A Basílica Santuário de Nossa Senhora da Penha de França fica no alto de um penhasco de 111 metros no bairro da Penha, zona norte do Rio de Janeiro, e desde 1635 acumula milagres, lendas, samba e joelhos esfolados. Fundada por um capitão português que jurou dever a vida a um lagarto providencial, a igreja hoje classificada como Basílica Menor pelo Vaticano recebe peregrinos de todo o Brasil por seus 382 degraus esculpidos no granito, uma escadaria que começou como promessa de uma mulher desesperada para ter um filho e se tornou o mais famoso calvário devocional da cidade.
Construída ao longo de séculos, a igreja é cercada por histórias que misturam fé, tradição popular e episódios pouco documentados, alguns deles atravessando o limite entre o registro histórico e o imaginário coletivo. A famosa escadaria de 382 degraus, por exemplo, tornou-se não apenas um desafio físico, mas também um ritual espiritual para muitos devotos.
E se você pensa que o local é apenas um santuário silencioso, saiba que ali já funcionou um ponto estratégico para o tráfico de drogas (usado como mirante), cenário para clipes musicais e novelas, e até inspiração para sambistas lendários como Cartola e Noel Rosa, que transformaram a famosa Festa da Penha em letra de música. Entre um milagre e outro, o local acumula curiosidades que vão do número exato de degraus ao misterioso “Corredor das Promessas”, onde muletas e roupas abandonadas contam histórias que a medicina tenta explicar, mas que a fé guarda onde não costuma falhar.

A batalha dos répteis
Tudo começou em 1635, não com uma igreja grandiosa, mas com uma modesta capela erguida por um fazendeiro chamado Capitão Baltazar de Abreu Cardoso. Diz a lenda que, diante do ataque de uma serpente venenosa, ele deu um grito pedindo ajuda a Nossa Senhora da Penha que o teria acudido enviando na mesma hora um lagarto, inimigo natural das cobras, que enfrentou o réptil travando uma luta que permitiu sua fuga.
O capitão, proprietário das sesmarias da região, decidiu então construir um pequeno templo no topo do penhasco em agradecimento. A capela original, rústica e simples, foi a semente do que viria a se tornar um dos principais centros de peregrinação do país.
Nos anos que se seguiram, o capitão doou todas as suas propriedades à Igreja. Como o patrimônio era considerável e precisava ser gerido com responsabilidade, foi criada a Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Penha, no ano de 1728.
No entanto, o edifício que vemos hoje, em estilo neogótico com suas duas torres imponentes, é resultado de obras iniciadas em 1900 e concluídas em 1925, incluindo a instalação de um carrilhão com 25 sinos vindos de Portugal, adquirido na Exposição Nacional do 1º Centenário da Independência. O reconhecimento máximo veio em 2016, quando o Papa Francisco elevou o santuário à categoria de Basílica Menor.
É verdade que um raio partiu a rocha, permitindo a construção da escadaria?
Bom, essa é uma das lendas mais conhecidas associadas ao santuário. A tradição oral afirma que um raio teria atingido a pedra onde hoje está a escadaria, efetivamente abrindo passagem para sua construção. No entanto, não há registros históricos ou geológicos que confirmem esse evento específico.
Especialistas apontam que a formação rochosa da região é resultado de processos naturais de erosão e fraturamento ao longo de milhares de anos. A narrativa do raio, portanto, deve ser entendida como parte do imaginário religioso e simbólico, comum em locais de peregrinação.
Então como surgiu a escadaria?
Segundo o site oficial da igreja e diversas fontes históricas, no ano de 1817 subia a pedra um piedoso casal, quando a esposa comentou com o marido que pediria à Nossa Senhora da Penha para interceder por eles para que Deus lhes concedesse um filho, já que estavam casados há alguns anos e nada. O fato de estarem escalando uma pedra no meio de coisa nenhuma talvez fosse uma explicação mais plausível.
Mas promessa foi que se tivesse um filho ela mandaria esculpir no duro granito do penhasco uma escadaria para facilitar o acesso dos devotos de Nossa Senhora da Penha ao Santuário. O filho veio em 1818, e a escadaria foi entregue em 1819. Vale notar que o trabalho de talhar 382 degraus no granito vivo foi realizado por trabalhadores escravizados, conforme registra o Rio Memórias, baseado em documentação histórica.
A lenda do raio, embora presente na imaginação popular, parece ser uma variante folclórica que se misturou à história real — uma confusão compreensível num santuário que, desde o princípio, atribui à intervenção divina cada obstáculo superado.

