Em meio à recuperação econômica e à queda da fome, o Brasil assiste a um fenômeno que desafia a lógica dos números oficiais: nunca tantas pessoas viveram nas ruas. Cerca de 350 mil inscritos no CadÚnico vivem sem moradia fixa, um aumento de 142% desde 2019, quando eram 144.777. Na cidade do Rio os números são ainda maiores: 22.450 pessoas vivem nas ruas, essa é a segunda maior população do país, atrás apenas de São Paulo. Ao mesmo tempo em que a crise social se agrava, também se multiplicam iniciativas de acolhimento e ajuda.
Barracas, colchões e lonas improvisadas sempre fizeram parte da paisagem urbana do Rio. No Centro da cidade e em áreas movimentadas, como praças e pontos turísticos — entre eles os Arcos da Lapa —, é cada vez mais visível a presença de pessoas vivendo nas ruas.
A escalada contrasta com a melhora de outros indicadores: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou o menor número histórico de brasileiros em insegurança alimentar grave (6,4 milhões), e a Organização das Nações Unidas retirou o país do mapa da fome em julho de 2025.
Para o antropólogo Lenin Pires, da Universidade Federal Fluminense (UFF), o aumento dessa população reflete não apenas a desigualdade, mas também a ausência de políticas públicas efetivas.
“Questões como desemprego, diferenças de idade e de gênero, aspectos migracionais e de natureza étnica, bem como aqueles relacionados à saúde, entre outras dimensões, são desprezados pelo poder público, que padroniza a forma de interação com este público”, afirma.
Entre calçadas e praças que se tornaram moradia, também florescem gestos de cuidado. No Rio, várias iniciativas sociais têm transformado a solidariedade em ação concreta — distribuindo alimento, roupas, atenção e esperança a quem vive à margem. Agenda do Poder apresenta algumas nesta reportagem.
Desigualdade
O crescimento econômico do país e os avanços sociais registrados nos últimos anos não têm sido suficientes para conter o aumento visível nas ruas do Rio. Pires afirma que os resultados positivos da economia não se traduzem em redistribuição real de renda nem em políticas estruturais que enfrentam a desigualdade.
“Não é suficiente para o equacionamento da pobreza que se observa nas ruas das grandes cidades. Para isso, seria necessário a reversão de um quadro caracterizado pela exploração do trabalho por uma minoria que, inclusive, resiste por todos os meios disponíveis contra uma necessária redistribuição da riqueza socialmente construída, mediante taxação tributária”, observa.
O sociólogo Dario Filho, da Universidade do Estado do Rio (Uerj), concorda que os indicadores macroeconômicos mascaram desigualdades profundas. Para ele, a informalidade e a instabilidade do trabalho estão entre os principais fatores que empurram a população para as ruas.
“A precarização do trabalhador não pode ser festejada como flexibilidade e um caráter necessariamente positivo do empreendedorismo. Empreende quem tem capital; quem não tem capital fica sem recurso. No Rio de Janeiro e na Região Metropolitana, tivemos um ciclo de construções de infraestrutura para a recepção de eventos, que atraiu uma população para esse setor da construção civil. Advindo a crise subsequente a esse ciclo, essa população ficou desalentada”, avalia.
A situação de rua envolve a falha, as imperfeições de políticas de segurança. Temos populações sendo deslocadas de áreas conflagradas, ocupadas por milícias ou pelo tráfico; a população pobre deslocada pela insegurança; temos situações de violência doméstica e outras.
Dario Filho, sociólogo
Para Pires, o problema se agrava porque a população em situação de rua ainda é tratada sob uma ótica de repressão, e não de política pública.
“Das lavagens de calçadas com cresol à compartimentação de bancos de praças, passando pela colocação de pedregulhos sobre viadutos e pontes, cidades como o Rio de Janeiro transformam o preconceito em intolerância materializada à presença da pobreza em suas ruas”.
Rede solidária preenche o vazio
Enquanto o poder público tenta estruturar novas políticas, organizações da sociedade civil seguem atuando nas ruas do Rio. Na Glória, Lapa e Centro, o projeto É Por Amor, coordenado por Márcio Elias, distribui quentinhas, roupas, cobertores e itens de higiene três vezes por semana.
Agenda do Poder acompanhou, na quinta-feira (23), uma das ações do grupo na Praça da Cruz Vermelha, no Centro. Assim que os voluntários chegaram no local, uma grande fila se formou, com pessoas ansiosas pelo prato de comida quentinho que foi servido.

