Quando desembarcou no Rio de Janeiro, Anderson Luis Lopes mal conseguia reconhecer a própria aparência. Saiu de Itaquera, em São Paulo, escondido em um trem cargueiro na tentativa de fugir de conflitos que, segundo ele, ameaçavam sua vida. A viagem terminou coberta por uma camada espessa de minério. Desde então, passou a circular entre bairros como Copacabana e Botafogo, na Zona Sul carioca, vivendo em situação de rua. Sua realidade se soma à de mais de 35 mil pessoas vivendo sem moradia fixa no estado do Rio.
Os números são da base de dados do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), instrumento do governo federal que mapeia e identifica famílias de baixa renda. Segundo um levantamento divulgado em maio deste ano, há 388.855 pessoas em situação de rua no país. O Sudeste concentra cerca de 60% desse contingente.
Entre os estados, São Paulo lidera o ranking, com 159.290 registros, seguido pelo Rio de Janeiro, que contabiliza 35.406 pessoas vivendo sem moradia fixa, conforme levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A concentração da população em situação de rua na Região Sudeste acompanha a dinâmica das maiores metrópoles brasileiras. Para quem pesquisa esse fenômeno há anos disse à Agenda do Poder, os dados divulgados ampliam uma curva que já crescia vertiginosamente desde 2013.
Levantamentos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), citados pela arquiteta e urbanista Ethel Pinheiro, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mostram que o país passou de 22.922 pessoas em situação de rua, em 2013, para 309.998 em 2024. Em 2025, o contingente voltou a crescer e ultrapassou a marca de 365 mil pessoas. Agora, os registros do Cadastro Único já se aproximam de 389 mil.
“Passamos de 22.922 pessoas em situação de rua em 2013 para 309.998 em 2024, um crescimento de mais de dez vezes, impulsionado, de certa forma, pela pandemia da covid-19”, dimensiona a pesquisadora.
Os números cresceram e o perfil dessa população pouco mudou. Isso porque, dentro da variedade cultural, pesquisas realizadas em diferentes capitais brasileiras e dados sistematizados a partir do Cadastro Único apontam que a população em situação de rua continua sendo formada, majoritariamente, por homens negros em idade adulta.
Se a rua fosse uma pessoa
“As pessoas em situação de rua formam um grupo extremamente plural. Mas, quando falamos de perfil, olhando para os dados do censo e para aquilo que observamos aqui na instituição, percebemos que a rua tem gênero e tem cor”, introduz a coordenadora de atendimento psicossocial do Instituto Lar, Tâmara Damaceno, que acrescenta:
“Uma vez participei de uma roda de conversa sobre população em situação de rua no Brasil e um pesquisador trouxe uma frase que me marcou muito. Ele disse que, se a rua fosse uma pessoa, ela seria um homem negro. E isso aparece claramente nos dados e também na nossa prática cotidiana.”
Tâmara Damasceno, coordenadora de atendimento psicossocial no Instituto Lar

Instituto Lar
No atendimento realizado pelo Instituto Lar, organização da sociedade civil que atua desde 2016 com pessoas em situação de rua no Rio de Janeiro, Tâmara afirma que os conflitos familiares aparecem com frequência entre os relatos de quem procura a instituição. A perda do emprego e da renda também ganhou força nos últimos anos, especialmente após a pandemia, mas dificilmente surge de forma isolada.
“A maioria das pessoas chega à situação de rua por conta de conflitos familiares. A questão do desemprego também ficou muito evidente durante a pandemia. Mas não existem apenas esses dois motivos. Muitas vezes já havia um conflito familiar. Depois veio a perda do trabalho. Depois veio outro problema. As situações vão se acumulando ao longo de uma trajetória.”
Para a psicóloga, é justamente essa sobreposição de acontecimentos que torna difícil atribuir a um único episódio a ida para as ruas. O rompimento familiar foi o que trouxe Anderson Luís, sob o nome artístico “CDJ (Cavalheiro da Justiça)”, para a rua.
Hoje na casa dos quarenta, ele calcula que já passou mais tempo vivendo nas ruas do que dentro de casa. A primeira ruptura aconteceu ainda na infância, quando tinha apenas oito anos. Em Itaquera, na zona leste de São Paulo, viver a agressão física e assistir às agressões contra a mãe foi o que fez a rua parecer uma alternativa possível.
“Vim corrido de São Paulo para cá por causa de problemas na rua e problemas em casa. Família, padrasto. O nível de violência era muito alto. Com oito anos, eu fui para a rua porque não aguentava mais apanhar e não aguentava mais ver minha mãe apanhando”, relata.
Vinte anos
A vida seguiu entre idas e vindas até que, já adulto, uma nova fuga o trouxe ao Rio de Janeiro. Em entrevista à Agenda do Poder, em meio ao cruzamento intenso das ruas Siqueira Campos e Avenida Nossa Senhora de Copacabana, ele nos contou que passou a ser perseguido depois de um conflito envolvendo integrantes de torcidas organizadas em São Paulo. Sem alternativa, embarcou escondido em um trem cargueiro rumo à capital fluminense.
“Vim para o Rio de Janeiro devido a uma briga de torcida em São Paulo com algumas pessoas. Ficaram me perseguindo lá, tentando tirar minha vida, e acabei indo embora. Vim em trem cargueiro. Cheguei aqui todo preto. Nem eu me reconhecia por causa do minério que tem dentro dos contêineres”.

