Waguinho aciona Canella e Rueda por suspeita de abuso eleitoral em Belford Roxo

Ação no TRE-RJ investiga possível uso político de cerca de R$ 80 milhões em emendas parlamentares destinadas ao município. Tribunal autorizou a busca de documentos

Adicione a Agenda do Poder como fonte preferencial no Google

A batalha política em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, entre os ex-aliados Waguinho (Republicanos) e Márcio Canella (União Brasil) parece não ter fim. O ex-prefeito entrou com uma ação na Justiça Eleitoral contra Canella e o presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, por suspeita de abuso de poder político e econômico nas eleições de 2026. O processo busca esclarecer se a destinação de dezenas de milhões de reais em emendas parlamentares para a cidade foi utilizada para favorecer as candidaturas de Canella e Rueda.

O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) autorizou a obtenção de documentos da Câmara dos Deputados, da direção do União Brasil, de órgãos federais da Saúde e da Prefeitura de Belford Roxo. O objetivo é identificar quem articulou as verbas, como as indicações foram feitas e se houve utilização eleitoral dos recursos públicos.

A decisão foi do desembargador eleitoral Fernando Cerqueira Chagas, relator do processo no TRE-RJ. O magistrado rejeitou o pedido de encerramento antecipado da ação, apresentado pela defesa de Rueda e Canella, mas também negou parte das diligências solicitadas por Waguinho.

Emendas de R$ 80 milhões

Segundo a ação apresentada por Waguinho, Belford Roxo recebeu, em 2025 e 2026, indicações de emendas parlamentares que, somadas, chegariam a aproximadamente R$ 80 milhões.

Os recursos foram registrados sob a identificação genérica “Liderança do União Brasil”, código 4125, sem indicação nominal de um parlamentar responsável por cada destinação.

A denúncia aponta verbas para áreas como Saúde, Esporte, Turismo e Assistência Social. Entre os valores destacados estão R$ 30 milhões destinados ao Fundo Municipal de Saúde no fim de 2025 e outros R$ 10 milhões mencionados em relação a 2026.

A decisão do TRE-RJ também registra indicações de recursos para diferentes áreas, incluindo R$ 2,02 milhões para Esporte em 2025 e R$ 3,25 milhões em 2026, além de R$ 8,839 milhões para Turismo e R$ 1,75 milhão para Assistência Social.

Para Waguinho, é necessário esclarecer quem escolheu Belford Roxo como destinatário das verbas, quais autoridades participaram das negociações e se a divulgação dos investimentos foi usada para fortalecer eleitoralmente Canella e Rueda.

Presença de Rueda em eventos da prefeitura

Outro ponto central da ação é a acusação que Rueda teve participação frequente em eventos oficiais da administração municipal a partir de 2025, durante a gestão de Márcio Canella na Prefeitura de Belford Roxo.

Segundo a denúncia, o dirigente partidário apareceu em publicações institucionais relacionadas a entregas de ônibus, inaugurações de equipamentos públicos e anúncios de obras.

A prefeitura também teria apresentado Rueda como interlocutor do município junto ao Congresso Nacional e a ministérios para articular a liberação de recursos federais.

A ação questiona se essa atuação ficou restrita à busca legítima de investimentos para a cidade ou se houve uma estratégia coordenada para associar as verbas à imagem dos candidatos durante o período eleitoral.

Waguinho afirma que a concentração de recursos, a participação da estrutura partidária e a divulgação institucional dos investimentos precisam ser analisadas em conjunto para verificar se houve vantagem eleitoral indevida.

TRE-RJ determina busca de documentos

O relator autorizou diligências para reconstruir o caminho das emendas, desde a indicação dos recursos até os procedimentos de recebimento e execução.

A Câmara dos Deputados deverá apresentar registros relacionados às emendas identificadas pelo código 4125 e destinadas a Belford Roxo em 2025 e 2026, incluindo informações disponíveis sobre inserções, alterações, datas e unidades administrativas envolvidas.

A Liderança do União Brasil na Câmara deverá esclarecer a origem das indicações e informar quais parlamentares participaram das decisões, além de eventuais atuações da direção nacional do partido e de agentes da prefeitura.

O Ministério da Saúde e o Fundo Nacional de Saúde deverão fornecer documentos referentes às verbas destinadas ao Fundo Municipal de Saúde, incluindo propostas, planos de trabalho e registros financeiros disponíveis.

Já a Prefeitura de Belford Roxo terá de apresentar documentos administrativos sobre a captação, o recebimento e a execução dos recursos, além de comunicações mantidas com parlamentares e representantes partidários.

