Em pouco mais de um século, o Rio protagonizou uma série de crimes que desafiaram a lógica, humilharam a polícia, fascinaram jornalistas e deixaram a sociedade em estado permanente de choque e perplexidade: amantes ciumentas que transformaram escolas em palco de vingança, socialites europeias que simplesmente desapareceram no caminho entre o Rio e São Paulo ou foram jogadas no mar após, digamos, uma noite de exageros e horror, sem falar em reputadíssimos chefes de segurança presidencial que mandavam matar o maior jornalista do país. São histórias que, se apresentadas como roteiro de cinema, provavelmente seriam rejeitadas por falta de verossimilhança. Mas aconteceram de verdade. E bem aqui na Guanabara. 

Há uma razão pela qual o true crime se tornou um dos gêneros mais consumidos do mundo contemporâneo, e ela não tem nada de mórbida ou patológica. Os especialistas explicam que a fascinação por crimes reais é tão antiga quanto a humanidade, muito anterior à Netflix e aos podcasts. O Rio, com sua vocação para o drama, a desigualdade e a impunidade, produziu casos que condensam em poucos parágrafos toda a complexidade do Brasil: a brutalidade do ciúme, a arrogância do dinheiro, os jogos de poder que atravessam a política, os acordos silenciosos que garantem que os poderosos raramente paguem por seus crimes. 

O que esses casos ensinam, além de seus detalhes aterrorizantes, é que o Brasil tem uma relação peculiar com a verdade judicial: ela raramente coincide com a verdade dos fatos. Os jornalistas que cobriram cada uma dessas ocorrências, do repórter anônimo do Jornal do Brasil de 1960 à corajosa Eugênia Brandão que se internou num asilo em 1914, entenderam isso antes de qualquer tribunal. Resta ao leitor de hoje a tarefa mais antiga do mundo: tentar compreender por que seres humanos fazem o que fazem, e rezar para que a resposta não apareça na porta de sua casa numa madrugada gelada. 

A atração pelo mórbido 

Esse papo é tão antigo quanto a própria humanidade, funcionando como uma espécie de espelho para os nossos medos mais profundos. Desde os relatos de assassinatos aos punhados punhais na Roma Antiga, passando pelo Jack, o Estripador, e até os romances de Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, o ser humano demonstra curiosidade por narrativas que envolvem mistério, perigo e justiça.  

A cultura pop está repleta de exemplos. Obras-primas como “A Sangue Frio”, de Truman Capote, transformaram crimes reais em fenômenos editoriais. Séries documentais sobre serial killers ou crimes reais frequentemente bombam nos serviços de streaming, como os casos de Elisa Matsunaga, a boate Kiss ou Caso Nardoni. 

Um dos motivos que atraem tantas pessoas para o true crime é um certo instinto de sobrevivência, segundo estudiosos. Ao acompanhar histórias de crimes, as pessoas aprendem a reconhecer situações perigosas e desenvolvem estratégias de prevenção. Exemplos brasileiros incluem o caso Evandro, sobre o desaparecimento de um menino no Paraná durante os anos 90, “Pacto Brutal” sobre o assassinato da atriz Daniella Perez, e “Em nome de Deus” sobre as acusações de abuso sexual contra João de Deus. No Rio, casos como o de Ângela Diniz, morto a tiros por Doca Street em Búzios, continuam atraindo atenção e sendo adaptados para séries. 

A Fera da Penha 

Essa história começa com a banalidade de um flerte numa estação de trem: Neyde Maia Lopes, então com pouco mais de 20 anos, conheceu Antônio Couto Araújo, homem casado e pai de família. Após cerca de seis meses de relacionamento, Antônio, que fazia promessas de amor para a amante, desistiu de largar sua família para viver o romance com ela. A recusa desencadeou algo que a polícia e os jornais da época tentariam, sem muito sucesso, explicar racionalmente. 

Neyde começou a monitorar a família de Antônio. Durante meses, acompanhou de perto a rotina dele, se aproximando de Nilza, a esposa, fazendo-se passar por uma ex-colega da escola. Em 30 de junho de 1960, usando um nome falso, entrou no colégio onde estudava Tânia, a filha mais nova do casal, de quatro anos de idade, e a sequestrou.    

O destino escolhido foi um matadouro no bairro da Penha. Segundo o jornal O Globo, ela levou a menina para um matadouro de bois e ali a executou com um tiro na nuca, ateando fogo ao corpo em seguida. Após negar as acusações por mais de 12 horas, Neide confessou detalhes do assassinato ao radialista Saulo Gomes, ganhando da imprensa o apelido que a imortalizou: Fera da Penha. 