A chegada ao Rio de Janeiro aconteceu numa sexta-feira. No sábado, ele já procurava alguma forma de conseguir renda e encontrou essa oportunidade vendendo balas no sinal. No domingo, decidiu conhecer Copacabana e foi ali que começou uma rotina que já atravessa duas décadas.
“Cheguei lá e vi vários baleiros num ponto de ônibus. Perguntei para um rapaz como poderia arrumar um serviço. Ele disse que o irmão dele tinha vários pontos e me orientou a montar um baleiro e ficar ali. Ele nem ligou que eu poderia pegar o ponto dele. Foi o que eu fiz e comecei a viver na rua”, relembra.
O espírito de comunhão que Anderson encontrou ao chegar ao Rio é um dos fatores que dialoga com a pesquisa desenvolvida pela pesquisadora Ethel Pinheiro, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ao acompanhar territórios vulneráveis da capital, a arquiteta observou que as comunidades formadas por pessoas em situação de rua cresceram justamente em regiões onde a sobrevivência se torna menos difícil.
Os mapas elaborados pela equipe identificam concentrações em bairros como Centro, Gamboa, Copacabana, Botafogo, Tijuca e Largo do Machado. São locais onde existe maior circulação de pessoas, oferta de doações, possibilidade de coleta de materiais recicláveis e acesso a equipamentos públicos.
“De forma sistêmica, a pesquisa verificou que as maiores concentrações estão no Centro do Rio de Janeiro, Gamboa, Copacabana, Botafogo, Tijuca e Largo do Machado. Bairros mais periféricos como Madureira, Realengo, Cachambi ou Méier também possuem números expressivos, mas pouco comparáveis com o vulto dos números da população de rua em bairros onde a subsistência é garantida por doações de comida e dinheiro”, afirma.
É nesse intervalo entre permanecer nas ruas e tentar sair delas que organizações da sociedade civil acabam ocupando um espaço importante. No Instituto Lar, localizado em uma sobreloja na Rua do Senado, o atendimento começa por necessidades básicas. Aos sábados, pessoas em situação de rua podem utilizar os chuveiros da instituição para tomar banho, realizar a higiene pessoal e trocar de roupa.

Já ao longo da semana, oficinas de arte, canto corporal e outras atividades buscam fortalecer vínculos comunitários e ampliar a autoestima dos participantes. Há ainda um terceiro eixo voltado para a inserção no mercado de trabalho. Segundo Tâmara Damaceno, esse processo não pode ser reduzido à oferta imediata de emprego.
“Existe uma ideia social bastante difundida de que as pessoas estão na rua porque não querem trabalhar. Essa visão ignora que muitas delas estão profundamente adoecidas e não conseguem sustentar um vínculo formal de trabalho”, salienta.
A organização recebe doações e voluntários. Os interessados podem manifestar desejo em participar através do perfil do instituto no Instagram. Além das oficinas, a equipe realiza encaminhamentos para equipamentos da rede pública de assistência social, principalmente os Centros POP, responsáveis por articular o acesso a outros serviços de saúde, além de documentação e assistência social.