“Eu entrei para um Centro Espírita, em 2010, que tinha esse trabalho de distribuição de quentinhas. Comecei a entender essas pessoas, ter preocupação. Durante a pandemia, o local parou com o trabalho, só que eu já estava muito envolvido com essa questão. Com alguns amigos, optamos por continuar, e foi daí que tive a ideia de criar uma ONG”, conta Elias.
O projeto, que conta com 30 voluntários, leva esse nome de tanto as pessoas perguntarem ao Márcio o porquê dele fazer essas ações: “É por amor. Gostaríamos de ver as pessoas melhores, que todo mundo pudesse visitar lugares que só poucas pessoas podem visitar por conta das questões financeiras. A desigualdade social existe no mundo todo, não só no Brasil e no Rio de Janeiro”.
Na segunda e terça-feira, a ONG compra em torno de 120 quentinhas e as distribui em locais escolhidos aleatoriamente. Já na quinta-feira, pela manhã, uma parceria com a Ação da Cidadania, ONG que une forças para garantir a todos o direito à uma alimentação adequada, garante mais 100 pratos, que são entregues em Manguinhos e no Centro.
Os principais pontos de entrega são:
- Praça da Cruz Vermelha:
- Em frente a Defensoria Pública do Estado: Avenida Marechal Câmara, 314
- Em frente ao Detran: Avenida Presidente Vargas, 817
- Em frente ao prédio da OAB: Avenida Marechal Câmara, 150
“O que a gente mais observa hoje sobre o aumento da população de rua é justamente a falta de condição das pessoas se manterem. Eu já tive conhecimento de empresários que faliram e foram para as ruas porque não tiveram nenhum apoio”, conta.
Projeto RUAS
Já o Projeto Ruas (Ronda Urbana de Amigos Solidários) aposta no modelo Habitação Primeiro (Housing First), que oferece moradia sem exigir pré-condições e acompanhamento psicossocial contínuo.
“A partir da estabilidade da moradia, a pessoa passa a ter acompanhamento psicossocial, apoio em saúde mental, empregabilidade e reconstrução de vínculos. Essa abordagem, já validada em países como Finlândia e Canadá, tem altos índices de sucesso e é considerada uma política pública inovadora”, diz Marilu Cerqueira, gestora executiva do projeto.

Com 250 voluntários, o Ruas atende cerca de 1.200 pessoas por mês e realiza rodas de conversa semanais em bairros como Copacabana, Glória e Tijuca, aproximando moradores e comerciantes das pessoas em situação de rua.
“Um dos nossos atendidos viveu grande parte da sua vida entre abrigos e as ruas por mais de 18 anos e hoje, para além de cuidar bem da casa onde mora, é voluntário fixo de uma das nossas rondas. Ele se formou em cozinha social, tem o sonho de montar seu próprio negócio e resgatou o vínculo com a irmã que não via há mais de 20 anos”, relembra.
Ninguém escolhe o abandono. O que existe são histórias atravessadas por traumas, desigualdade, rupturas familiares e falta de oportunidades. A rua é, na maioria das vezes, a única saída.
Marilu Cerqueira
Desde a criação do programa, oito pessoas já foram beneficiadas diretamente com moradia digna e apoio social — e quatro delas permanecem no projeto.
Futebol e solidariedade
Nem só as ONGs tradicionais têm se mobilizado pelas pessoas em situação de vulnerabilidade. Movimentos culturais e torcidas organizadas também têm canalizado a paixão em ações concretas de solidariedade. Um exemplo é o Botafogo Antifascista, coletivo fundado em 2016 que une torcedores, alvinegros ou não, em torno de um objetivo comum: combater a desigualdade social e promover a dignidade de quem vive nas ruas.
Desde sua criação, o grupo já realizou diversas campanhas de doação de alimentos, kits de higiene, agasalhos e ingressos sociais, além de iniciativas conjuntas com movimentos como o Movimento Nacional da Luta pela Moradia e a cozinha solidária da MTST. Até agosto, o coletivo havia arrecadado mais de R$ 50 mil e distribuído quase 4 mil refeições.
Para o influenciador Matheus Sodré, um dos participantes, o futebol é muito mais do que o jogo dentro de campo — é uma energia coletiva capaz de gerar pertencimento e ação social.