Neide foi condenada a 33 anos de prisão, mas acabou solta após cumprir apenas 15 anos, por bom comportamento. O caso, que mais tarde inspirou o filme “O Lobo Atrás da Porta”, de 2014, teve um desfecho ainda mais sombrio: enquanto a criminosa vivia isolada a menos de dois quilômetros da casa da vítima, a pequena Tânia passou a ser tratada como uma santa no Cemitério de Inhaúma. Frequentadores do local relatavam ir ao túmulo da criança para pedir “milagres”, e a sepultura ainda recebe cuidados de um desconhecido até hoje, segundo uma funcionária do cemitério ouvida pelo jornal. 

Agradecimentos de fiéis a graças alcançadas no túmulo de Tânia, no Cemitério de Inhaúma (Crédito: Reprodução)

O “Advogado do Diabo” e o cadáver que nunca apareceu 

Se a vida da socialite tcheca Dana Edita Fischerova já parecia um romance de espionagem, seu desaparecimento consolidou um dos maiores mistérios do país. Nascida em uma rica família judaica de Praga, Dana foi bailarina, viveu na Itália fascista e no México, e até foi acusada de ser espiã, até aportar no Rio em 1951. Aqui casou-se pela quarta vez com o piloto e diplomata brasileiro Manuel de Teffé, integrante de uma das mais prestigiadas famílias das Guanabara. 

Para conduzir o processo de divórcio, Dana contratou o advogado Leopoldo Heitor, figura que os tabloides da época apelidavam de “Advogado do Diabo” por já ter sido processado por peculato e estelionato. Os tabloides começaram a reportar que eles teriam uma suposta relação amorosa. 

Em 1961, durante uma viagem de carro do Rio de Janeiro para São Paulo, na companhia do advogado, Dana desapareceu. O principal suspeito, Leopoldo Heitor, apresentou versões completamente distintas para a polícia, não convenceu ninguém, e começou a se apossar dos bens de Dana, graças a uma procuração da cliente que lhe dava o direito de vender, alugar e receber por todos os bens dela. 

Leopoldo, foi preso, fugiu, foi recapturado e o caso virou um fuzuê com direito a escavações infrutíferas na fazenda do advogado em Piraí, e, apesar de ter sido condenado em um primeiro julgamento pelo júri popular, Leopoldo Heitor acabou absolvido em um segundo julgamento por falta de provas materiais do homicídio. De fato, o corpo de Dana nunca foi encontrado. 

Em primeiro plano Leopoldo Heitor, chamado pela Imprensa de “Advogado do Diabo” (Crédito: Repdrodução)

Um crime complexo e um marco do jornalismo investigativo feminino 

Em meados de 1914, a esposa do tenente Paulo Nascimento, Edina, foi encontrada morta com um tiro na cabeça na residência do casal na Rua Dr. Januzzi, número 13, após descobrir que o marido a traía com sua própria irmã, Albertina. A descoberta do corpo foi primeiramente noticiada pelo jornal A Noite, cuja reportagem informava que, em meio à “cena de sangue”, o tenente teria explicado à polícia que sua esposa se suicidara após uma crise de ciúme. No entanto, dois dias depois, pequenos indícios evidenciavam algumas contradições na versão contada pelo tenente Paulo. 

Edina, Paulo e Albertina (Crédito: Reprodução)

Albertina foi confinada ao Asilo Bom Pastor, um internato para jovens, enquanto Paulo foi em cana. Pouco depois, um novo fato mudou o rumo das investigações, com a descoberta de um bilhete de despedida supostamente escrito por Edina. Paulo foi liberado pela Justiça para ser julgado em liberdade e imediatamente tentou tirar a amante do asilo, com quem fugiu e posteriormente se casou, o que aumentou as suspeitas em torno da dupla. 

Mas o episódio ganhou contornos lendários graças ao trabalho da escritora e jornalista Eugênia Brandão, que cobriu o caso para o jornal A Rua de forma inovadora para a época. Ela avisou ao jornal que ia se internar no Asilo Bom Pastor para tentar entrevistar Albertina e descobrir com outras internas se ela deixara escapar algum detalhe sobre seu envolvimento com o crime da rua Januzzi. 

O charme de Eugênia Brandão, a primeira repórter do Brasil (Crédito: Reprodução)

Eugênia não conseguiu nada de significativo, mas percebeu ali a oportunidade de relatar o cotidiano restritivo da clausura e publicou uma série de reportagens em capítulos durante cinco dias seguidos, desvendando os bastidores psicológicos do assassino e da vítima. O sucesso da cobertura foi tamanho que rendeu à profissional o título histórico de primeira repórter do Brasil, transformando um homicídio suburbano no marco inicial do jornalismo investigativo moderno feito por mulheres no país. 

Um crime de gênero que marcou o Rio e ficou impune 

O caso de Cláudia Lessin Rodrigues, ocorrido em julho de 1977, foi um dos crimes mais rumorosos e midiáticos da crônica policial da Guanabara. A jovem socialite de 21 anos pertencia a uma família de classe média alta da Zona Sul carioca e sua morte violenta descortinou o submundo de festas, drogas e excessos do high society  da época, gerando grande clamor popular. 

