O assassinato de Marta Silva de Oliveira, a Martinha Sapatão, morta a tiros há uma semana em Cabo Frio, é apenas o episódio mais recente de uma disputa sangrenta por poder na maior milícia do Rio que se arrasta há quatro anos e envolve até o Comando Vermelho.
Informações obtidas com exclusividade pela Agenda do Poder junto a fontes ligadas ao Ministério Público e à Polícia Civil detalham uma guerra interna que teve início após a morte de Wellington da Silva Braga, o Ecko, baleado em uma ação policial em junho de 2021.
E que deu início à ascensão do seu irmão mais novo. Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho, se entregou às autoridades em dezembro de 2023, deixando um novo vácuo de poder. A disputa interna na milícia voltou a se intensificar no episódio que resultou na invasão de oito homens armados com fuzis ao Hospital Pedro II, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio.

Na cena, gravada por câmeras de segurança na madrugada de 18 de setembro, eles estavam à procura de Lucas Fernandes de Sousa, que havia sobrevivido a uma emboscada da quadrilha em uma tentativa de assumir o poder.
Um inquérito da Draco, unidade da Polícia Civil especializada em investigações contra grupos paramilitares, liga o ataque a Martinha Sapatão. Ela é apontada pela investigação como a responsável por tramar o assassinato em um plano para assumir o poder da milícia.
Mas a ação foi descoberta. No dia seguinte à invasão ao hospital, o corpo de Erlan Oliveira, o Orelha, principal aliado da Martinha Sapatão, foi encontrado em Sepetiba. Com isso, Martinha foi obrigada a fugir, mas não escapou das mãos da milícia.
“As milícias sempre tiveram conflitos internos, com mortes e represálias em meio a disputas por poder. Mas ela também sempre soube se adaptar às mudanças ao longo dos anos”.
Ignácio Cano, sociólogo e especialista em Segurança Pública
A disputa por território na guerra interna da milícia que também envolve o Comando Vermelho engloba um vasto território na Zona Oeste do Rio, incluindo Campo Grande, Santa Cruz, Cosmos, Paciência, Santíssimo e Guaratiba.
Com brecha no poder, CV tenta expandir território
Em meio a indefinições sobre os rumos da milícia com a morte de Ecko, até o Comando Vermelho se aproveitou do enfraquecimento causado pela divisão interna e deu início a um processo de expansão do seu território para a Zona Oeste do Rio, reduto histórico da milícia.
Investigações indicam que a principal facção criminosa do Rio tem usado áreas estratégicas sob o seu domínio para organizar ataques desde a morte de Ecko.
Entre elas, a Vila Kennedy, favela às margens da Avenida Brasil onde há facilidade de acesso a áreas de mata usadas em rotas de fuga. Esses ataques têm sido ordenados por Edgar Alves de Andrade, o Doca, principal liderança do CV nas ruas.

Neste domingo (26), um vídeo gravado por moradores mostra o sangue na roupa de um mototaxista baleado na praça da Vila Kennedy, próximo à Avenida Brasil, na Zona Oeste do Rio. Eles atribuem os disparos a um suposto ataque da milícia em uma área de domínio do Comando Vermelho. A Polícia Civil investiga o caso.
A região, aliás, ficou em meio a uma disputa entre o CV e a milícia há apenas três semanas. Horas após criminosos da facção criminosa exibirem fuzis em vídeo nas redes sociais na Zona Oeste do Rio, a milícia deu o troco, impondo momentos de terror para a população.
Cerca de 50 pessoas ficaram na linha de tiro em meio a uma invasão do grupo paramilitar na Vila Kennedy, mostra vídeo obtido com exclusividade pela reportagem. Eram 23h07 quando começa a primeira sequência de tiros. Em seguida, as pessoas correm em busca de proteção.
O som de disparos se intensifica, com rajadas de fuzil e o que parece ser o barulho de granadas explodindo. O desespero passa a tomar conta das pessoas por ali. “É polícia?”, questiona uma delas. Não era. Dois minutos depois, um outro morador responde.
“É bandido! Não é polícia, não, mano. Eu vi! Os caras tudo de preto (…). Eles mandaram eu sair do carro”.
É possível ouvir uma mulher chorando. No meio do grupo, um homem corre com uma criança no colo e se joga no chão, nos fundos. A mãe então se aproxima e abraça o menino, usando o próprio corpo como se fosse uma espécie de escudo.

“Essa disputa territorial entre esses grupos criminosos, que usam armas de guerra, gera uma sensação de insegurança. Temos um crime organizado fortalecido, muito bem armado e com táticas de guerrilha”, disse o delegado Felipe Curi em entrevista ao Jogo do Poder, programa no YouTube do jornalista Ricardo Bruno, da Agenda do Poder.

Em meio a essa disputa entre CV e milícia, seis homens mortos foram encontrados em uma chacina há um mês dentro de um veículo próximo a uma das entradas do Morro Dois Irmãos, Curicica, Zona Sudoeste.
Os corpos tinham sinais de tortura e tiros nos rostos. A principal hipótese apurada pela Polícia Civil é de que a ordem da chacina teria partido de Doca.
Como Zinho impediu invasão e manteve império do crime

Ecko havia herdado o clã da família Braga após a morte do seu irmão mais velho Carlos da Silva Braga, o Carlinhos Três Pontes, que havia sido baleado em uma ação policial quatro anos antes. Ele era apontado como o responsável por unir a milícia. Mas a sua morte abalou a estrutura do grupo, dando início a uma dissidência.
A transcrição de áudios obtidos pela reportagem mostram a reação de criminosos até então ligados a Ecko após uma tentativa de invasão à Zona Oeste do Rio, reduto da milícia. “Pica, mano. Invadiram Manguariba [reduto de Ecko em Paciência]. Maluco da outra milícia invadiu. Colocaram mais de 30 carros, filho. Tudo de bico [gíria para se referir a armas de grosso calibre]”, disse um homem.

“Não vou embora hoje. Vou ficar em Manguariba. Tá cheio de homem aqui. Trancaram a gente dentro da pizzaria, fecharam tudo. Eu tô nervosa, tô tremendo”, relatou uma mulher, em outro áudio.
Segundo o MP, o grupo era ligado a Danilo Dias Lima, o Tandera, um aliado de Ecko na expansão da milícia para a Baixada Fluminense. E viu em sua morte uma chance para assumir o controle da organização criminosa.
“Com a morte do Ecko, o ponto de equilíbrio acabou, dando início a uma disputa interna”, disse Elisa Ramos Pittaro Neves, promotora de Justiça do Rio.

Mas Tandera acabou levando a pior ao encontrar resistência de Zinho.
A milícia que ganhou fama com o nome “Liga da Justiça” ao ser fundada no fim dos anos 1990 pelo ex-policial civil Jerominho, morto a tiros em uma emboscada em agosto de 2022, passou a se chamar Bonde do Zinho.
O irmão mais novo de Carlinhos Três Pontes e Ecko, até então apontado como o responsável pela lavagem de dinheiro da quadrilha, foi um dos responsáveis por um período sangrento de disputas internas que se arrasta até hoje.

Quem é quem na guerra da milícia do Rio
O clã Braga – O clã deixado pelos irmãos Carlinhos Três Pontes e Ecko para Zinho, hoje preso, é chefiado nas ruas por Paulo David Guimarães Ferraz Silva, o Naval. Investigações da Draco indicam que ele conta com o apoio de Paulo Roberto de Carvalho Martins, o PL, para fazer as cobranças de taxas pagas pelos milicianos ao grupo hoje conhecido como Bonde do Zinho.

O Comando Vermelho – A facção criminosa sob o domínio de Doca nas ruas conta com a importante participação de Rodney Lima de Freitas, o RD, que tem a missão de expandir o território da organização para a área hoje da milícia.
A milícia de Seropédica – Com a expansão da milícia para a Baixada Fluminense, a quadrilha passou a contar com um braço armado em Seropédica. E que formou uma milícia autônoma após a morte de Ecko, mirando tomar o território da Zona Oeste. O grupo é chefiado por Gilson Inácio de Souza Júnior, o Juninho Varão.


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