A invasão dos Estados Unidos à Caracas, que resultou em sequestro e prisão do presidente Nicolás Maduro, no último sábado (3), não representa um avanço democrático para a Venezuela e pode marcar o início de uma nova etapa de interferência direta de Washington na América Latina. A avaliação é do historiador Erick Langer, professor da Universidade de Georgetown, em entrevista à BBC News Brasil.
Segundo Langer, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pretende manter uma política ativa de ingerência na região, mas com estratégias distintas conforme o peso político e econômico de cada país. No caso venezuelano, o objetivo central seria o controle do petróleo, ainda que isso implique manter o chavismo no poder sob nova configuração.
Colônia econômica e continuidade do chavismo
Na avaliação do professor, a retirada de Maduro não foi acompanhada de qualquer plano consistente de transição democrática. “Não há um plano para o retorno da democracia. E isso combina com Trump, porque Trump não está a favor da democracia nem nos Estados Unidos”, afirmou.
Para Langer, a estratégia dos EUA é explícita: “Acho que o que ele quer fazer é criar uma colônia econômica na Venezuela”. Segundo o historiador, Trump deixou claro que sua relação com o novo governo venezuelano será baseada em obediência e acesso irrestrito ao petróleo.
Em entrevista à revista estadunidense The Atlantic, publicada no domingo (4), Trump ameaçou diretamente a presidente interina Delcy Rodríguez. “Se ela não fizer o que é certo, pagará um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro”, disse o republicano.
Para Langer, “isso é coisa de mafiosos”.
Ele também rebate a narrativa dos EUA sobre o petróleo venezuelano. “Acho falso o Trump dizer que roubaram o petróleo dos Estados Unidos. Ou argumentar que a Venezuela não pagou… Mas o petróleo continua sendo da Venezuela. O que existe é um contrato que pode não ter sido cumprido”.
O professor lembra que a nacionalização do setor ocorreu em 1976, com a criação da estatal PDVSA, e foi aprofundada durante o governo de Hugo Chávez, especialmente na região do Orinoco. Empresas como ExxonMobil e ConocoPhillips deixaram o país após recusarem os novos termos, cobrando compensações financeiras.
Acordos internos e traição a Maduro
Langer sustenta que a operação dos EUA contou com apoio interno do próprio chavismo. Para ele, Delcy Rodríguez e Diosdado Cabello teriam fechado um acordo para viabilizar a captura de Maduro e permanecer no poder.
“Acho que Delcy Rodríguez e Diosdado Cabello fizeram um acordo e traíram Maduro… para ficar com o poder”, afirmou. Segundo ele, a motivação não seria a recompensa de US$ 50 milhões oferecida pelos EUA, mas a preservação da cúpula chavista.
Nesse arranjo, Washington teria optado por apoiar Delcy em vez de María Corina Machado, líder da extrema direita do país. “[Trump] não quer a María Corina Machado, porque ela não é tão manipulável como Delcy Rodríguez apesar de, claramente, María Corina também querer abrir o mercado para empresas de petróleo de fora”, avaliou.
Para o historiador, María Corina teria mais legitimidade popular e, por isso, maior autonomia política, algo que não interessa aos Estados Unidos neste momento.
Petróleo acima da democracia
Segundo Langer, Trump não demonstra preocupação com o regime político venezuelano. “Tudo indica que, para Trump, não importa o regime que esteja lá na Venezuela”. O professor diz que o regime chavista — o qual ele classifica como uma “ditadura” — pode continuar, “mudando apenas de nome, e com o mesmo sofrimento do povo venezuelano”.
Ele avalia que o recado é simples: se o petróleo não for entregue às empresas dos EUA, novas ofensivas militares podem ocorrer. “Mas ele disse que não haverá presença norte-americana no país. Que os Estados Unidos vão administrar a Venezuela, mas sem seu pessoal lá. Algo difícil de se fazer”.
Na prática, diz Langer, isso seria feito por meio dos próprios chavistas. “Os chavistas têm um campo amplo para fazer o que estão fazendo desde que mandem petróleo para os Estados Unidos”.
Cuba, México e pressão regional
Langer também acredita que Trump ampliará a pressão sobre outros países da região, especialmente Cuba. Para ele, o objetivo será “estrangular ainda mais” a economia cubana, sobretudo por meio do México.
Segundo o historiador, Washington deve pressionar a presidente mexicana Claudia Sheinbaum para que interrompa o envio de petróleo a Havana. “Agora aumentarão a pressão contra Claudia Sheinbaum para que ela não mande mais petróleo para Cuba, para que a crise cubana seja ainda pior”.
Apesar disso, ele avalia que uma ação militar direta contra Cuba é improvável, dada a capacidade de resistência do país.
Continente americano e influência eleitoral
Na análise de Langer, Trump adota uma visão de mundo baseada em zonas de influência. “A visão de Trump é em termos de esfera de poder, como tinha Hitler. ‘Essa parte de terra é minha’”.
Para ele, os EUA buscam consolidar domínio sobre todo o continente americano, enquanto tolerariam a atuação da Rússia na Ucrânia e da China na Ásia.
O professor acredita que Trump tentará influenciar eleições na América Latina em 2026, incluindo no Brasil. Ainda assim, avalia que o efeito pode ser contrário ao desejado. “Vai acabar prejudicando a direita porque o nacionalismo falará mais forte”.
Brasil como contrapeso
Langer vê o Brasil como o principal obstáculo regional às ambições de Trump. “O Brasil é o grande contrapeso contra Trump”, afirmou. Segundo ele, diferentemente dos governos anteriores dos EUA, Trump não aceitará que o Brasil exerça liderança regional.
Mesmo assim, o historiador acredita que a postura cautelosa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva diante da crise venezuelana pode fortalecer o país. “O único que é grande o suficiente para parar e dizer ‘chega’ aos Estados Unidos é o Brasil”.
Novo cenário geopolítico
Para Langer, o que está em curso é um redesenho da ordem global. “Trump mudou o cenário que existia desde a Guerra Fria”. Ele destaca o papel da China como fator de incerteza, especialmente devido aos investimentos chineses na Venezuela.
“O teste é a Venezuela”, afirmou. “Vamos ver como esta relação entre EUA e China ficará depois da operação militar americana”.
Na avaliação do professor, as ações em Caracas são apenas o início. “As primeiras peças do novo desenho geopolítico já estão em movimento”.






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