. Mas o quadro se inverteu rapidamente.
O general Eduardo Sócrates, comandante das forças brasileiras, recebeu reforços contínuos e acumulou uma vantagem esmagadora: mais de cem peças de artilharia, incluindo modelos Schneider e Saint Chamond, além da peça mais poderosa do conflito, de 155 milímetros. Os rebeldes contavam com 26 canhões Krupp de 75 e 105 milímetros.
Como detalha o jornalista e historiador Moacir Assunção no livro “São Paulo na Linha de Frente”, a estratégia do governo federal não mirava exclusivamente os pontos de resistência militar tenentista, mas buscava instaurar o pânico generalizado na população para pressionar os rebeldes à rendição. Casas, igrejas, hospitais e fábricas foram reduzidos a escombros sob disparos contínuos posicionados em pontos elevados ao redor da capital, como o Morro do Jaraguá e a Penha.
A intensidade chegou a níveis de terror deliberado. O resultado foi uma cidade parcialmente destruída e uma contagem de mortos que, segundo Boris Fausto, resultou em grande parte da “imperícia” dos artilheiros. Seria piada se não fosse trágico.

Foi a FAB quem executou esse bombardeio?
Não, a FAB como instituição autônoma só foi criada em 1941, dezessete anos depois da Revolta Paulista. Em 1924, a aviação militar brasileira ainda estava dividida entre a Aviação Militar, vinculada ao Exército, e a Aviação Naval, vinculada à Marinha. Foi essa estrutura que operou os ataques aéreos.
Um detalhe curioso é que os revoltosos foram os primeiros a usar aeronaves no conflito, sob orientação do tenente Eduardo Gomes, requisitando aviões civis para missões de reconhecimento e lançamento de panfletos. Nenhum deles tinha poder de fogo.
Do lado do governo brasileiro, a Escola de Aviação Militar deslocou seis aviões Bréguet 14, dois Nieuport e dois Spad. Já a Aviação Naval enviou duas esquadrilhas equipadas com aviões Curtiss F-5L, Curtiss MF e HS-2L, que além dos bombardeios tinham a missão de bloquear o porto de Santos.

Quais bairros foram mais atingidos?
Os mais castigados foram Brás, Belenzinho, Mooca, Cambuci, Ipiranga, Vila Mariana e partes do Centro. Não por acaso, entre eles estavam justamente regiões operárias e industriais da cidade, onde se concentravam as fábricas, as linhas férreas e a mão de obra que sustentava o progresso paulistano. A escolha desses alvos tinha lógica militar: os rebeldes utilizavam as fábricas e os galpões como posições defensivas, e as vias férreas como rotas de abastecimento.
O que sobrou desses bairros foi um cenário de devastação. O Brás, bairro de imigrantes italianos que fervilhava de pequenos comércios e oficinas, ficou irreconhecível. A população civil, que não tinha culpa nem de um lado nem de outro, viu seus lares desabarem e suas vidas serem interrompidas por um conflito que não escolheu.
A infraestrutura urbana entrou em colapso. As fábricas paralisaram suas atividades assim que as primeiras explosões ecoaram. A produção industrial, que na época já começava a colocar colocava São Paulo como o principal polo econômico do país, foi interrompida por três semanas. O fornecimento de energia elétrica era intermitente, o abastecimento de água foi comprometido e o serviço de telefonia, quando funcionava, era usado quase exclusivamente para comunicações militares.
A cidade, que se orgulhava de sua modernidade, viu-se atirada de volta ao século XIX em poucos dias. Hospitais, como a Santa Casa, ficaram superlotados, com mais de 2,3 mil feridos internados apenas naquela unidade. A precariedade era tamanha que médicos trabalhavam sob fogo cruzado, atendendo tanto civis quanto militares de ambos os lados.