“É uma loucura torcer para um time de futebol. É uma loucura colocar tanto significado nisso. Mas é uma loucura que produz muito sentido. O Botafogo Antifascista é um coletivo que surgiu em 2016 com o objetivo de unir botafoguenses e não botafoguenses no combate à desigualdade social, com ações de entrega de refeições, doações de ingresso, doações de absorventes e rações, kits de higiene, campanhas de agasalho no inverno. De Dia das Crianças, Natal, doações de sangue, dentre outras coisas”, lista ele, em publicação na web.
O grupo mantém o projeto ‘Futebol pro Povo’, que distribui ingressos para quem não tem condições de ir ao estádio, e promove ações de doação de quentinhas duas vezes por mês nas sextas-feiras. “É muito fácil viver uma vida só pra gente, mas isso também pode ser uma armadilha muito grande”, resume Matheus.
Política nacional tenta integrar saúde e moradia
Lançado em dezembro de 2024, o Plano Ruas Visíveis marca a tentativa do governo federal de unir políticas de saúde, moradia e cidadania para enfrentar o problema em escala nacional.
Com investimentos iniciais de R$ 304 milhões, o plano prevê o aprimoramento do atendimento no SUS, a criação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População em Situação de Rua e a formação de 5 mil profissionais voltados ao cuidado e à escuta qualificada dessa população.
Entre as ações mais concretas estão o fortalecimento das equipes de Consultório na Rua, que realizam atendimentos médicos e sociais diretamente nas calçadas e abrigos. Em 2024, o número dessas equipes financiadas pelo Ministério da Saúde passou de 128 para 245, distribuídas em 163 municípios de todos os estados do país.
O plano também reativou o Comitê Técnico de Saúde da População em Situação de Rua, que passou a incluir novos representantes da sociedade civil, e articulou o Curso de Aperfeiçoamento EdPopSUS-Rua, voltado à formação de profissionais e lideranças sociais no cuidado humanizado e territorial.
Além disso, foi criado também o Projeto Moradia Cidadã, que busca levar dignidade e cidadania, promovendo acesso à moradia como ponto de partida para a superação da exclusão social.
Ele prioriza a oferta imediata de habitação digna como o primeiro passo para a reintegração social. O Projeto Moradia Cidadã é executado por meio de parceria com o poder público ou com organizações da sociedade civil por meio de convênios, com capacidade comprovada de atendimento pelas redes SUS e SUAS, ou termos de colaboração.
O Rio de Janeiro foi a primeira capital a aderir o projeto (veja mais detalhes no final).
A complexidade da vida nas ruas e o desafio das políticas públicas
Para a professora Mônica Senna, do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense (UFF), não existe uma única causa para a situação de rua. Conjuntos de fatores interligados que vão da pobreza estrutural à precarização do trabalho, passando por questões de saúde mental, violência e moradia, ajudam a explicar o cenário.
“Desemprego, empregos precários, informalidade, conflitos familiares, transtorno mental e sofrimento psíquico, violência urbana, déficit habitacional e moradias precárias e até mesmo emergências climáticas são alguns dos aspectos”, enumera.
A especialista lembra que historicamente o tema foi tratado com ações pontuais e assistencialistas, muitas vezes deixadas a cargo da sociedade civil e marcadas por uma lógica caritativa.
“As ações de repressão e criminalização das pessoas em situação de rua eram a forma predominante do aparato estatal lidar com essa população”, afirma.
Mônica ressalta que o país só passou a contar com uma diretriz nacional a partir da Política Nacional para a População em Situação de Rua, criada em 2009. Ela adota a perspectiva dos direitos humanos e sociais e prevê ações intersetoriais e controle social. “A política é avançada, mas permanece em grande parte no papel”, observa a professora.

“A ponto, inclusive, de o STF determinar em 2023, a partir de uma ADPF, aos entes federados a adoção de providências para atendimento a essa população, o que provocou a criação, pelo governo federal em 2024, do Plano Nacional Ruas Visíveis, cuja implantação precisa ser acompanhada”, reforça.
Decisão do STF muda abordagem
Em agosto de 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu remoções forçadas de pessoas em situação de rua. A ação determinou que governos apresentem planos de execução da Política Nacional de 2009, com diagnósticos e metas de acolhimento.
A decisão também vetou o uso de “arquitetura hostil”, como pedras e pinos instalados embaixo de marquises para impedir a permanência de pessoas.