Os Centros POP, explica a professora da Escola de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense (UFF), Ana Paula Mauriel, funcionam como uma das principais portas de entrada da população em situação de rua para a rede de proteção social. É nesses equipamentos, assim como nos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas), nos Centros de Referência de Assistência Social (Cras) e em equipes de abordagem social, que começa o processo de cadastramento no Cadastro Único.
Mesmo sem documentos, a pessoa pode ser registrada. As equipes auxiliam na emissão da documentação e utilizam um endereço de referência, geralmente o próprio Centro POP, Cras ou outra instituição frequentada pelo usuário, para manter o vínculo com a rede de atendimento.
“Esse vínculo é importante para manter o acompanhamento da rede de assistência e compreender melhor a circulação dessa população dentro das cidades. Durante o cadastramento é realizada uma entrevista que reúne informações sobre composição familiar, saúde, escolaridade, formas de obtenção de renda e locais onde a pessoa costuma pernoitar”, destaca.

Botafogo Antifacista
Além das instituições especializadas que atuam na reconstrução de vínculos e no acesso à rede de proteção social, o acolhimento também nasce da mobilização de moradores. No Centro do Rio, diversos grupos de voluntários passaram a incorporar a distribuição de refeições, roupas e kits de higiene à própria rotina, compondo uma rede de apoio que se mantém para além das ações do Estado.
É o caso do coletivo Botafogo Antifascista. O grupo realiza ações desde 2023 em parceria com a Cozinha Solidária do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Todo o trabalho é financiado por doações individuais e pela venda de camisas, bonés e outros produtos produzidos pelo próprio coletivo.
Segundo a presidente Maria Isabel Rodovalho, a iniciativa surgiu da vontade de levar para as ruas um compromisso que, até então, permanecia restrito às redes sociais. “A gente sempre teve o intuito de tirar o coletivo das redes, porque o antifascismo precisa ser praticado na rua, no combate às desigualdades. Foi a forma que encontramos de fazer o dinheiro circular e chegar a mais pessoas, fazendo diferença para mais famílias.”
As ações acontecem, principalmente, na região central da cidade, onde o coletivo adapta o percurso de acordo com a concentração de pessoas em situação de rua. “A gente se divide a partir da demanda do ambiente. Se tem mais gente na Lapa, a gente vai para a Lapa. Se tem bastante gente na Cinelândia, a gente vai para a Cinelândia. Mas sempre aqui pelo Centro”, afirma a presidente.

No Dia dos Namorados, celebrado na quinta-feira (12), o grupo voltou às ruas para mais uma edição da iniciativa. A ação é organizada, majoritariamente, por torcedores do Botafogo, mas reúne voluntários de diferentes perfis que compartilham do mesmo objetivo.
“A gente recebe o apoio de outros torcedores. Não necessariamente as pessoas precisam ser botafoguenses para fazer parte da ação, mas majoritariamente somos botafoguenses. E são pessoas que não se identificavam muito com as torcidas organizadas, justamente porque queriam fazer parte de coisas concretas, entendendo a sociedade de uma forma diferente”, conclui Maria Isabel.
Embora iniciativas como essa contribuam para aliviar necessidades imediatas, o principal obstáculo continua sendo romper o ciclo que mantém milhares de pessoas nas ruas.