A população não tentou fugir?
Sim e em proporções que hoje soam quase inacreditáveis. Os estudos indicam um êxodo de que quase metade da população da cidade, o que, numa metrópole de mais de 700 mil habitantes, representa uma cifra monumental. Na etapa final do conflito, aviões legalistas distribuíram sobre a cidade panfletos instando a população a abandonar a cidade para evitar os efeitos das operações militares que seriam executadas em poucos dias, gerando pânico generalizado, já que, os 400 mil restantes na cidade não tinham como se retirar.
As cenas da fuga generalizada, descrita por cronistas da época, lembra as movimentações em massa das guerras europeias: carroças, automóveis, bondes improvisados e até mesmo carros de bois transportavam pessoas que não sabiam se um dia voltariam. A cidade viu-se parcialmente esvaziada. Os que permaneceram refugiaram-se em porões, igrejas e subsolos, tentando escapar das bombas.
Qual a estimativa de mortos, feridos e desaparecidos?
As estimativas variam, e essa imprecisão é um dos sintomas do esquecimento a que a revolta foi condenada. O número mais citado é de cerca de 500 mortos durante os 23 dias de combate, mas há fontes que elevam esse número para 800. A historiadora Ilka Stern Cohen, autora do livro “Bombas sobre São Paulo”, aponta para algo em torno de 720 mortos.
Já o historiador Moacir Assunção indica que a revolta deixou um saldo estimado de 500 a 800 mortos, além de mais de 4.000 feridos civil e militarmente. A grande maioria das vítimas mortais era composta por civis atingidos pelos estilhaços dos bombardeios nas zonas operárias. O número de desaparecidos é ainda mais incerto. Muitos corpos foram soterrados sob os escombros e nunca recuperados. Outros foram enterrados em valas comuns, sem identificação. O número de desabrigados passou de 20 mil e aproximadamente dois mil edifícios foram destruídos.

O desfecho e o legado surpreendente
Na noite de 27 para 28 de julho de 1924, percebendo a impossibilidade de manter a defesa da capital diante da superioridade de fogo das tropas federais, o comando rebelde organizou uma evacuação ordenada e secreta por via ferroviária em direção ao oeste paulista. E assim, os revoltosos embarcaram em 11 trens de carga, levando cerca de 3.500 homens, cavalos, artilharia e alimentos, em direção ao Paraná.
E aqui, a História mostra que nem sempre dá voltas. Ela capota.
Em abril de 1925, no cruzamento entre as localidades de Benjamim e Santa Helena, no oeste paranaense, às margens da Tríplice Fronteira, os rebeldes paulistas se encontraram com tropas rebeladas do Rio Grande do Sul comandadas por um certo capitão chamado Luiz Carlos Prestes. Desse encontro nasceria a 1.ª Divisão Revolucionária, historicamente consagrada como a Coluna Miguel Costa-Prestes. Sob o comando operacional de Prestes e a chefia de Miguel Costa, o grupo iniciou a marcha de mais de 25 mil quilômetros pelo interior do país, um dos capítulos mais lendários e mais estudados da história militar brasileira, ironicamente muito mais lembrado do que a revolta paulistana que o originou.

Por que não se estuda nada sobre isso na escola?
O apagamento da Revolta de 1924 decorre de fatores políticos e historiográficos consolidados ao longo do século vinte. Em primeiro lugar, o episódio representou um espetáculo vergonhoso para a institucionalidade brasileira, pois expôs o próprio governo federal utilizando bombas contra seus cidadãos indefesos, o que motivou um esforço consciente de censura e silenciamento pós-conflito.
Além disso, na avaliação da historiadora Ilka Stern Cohen, a elite política paulista preferiu construir uma narrativa de martírio centrada na Revolução Constitucionalista de 1932, na qual São Paulo figura como defensora da Constituição contra Getúlio Vargas. Paralelamente, os livros didáticos nacionais priorizaram a revolução dos anos 1930 como o grande divisor de águas da República Velha, relegando o levante tenentista de 1924 a uma nota de rodapé historiográfica.

Ainda existem vestígios da revolta?
Existem, embora poucos e discretos. O Apartes Digital, veículo institucional da Assembleia Legislativa de São Paulo, registra que algumas cicatrizes podem ser vistas, como marcas de balas na Igreja Santa Ifigênia e no Liceu Sagrado Coração de Jesus, ambos na região central.
Algumas fotografias da época, preservadas em acervos como o do Instituto Moreira Salles, mostram a destruição. Mas fotografias não são marcas físicas no espaço público. O que resta, na verdade, é o silêncio. A cidade, que se reconstruiu sobre os escombros da revolta, preferiu não deixar vestígios. Talvez porque lembrar que a capital foi bombardeada por seu próprio governo seja um incômodo político. Talvez porque as vítimas tenham sido, em sua maioria, operários anônimos, cujas histórias não interessam à memória oficial.
O fato é que, para encontrar marcas da Revolta de 1924 em São Paulo, é preciso menos olhar para os prédios e mais para as ausências. Para as lacunas nos livros de história, para as datas que não são feriados e para os heróis que não têm estátuas.


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