Afinal, são ou não são 365 degraus?
A pergunta parece simples, mas esconde uma pequena batalha contra o mito. O número de 365 degraus, um para cada dia do ano, é tão poético e sedutor que virou mais uma lenda urbana. Mas as fontes são unânimes: são 382 degraus talhados na pedra, mais do que o número de dias do ano.
A explicação mais plausível é simplesmente geográfica e de engenharia: o número de degraus foi determinado pelo relevo do penhasco. Quem financiou a promessa mandou esculpir quantos degraus fossem necessários para vencer os 111 metros de altura. E o resultado foram 382 unidades.
Não há registro de um projeto arquitetônico deliberado que explique o número como símbolo ou referência numérica específica. O penhasco tinha aquele tamanho; a escadaria seguiu a pedra. A narrativa dos 365 degraus provavelmente surgiu como uma racionalização poética posterior. Afinal, seria bonito demais que uma escadaria de devoção tivesse exatamente um degrau por dia do ano.
Como surgiu a tradição de algumas pessoas subirem os degraus de joelhos?
A tradição de subir os 382 degraus de joelhos é a expressão máxima do sacrifício e da penitência no catolicismo popular. Ela surgiu naturalmente com o aumento das romarias no século XIX, especialmente após a construção da escadaria, que facilitou o acesso, mas não eliminou o caráter de desafio físico. Os fiéis, em agradecimento por graças alcançadas, como curas de doenças graves ou a superação de dificuldades financeiras, oferecem o sofrimento da subida como prova de sua fé.
Essa prática, que exige horas de esforço e resulta em inevitáveis ferimentos nos joelhos, é vista como um ato de “pagamento da promessa”. A igreja não incentiva a prática por questões de segurança e saúde, mas também não a proíbe, respeitando a tradição. Em dias de grande movimento, especialmente em outubro, mês da festa da padroeira, é comum ver fileiras de devotos subindo lentamente, muitos carregando velas ou imagens, transformando a escadaria em um cenário de dor e fé que fortalece a fama do santuário.
Cartola, fiel frequente da Festa da Penha, deixou registrado em canção que ele fazia questão de ir à festa. Mas confessava, com a sinceridade que só o samba permite, que não subiria de joelhos para não estragar o terno que havia pedido emprestado.

O que é a lenda das aves protetoras de Nossa Senhora?
Esse tema permanece no limiar entre a memória oral e a mitologia local. O alto do penhasco sempre foi um habitat natural para aves como urubus, carcarás e gaviões. Por isso, entre os fiéis mais antigos, surgiu a lenda de que essas aves eram “enviadas” por Nossa Senhora para proteger o santuário de más intenções ou para vigiar os devotos que subiam a escadaria.
Embora não haja registros oficiais da igreja canonizando essa crença, ela faz parte do imaginário popular. Hoje, com a urbanização intensa ao redor, a presença dessas aves diminuiu, mas elas ainda podem ser avistadas planando sobre o morro, mantendo viva essa curiosa tradição.
O que é o Corredor das Promessas?
Também conhecido como Sala dos Milagres ou Museu de Ex-votos, é um dos espaços mais emocionantes e curiosos do santuário. Localizado anexo à igreja, esse salão abriga centenas de objetos deixados por fiéis como testemunho material de milagres que acreditam ter recebido.
É comum encontrar ali fotografias antigas, cartas de agradecimento, mechas de cabelo, roupas de bebê, diplomas e, principalmente, réplicas de membros do corpo humano (pernas, braços, cabeças) feitas em cera ou madeira.
O que mais chama a atenção, no entanto, são as muletas, cadeiras de rodas e aparelhos ortopédicos abandonados. Esses itens, muitas vezes enferrujados, simbolizam curas físicas que os devotos atribuem à intercessão de Nossa Senhora da Penha.
O acervo é tão rico que chega a ser comparado ao famoso Santuário de Fátima, em Portugal. Este espaço é mantido pela irmandade e, apesar de estar aberto à visitação, funciona como um arquivo silencioso da dor e da gratidão humanas.

A Igreja costuma ser cenário de muitas produções de cinema e TV?
A imponência da Igreja da Penha e seu cenário único fizeram do local um estúdio natural para produções audiovisuais. A novela “Viver a Vida”, de Manoel Carlos, por exemplo, utilizou a igreja como cenário para cenas de redenção e reflexão de suas personagens.
A estética da escadaria e a vista panorâmica também serviram de pano de fundo para diversos clipes musicais, especialmente de artistas ligados ao samba e à MPB, que buscam captar a essência da Zona Norte do Rio.
Mais recentemente, o local ganhou notoriedade internacional indireta: em 2016, um teaser da série Demolidor (Netflix) utilizou imagens do Cristo Redentor e, em alguns cortes, a silhueta característica da Igreja da Penha apareceu em um contexto global, representando a cidade. Além disso, a própria história do local, incluindo o período em que o tráfico de drogas usou suas torres como mirante (antes da pacificação de 2010), foi tema de documentários e reportagens jornalísticas nacionais e internacionais.
Como ela é por dentro?
O interior da Igreja é bastante simples, apenas um altar na capela-mor com a imagem da padroeira. Sua fachada é constituída de um frontal central que termina em capitel decorado encimado por uma cruz. Externamente, à frente da Igreja, há um pequeno pátio com escadarias laterais que dão para o jardim, onde estão sepultados personagens históricos ligados ao santuário.
O conjunto arquitetônico ao sopé do penhasco é mais vasto: inclui a Capela do Sagrado Coração de Jesus, construída pelo Pe. Rocha em 1925 para os fiéis que não podiam subir ao santuário, o prédio da administração, lojas de artigos religiosos e um museu.
Ao ar livre, uma concha acústica com capacidade para 30 mil pessoas serve às missas campais e aos eventos culturais do mês de outubro. A vista do alto é descrita por todos os que sobem como um dos espetáculos involuntários da Guanabara: dali se vê o Cristo Redentor, o Corcovado, a Baía de Guanabara, o Aeroporto Internacional Tom Jobim e, em dias límpidos, um pedaço das serras de Teresópolis.






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