Cláudia Lessin Rodrigues (Crédito: Reprodução)

Na manhã de 26 de julho de 1977, o corpo de Cláudia foi encontrado em uma ribanceira Avenida Niemeyer. Ela estava nua, envolta em sacos plásticos e em um cobertor. A perícia constatou que a jovem havia sido espancada, violentada sexualmente e morta por esganadura. Um operário chamado Luís Gonzaga de Oliveira, saíra do barracão onde dormia naquela madrugada, viu a cena, anotou a placa do carro e telefonou para a Rádio Globo. Foi essa ligação que desfez o crime. 

Seguiu-se um circo midiático. Cláudia era irmã da atriz Márcia Rodrigues, a primeira a interpretar a “Garota de Ipanema” no filme homônimo de 1967 dirigido por Leon Hirszman, com roteiro de Eduardo Coutinho e do próprio Vinicius de Moraes. Inspirado na famosa canção de Tom e Vinicius, o filme transformou Márcia Rodrigues em uma das maiores musas do Cinema Novo. Tanto que se uma era a “garota”, a irmã era a “gata de Ipanema”. 

Graças a informação de Luiz Gonzaga, a investigação policial rapidamente reconstruiu os últimos passos de Cláudia, que havia desaparecido três dias antes. Na noite de 23 de julho, ela havia comparecido a uma festa no apartamento de Michel Frank, um playboy milionário, viciado em cocaína, e filho do dono da marca de relógios Mondaine. 

Michel Frank em entrevista ao Fantástico antes de fugir do Brasil (Crédito Reprodução)

A polícia constatou que Cláudia fora espancada, estuprada e estrangulada no apartamento do milionário Michel Frank, acusado pelo assassinato junto com o amigo e cabeleireiro libanês George Khour, mais conhecido na night carioca como Gisela. Com a decretação de sua prisão preventiva, Michel Frank aproveitou sa dupla cidadania e fugiu para a Suíça, onde viveu impune por mais de dez anos.  

O julgamento do caso ocorreu em 1980, três anos após a morte de Cláudia, e durou cinco dias, um dos mais longos do Tribunal do Júri no Brasil. George Khour foi condenado por ocultação de cadáver, cumpriu pena de três anos e quatro meses e depois desapareceu. Michel Frank não foi julgado, mas morreu assassinado em Zurique, em setembro de 1989, depois de cometer a asneira de dar o beiço em um traficante de cocaína. 

Quando o governo mandou matar um jornalista 

O episódio que ficou conhecido como o “Atentado da Tonelero” ganhou importância histórica por se constituir o marco da derrocada do então presidente Getúlio Vargas, levando-o ao suicídio dezenove dias depois. Foi uma ação violenta que visou o assassinato do jornalista e político Carlos Lacerda, na madrugada do dia 5 de agosto de 1954, em frente à sua residência, no número 180 da rua Tonelero, em Copacabana, que culminou na morte do major-aviador Rubens Florentino Vaz e no ferimento do guarda municipal Sálvio Romeiro.  

Lacerda era um dos maiores adversários de Vargas, dono da Tribuna da Imprensa, e havia publicado dias antes uma manchete de meia página acusando Lutero Vargas, filho do presidente, de sonegação. Como havia sido ameaçado de morte algumas vezes, um grupo de simpatizantes, oficiais da Aeronáutica, decidiu servir-lhe de segurança. 

Edição da Tribuna da Imprensa após o atentado (Crédito: Reprodução)

Ao chegar na rua Tonelero, Lacerda, seu filho Sérgio, de 15 anos, e o major Rubens Vaz saltaram do veículo e, ao se despedirem, uma pessoa surgiu das sombras e disparou vários tiros. O major foi atingido no peito. Um guarda municipal que estava nas proximidades, Sálvio Romeiro, correu ao ouviu os tiros e foi também acabou baleado, mas anotou a placa do veículo usado na ação. 

A partir daí foi fogo no parquinho. Lacerda se fez fotografar carregado, com as roupas amassadas e um gesso na perna que ia quase até o joelho (na verdade, ele recebeu apenas um tiro de raspão no pé). A responsabilidade de apuração do crime caberia à polícia civil, sob o comando do então ministro da Justiça, Tancredo Neves. 

Lacerda mostrando que política no fundo é teatro (Crédito: Reprodução)

 A Aeronáutica, porém, não quis saber: passou a comandar as investigações, com absoluta independência em relação aos poderes da República e da Justiça. Um comportamento tão golpista que informou os resultados do IPM primeiro ao Comando da Corporação, em reunião no Clube da Aeronáutica no dia 22. Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Vargas e apontado como mandante do crime, confessou sua participação. O prontuário médico que comprovava o ferimento no pé de Lacerda desapareceu do hospital. 

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading