Uma guerra interna aliada à expansão do Comando Vermelho (CV) tem marcado o declínio da maior milícia do Rio nos últimos anos. Uma situação agravada nas últimas três semanas com a quebra de um “acordo de paz”, que desencadeou uma série de ao menos 12 assassinatos. Acuada e sem saída, a milícia passou a conduzir tribunais do crime para descobrir possíveis traições dentro da sua própria estrutura de criminosos por suspeitar de que estariam repassando informações privilegiadas aos seus rivais.
O caso mais recente envolveu o assassinato de um dos milicianos mais antigos de Manguariba, reduto do chamado Bonde do Zinho em Paciência, Zona Oeste do Rio. Cláudio Vinicius Santos Silva, o Federinha, apontado como líder da milícia na região, foi morto pelo tribunal do crime ao ser acusado de ser X-9, como são chamados os delatores na gíria.
Segundo informações obtidas junto a fontes da Agenda do Poder ligadas às forças de segurança, Federinha teria sido acusado de ter repassado a rivais informações sobre o paradeiro de Daniel Oliveira de Souza, o Primavera, morto a tiros na madrugada do último sábado (31) na favela do Rodo, em Santa Cruz, outro reduto da milícia.
O corpo de Federinha foi encontrado dentro de um veículo abandonado às margens da Estrada de Paciência na manhã desta quarta-feira (4).
‘Bota a cara, é a Tropa do Zinho’: vídeo grava tiroteio na Zona Oeste
Na madrugada desta quinta-feira (5), mais um banho de sangue em um novo ataque contra o Bonde do Zinho. Um vídeo nas redes sociais mostra o confronto, e homens usando coletes falsos onde se lê “polícia”.
“Bora a cara, fdp! Vai morrer! É a tropa do Zinho, porra”, grita um jovem em meio ao som de disparos.

Após moradores relatarem intenso tiroteio, o corpo de um homem brutalmente executado com tiros de fuzil foi achado em uma rua. Segundo testemunhas, o ataque foi feito por criminosos fortemente armados, que invadiram a região em ao menos dez veículos.
Investigações da Polícia Civil indicam que o ataque pode ter sido orquestrado pela milícia chefiada por Gilson Inácio de Souza Júnior, o Juninho Varão. Ele integra o núcleo do grupo paramilitar na Baixada Fluminense, que agora tenta tomar o poder do Bonde do Zinho e se expandir para a Zona Oeste do Rio.
Como especialistas veem o declínio da milícia
O mais recente Mapa Histórico dos Grupos Armados do Rio, divulgado em dezembro de 2025 pelo Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos da UFF, indica perda de áreas estratégicas da milícia após anos de expansão. Carolina Grillo, que coordenou o levantamento, relaciona o cenário às operações da Polícia Civil e Ministério Público em suas áreas de domínio. “Hoje, o que ocorre é uma fragmentação de redes milicianas, com perdas de territórios importantes na Zona Oeste do Rio”, diz.
Especializada em processos envolvendo a atuação da milícia na Baixada Fluminense, a promotora da Justiça Elisa Ramos Pittaro Neves confirma que há um enfraquecimento da milícia em decorrência da expansão do CV no Rio. E diz que o cenário vem se agravando devido a uma disputa interna. “A milícia está enfrentando uma disputa de poder que tem ajudado a enfraquecê-la ainda mais”.

Ignácio Cano, sociólogo e especialista em Segurança Pública, acredita que a milícia ainda continua com forte influência em suas áreas de atuação. Mas tem enfraquecido devido às disputas por poder dentro da própria organização. “A tentativa de criar uma ‘mega-milícia’ dominante após Jerominho não vingou. Com isso, houve muitas mortes em conflitos internos porque o grupo não conseguiu um grau de interação capaz de estruturar um poder hegemônico e unificado”.
Já Paulo Storani, antropólogo e ex-capitão do Bope, acredita que o enfraquecimento da milícia está relacionado a uma série de enfrentamentos há ao menos duas décadas, quando as principais lideranças ligadas às forças de segurança acabaram sendo presas. “Aí, houve uma mudança de perfil de liderança da milícia, saindo desse modelo de ex-policiais para integrantes da própria comunidade. Com isso, a milícia foi perdendo a força que tinha”.
CV concentra ataques contra a milícia na Zona Oeste do Rio
Um levantamento feito pela Agenda do Poder identificou 15 ofensivas do CV em áreas de domínio da milícia só neste ano, média de um ataque a cada dois dias. E, em todas as ações, a facção criminosa avançou em territórios na Zona Oeste do Rio, principal reduto do grupo.
“O CV está em meio a uma política expansionista. E a expansão para a Zona Oeste tem fatores interessantes do ponto de vista econômico. A taxação ilegal de todas as atividades econômicas em um território tem sido uma prática copiada pelo CV quando ocupa os territórios da milícia. É um mercado lucrativo”.
Carolina Grillo, pesquisadora do Geni-UFF
Os ataques são violentos, segundo fontes ouvidas pela reportagem sob a condição de anonimato. “O CV vem atacando localidades diferentes para desestabilizar a milícia, que não consegue revidar”, diz uma fonte, sob a condição de anonimato.
No começo de janeiro, traficantes do CV teriam sequestrado e matado um homem a mando de Edgar Alves de Andrade, o Doca. Na ação, teriam coagido moradores a repassar informações sobre a milícia para tramar novos ataques.
Fontes estimam que os ataques tenham ocasionado ao menos 50 assassinatos nos últimos meses. Carolina Grillo levanta a hipótese de que o interesse na região é estratégica, e pode mirar uma possível rota de interesse do tráfico rumo ao Porto de Itaguaí. “A expansão tem uma direção geográfica para uma região com fluxos econômicos importantes”, avalia.

Como foi quebra de acordo de paz
Houve uma articulação para uma espécie de “acordo de paz” no começo deste ano para colocar um desfecho em uma sangrenta disputa interna pelo controle do grupo paramilitar. Os assassinatos se arrastam há mais de quatro anos. Mas a execução de Cristiano Lima de Oliveira, o Jiraya, está no centro da quebra desse acordo. Ele foi morto a tiros de fuzil há três semanas em uma emboscada com criminosos encapuzados a bordo de quatro carros em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
A milícia se dividiu em dois núcleos nos últimos anos. O reduto da organização criminosa na Zona Oeste do Rio, berço da milícia, é chefiado por Paulo David Guimarães Ferraz Silva, conhecido como Naval devido ao seu passado militar. Na Baixada, a quadrilha é coordenada por Juninho Varão.
Uma série de execuções brutais ocorreram após a morte de Jiraya. Um ataque a tiros na madrugada de 17 de janeiro em Manguariba, Zona Oeste do Rio, deixou ao menos cinco pessoas mortas. O crime teria sido cometido a mando de Varão.
Como resposta ao ataque, a milícia da Zona Oeste matou e esquartejou dois homens no dia seguinte. Os corpos foram abandonados na altura do km 32, um dos redutos da milícia do Varão em Nova Iguaçu.
Como Zinho impediu invasão e manteve império do crime

Em junho de 2021, Wellington da Silva Braga, o Ecko, até então líder da milícia, foi morto em uma ação policial. Apontado como o responsável por unir o grupo paramilitar em um processo de expansão da Zona Oeste para a Baixada, a morte dele abalou a estrutura do grupo, dando início a uma dissidência.
A transcrição de áudios mostram a reação de criminosos até então ligados a Ecko após a tentativa de invasão à Zona Oeste do Rio. “Pica, mano. Invadiram Manguariba [reduto de Ecko em Paciência]. Maluco da outra milícia invadiu. Colocaram mais de 30 carros, filho. Tudo de bico [gíria para se referir a armas de grosso calibre]”, disse um homem.
Segundo o MP, o grupo da Baixada viu na morte de Ecko uma chance para assumir o controle da organização criminosa. Mas os criminosos levaram a pior ao encontrarem resistência. O irmão mais novo de Ecko, até então encarregado pela lavagem de dinheiro da quadrilha, foi um dos responsáveis por um período sangrento de disputas internas que se arrasta até hoje.
Mas Luiz Antônio da da Silva Braga, o Zinho, só ficou até dezembro de 2023 à frente do grupo, quando decidiu se entregar à Polícia Federal. Com a sua prisão, a quadrilha chefiada hoje por Juninho Varão voltou a intensificar as ações na Zona Oeste do Rio, em uma disputa interna por poder que ainda parece estar muito longe de um desfecho.


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