A partir dessa determinação nasceu o programa Ruas Visíveis, coordenado pelo Ministério dos Direitos Humanos, que busca integrar ações de acolhimento, moradia e inclusão.
Caminhos possíveis
Para os especialistas, enfrentar a situação de rua exige mais do que ações emergenciais. Requer um compromisso estrutural do Estado com emprego, moradia e cidadania.
Dário defende que a resposta não pode ser única nem pontual, mas partir de um pacto social mais amplo, que envolva redistribuição de recursos e prioridade às políticas sociais.
“Precisamos de políticas de emprego, habitação, saúde. O Estado tem aberto mão, muito frequentemente, por meio de incentivos de isenção fiscal. E é importante entender o impacto que o favorecimento dos segmentos de rendas mais abastados tem sobre a negligência com relação à população que vive em situações emergenciais”, reforça.
Mônica destaca que o primeiro passo é conhecer a população em situação de rua e enfrentar os preconceitos.
“Outro ponto é a necessidade de superar visões simplistas e preconceituosas sobre as pessoas nessa situação. Investimento público, com recursos estáveis e garantidos, é também fundamental, além de políticas abrangentes e articuladas. E a necessidade de incorporar a participação efetiva da população em situação de rua nas decisões sobre as políticas públicas a ela dirigidas”, diz.
Ações do município
A Prefeitura do Rio informou que, em março de 2025, uma portaria conjunta dos Ministérios das Cidades e dos Direitos Humanos e Cidadania determinou que 3% das unidades habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida, construídas com recursos do Fundo de Arrendamento Residencial (FAR), sejam destinadas a pessoas ou famílias em situação de rua registradas no CadÚnico.
Na capital fluminense, as primeiras unidades destinadas a esse público ficarão na comunidade da Mangueira. Do total de 600 apartamentos em construção pela Secretaria Municipal de Habitação, 18 serão reservados a pessoas em situação de rua. A previsão de entrega é no primeiro semestre de 2026.
Há também os Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua, que oferece convívio grupal, social e desenvolvimento de relações de solidariedade, afetividade e respeito para pessoas em situação de rua. Funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.
Endereços:
Centro Pop Bárbara Calazans
Rua República do Líbano, nº 54 – Centro
Bairros de abrangência: Benfica, Cajú, Catumbi, Centro, Cidade Nova, Estácio, Gamboa, Mangueira, Paquetá, Rio Comprido, Santa Teresa, Santo Cristo, São Cristóvão, Saúde, Vasco da Gama e Lapa.
Centro Pop Ateliê Cidadão José Saramago
Rua da Regeneração, 654 – Bonsucesso – Cep.: 21040-170
Bairros de abrangência: Brás de Pina, Cordovil, Complexo do Alemão, Jardim América, Manguinhos, Olaria, Parada de Lucas, Penha, Penha Circular, Ramos, Vila da Penha, Vigário Geral, Ilha do Governador e Complexo da Maré.
O que diz o Governo do Estado
O Governo do Estado do Rio de Janeiro informou que atua em diversas frentes no atendimento à população em vulnerabilidade social.
Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos (SEDSDH), o programa Hotel Acolhedor já ofereceu mais de 300 mil pernoites desde 2021. Ele está sendo reordenado para se transformar em Casa de Passagem.
Além disso, até o fim de 2025, o governo prevê a inauguração do Hotel do Povo, na Central do Brasil. O projeto vai combinar acolhimento social com estratégias de reinserção e apoio a trabalhadores que não conseguem retornar para casa diariamente.
Na área habitacional, a Secretaria de Habitação e Interesse Social (SEHIS) informou que já cadastrou quase 8 mil pessoas no programa Aluguel Social. O programa atende famílias em situação de vulnerabilidade, vítimas de calamidades ou removidas por obras do PAC.
Em cumprimento à decisão do STF, o Estado também criou um Grupo de Trabalho Intersetorial para implementar o Comitê POP RUA. Esse comitê funcionará entre 2025 e 2027, com o objetivo de acompanhar e avaliar políticas públicas voltadas à população em situação de rua.
Por fim, o governo ressaltou que, embora o atendimento direto seja de responsabilidade municipal, vem ampliando sua atuação desde a pandemia, quando o número de pessoas em situação de rua cresceu de forma expressiva.
*Com colaboração de Gustavo Braz


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