Moradia como mercadoria
Numa conta simples, viver sozinho no Rio de Janeiro exige, em média, R$ 3.340 por mês, segundo levantamento realizado pela Serasa, em parceria com o Opinion Box. Embora abaixo da média nacional, estimada em R$ 3.520, o valor representa mais que o dobro do salário mínimo vigente, de R$ 1.621.
Na avaliação da professora Ana Paula Mauriel, da UFF, as cidades passaram a tratar a moradia como mercadoria, e não como um direito a ser garantido
“A moradia ainda não é vista como um direito a ser garantido para quem não consegue acessá-la pelo mercado. Quem não consegue pagar acaba ocupando os espaços mais precarizados das cidades. E, para muitas pessoas, a rua acaba se tornando um espaço de sobrevivência, apesar de toda a precariedade e violência que ela impõe”.
Nesse caminho, segundo ela, o Plano Ruas Visíveis, lançado pelo governo federal, passou a incorporar a lógica do programa Moradia Cidadã, inspirado em modelos internacionais conhecidos como Housing First (moradia primeiro).
A proposta inverte o fluxo tradicional das políticas públicas: primeiro garante-se uma moradia e, depois, é que são desenvolvidas as demais ações de saúde, assistência social e inserção no mercado de trabalho.
“Antes, a pessoa passava por assistência, saúde e outras políticas para, só depois, acessar uma moradia. Agora, a proposta é garantir primeiro uma moradia, você tira a pessoa da rua e, a partir daí, desenvolve as demais políticas públicas”, afirma.
Ainda assim, a implementação dessas ações convive com práticas antigas de gestão urbana, afirma a professora: “Apesar dos avanços, continuamos observando, em muitos municípios, políticas de higienização urbana, com recolhimento compulsório, retirada de pertences e deslocamentos constantes dessa população. Muitas pessoas perdem carrinhos, cobertores, roupas, panelas e os poucos bens que possuem. Isso não resolve o problema.”
Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS) informou que mantém equipes especializadas de abordagem social atuando 24 horas por dia, realizando busca ativa, escuta e encaminhamento da população em situação de rua.
Segundo a pasta, a rede também oferece atendimento nos Centros POP e Creas, acolhimento institucional em albergues e Unidades de Reinserção Social (URS), emissão de documentos, inclusão no Cadastro Único, encaminhamento para serviços de saúde e assistência jurídica, além de cursos de qualificação profissional, apoio à inserção no mercado de trabalho e atividades culturais, como oficinas, saraus, visitas a museus, teatros e cinemas.
Entre janeiro e maio deste ano, a secretaria afirma ter realizado 87.656 atendimentos e 28.931 acolhimentos institucionais. A pasta ressalta que uma mesma pessoa pode ser atendida ou acolhida mais de uma vez e que o ingresso nas unidades ocorre de forma voluntária, cabendo ao usuário aceitar ou não o serviço oferecido.
Políticas do Estado
Já a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos informou que atua em parceria com os municípios por meio do cofinanciamento das políticas de assistência social, além de manter equipamentos próprios voltados ao atendimento da população em situação de rua.
Atualmente, o Estado possui duas Casas de Passagem, na região central do Rio, com capacidade para atender 100 pessoas, oferecendo hospedagem temporária, endereço de referência e acesso à rede de proteção. Outras duas unidades, uma na capital e outra na Baixada Fluminense, estão previstas para entrar em funcionamento ainda este ano.
A pasta também destacou programas de segurança alimentar, como o RJ Alimenta, que distribui gratuitamente café da manhã, almoço e jantar em onze unidades e atende cerca de 16 mil pessoas por dia; o Restaurante do Povo, responsável por aproximadamente 40 mil refeições diárias a preços populares; e o Café do Trabalhador, presente em 58 polos espalhados por 42 municípios.
Segundo o Estado, o Hotel Acolhedor, que já contabiliza cerca de 300 mil pernoites, passa por um processo de reestruturação e será substituído pelo Hotel do Povo, na Central do Brasil, com capacidade prevista para 200 vagas diárias.
“Quando falamos dos números, é importante lembrar que eles não contam tudo. Ontem, por exemplo, tivemos um sarau na arteterapia. Uma pessoa apresentou um rap, outra dançou balé, outra homenageou as plantas que deixou para trás quando foi expulsa de casa e outra trouxe um desenho representando a galáxia e o seu lugar nela”, conta Tâmara Damaceno. Para a psicóloga, é justamente nesses encontros que ficam nítidas as histórias invisíveis às estatísticas.
“Por trás dos dados existem pessoas, histórias, desejos, talentos, criatividade, sonhos, lágrimas e gargalhadas. Existe gente que quer estudar, fazer faculdade, ter um cachorro, frequentar a praia, ir ao cinema, construir uma família”.
Anderson encontrou uma forma de contar a própria história pela música. Em uma de suas composições, intitulada “Na luta ou na guerra“, ele resume a realidade que diz conhecer desde criança:
“Na luta ou na guerra, a esperança lutamos por ela.
Vivemos e sobrevivemos no asfalto, na favela.
Aqui não há cena de novela.
Aqui a vida é real, porque nós estamos pra guerra.
[…] O mundo não se importa
com a minha ideologia ou a minha história.
Mas foi o álcool e o cigarro os gigantes da minha revolta”.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes


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