Pedidos de Waguinho que foram negados

O desembargador também rejeitou parte das medidas solicitadas pelo ex-prefeito. Entre elas estão pedidos genéricos de acesso a registros digitais, como endereços de internet e históricos de alterações em sistemas, além de solicitações amplas de acesso a correspondências de Rueda.

O magistrado entendeu que essas medidas não estavam suficientemente delimitadas e poderiam atingir dados protegidos sem justificativa específica.

Também foi negado o pedido para que o TRE-RJ solicitasse diretamente ao Supremo Tribunal Federal (STF) documentos de processos que tramitam na Corte sobre emendas parlamentares. Segundo a decisão, os autos são públicos e não foi apresentada justificativa para impedir que o autor os obtivesse diretamente.

Pedidos genéricos de novas provas e depoimentos de servidores, secretários municipais e técnicos também foram rejeitados. A análise de depoimentos solicitados pela defesa ficou para momento posterior, após a chegada dos documentos autorizados.

O Ministério Público Eleitoral foi intimado a se manifestar, em dois dias, sobre questões que considere necessário examinar imediatamente, sem prejuízo de apresentar parecer ao final da produção de provas.

O que dizem as defesas de Canella e Rueda

Na contestação apresentada ao tribunal, os investigados negaram que existam elementos suficientes para justificar a acusação e pediram o encerramento do processo.

As defesas argumentaram que a indicação de emendas por lideranças partidárias é um procedimento utilizado por diferentes partidos e que a articulação política para obter recursos para um município não representa, por si só, uma irregularidade.

Também sustentaram que não há demonstração suficiente de que as verbas tenham sido destinadas com finalidade eleitoral ou de que as condutas atribuídas aos dois políticos tenham produzido vantagem indevida nas eleições.

Rompimento político começou em 2022

A disputa judicial é mais um capítulo do rompimento entre Waguinho e Márcio Canella, que foram aliados políticos até 2022. Naquele ano, Waguinho era prefeito de Belford Roxo, enquanto Canella ocupava o cargo de vice. Um acordo entre os dois previa que Waguinho renunciasse ao cargo para se candidatar ao governo do estado, o que deixaria Canella no comando da prefeitura até 2024 para disputar a reeleição.

Waguinho porém permaneceu no cargo.

No segundo turno da eleição presidencial. Waguinho declarou apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto Canella apoiou Jair Bolsonaro (PL), consolidando a ruptura entre os dois.

Na eleição para a Câmara dos Deputados em 2022, Daniela do Waguinho (Republicanos), mulher do ex-prefeito, recebeu 213.706 votos e foi a deputada federal mais votada do estado. Desse total, 114.345 votos vieram de Belford Roxo, então principal base eleitoral do grupo político de Waguinho.

Em 2024, os antigos aliados se enfrentaram na disputa pela Prefeitura de Belford Roxo. Canella venceu a eleição com 155.229 votos, contra 86.887 de Matheus do Waguinho, sobrinho do ex-prefeito e candidato apoiado por ele.

A vitória consolidou a perda de espaço político de Waguinho no município, que durante anos foi a principal base eleitoral de sua família.

Eleições de 2026 ampliaram a disputa

Neste ano, os grupos voltaram a medir forças nas urnas. Canella disputou uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e apoiou Antônio Rueda para deputado federal. Waguinho concorreu ao Senado, Daniela tentou a reeleição para a Câmara e Leandro do Waguinho disputou uma cadeira na Assembleia Legislativa (Alerj).

O resultado em Belford Roxo favoreceu os adversários de Waguinho.

Rueda recebeu 93.874 votos no município, contra 8.809 de Daniela do Waguinho. Na disputa pela Alerj, Canella obteve 133.956 votos na cidade, enquanto Leandro do Waguinho recebeu 6.131.

Apesar da votação local reduzida, Leandro conseguiu se eleger deputado estadual ao somar 49.013 votos em todo o estado. Daniela, por sua vez, não conseguiu renovar o mandato: passou de 213.706 votos em 2022 para 53.345 em 2026.

Canella também foi o segundo deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro neste ano, com 197.178 votos, equivalentes a 2,24% do total estadual. Rueda ficou em oitavo lugar entre os eleitos para a Câmara dos Deputados, com 155.836 votos, ou 1,76%.

A disputa judicial ocorre em meio a um novo episódio envolvendo Canella. Ele foi preso em 15 de outubro, durante a oitava fase da Operação Unha e Carne, da Polícia Federal. Segundo informações divulgadas sobre a investigação, a PF aponta o político como possível “patrono político” e articulador de uma organização criminosa que utilizaria postos de combustíveis para lavar dinheiro. Essas suspeitas pertencem a uma investigação distinta da ação eleitoral sobre as emendas parlamentares e não representam, por si só, uma condenação.

Relacionadas

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo