A maior milícia do Rio convive com traições, tentativas de golpe, assassinatos e até com fuzis em festa infantil. Quase dois anos após a prisão de Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho, que se entregou à Polícia Federal, a organização criminosa luta para manter o domínio do seu próprio território em meio a constantes ataques do Comando Vermelho.

Os episódios mais recentes ocorreram nesta semana, envolvendo uma festa infantil com fuzis e homenagens a líderes mortos da milícia e o assassinato de uma prima de Zinho em meio à disputa de poder nas ruas. 

Marta Silva de Oliveira, a Martinha Sapatão, foi assassinada na madrugada deste sábado (18) ao ser atingida por ao menos seis tiros na cabeça por um homem encapuzado, que invadiu a casa onde ela morava em Cabo Frio, na Região dos Lagos.

Marta Silva de Oliveira era prima dos irmãos Zinho e Ecko / Crédito: Redes sociais

Fontes ouvidas pela Agenda do Poder indicam que ela teria participado de uma guerra para assumir o controle da organização criminosa, desencadeando uma série de assassinatos. Em seguida, teria se aliado a Edgar Alves de Andrade, um dos líderes do Comando Vermelho, para matar seus desafetos. Mas acabou levando a pior.

No dia seguinte ao assassinato de Martinha Sapatão, agentes da Draco, a delegacia especializada em investigações envolvendo milícias, apreenderam seis fuzis e quatro pistolas no que seria uma festividade oferecida pela milícia em Guaratiba, um dos redutos do grupo paramilitar na Zona Oeste do Rio. Sete suspeitos foram presos. Um deles é PM. 

Milicianos foram presos com fuzis em festa infantil com banner em homenagem a líderes da organização / Crédito: Redes sociais

No local das comemorações, agentes encontraram equipamentos de som e brinquedos para crianças convidadas à celebração. No evento, os policiais apreenderam um banner em homenagem aos chefes da milícia mortos em operações policiais, como Carlos da Silva Braga, o Carlinhos Três Pontes, e Wellington da Silva Braga, o Ecko, irmãos de Zinho.

O banner também incluía Matheus da Silva Rezende, o Faustão, sobrinho de Zinho, também morto em confronto em outubro de 2023.

Apontado como chefe da milícia, Zinho está preso desde dezembro de 2023 / Crédito: Reprodução

Apesar de manter a memória do clã Braga e de lidar com assassinatos em disputas internas por poder, a milícia ainda precisa enfrentar as ofensivas do Comando Vermelho. No começo deste mês, traficantes da facção se exibiram gravando vídeos em uma área de domínio do grupo paramilitar. Mas os milicianos deram o troco, invadindo horas depois a Vila Kennedy, área de domínio do CV na Zona Oeste do Rio, com rajadas de fuzil.

Ex-fuzileiro e suspeito de matar Jerominho: que é o líder da milícia

O grupo hoje é chefiado pelo ex-fuzileiro Paulo David Guimarães Ferraz Silva, conhecido como Naval devido ao seu passado militar. Ele assumiu o controle da milícia nas ruas após a morte de Rui Paulo Gonçalves Estevão, o Pipito, baleado em uma operação policial em junho de 2024. Pipito era apontado como homem de confiança de Zinho.

Paulo David Guimarães Ferraz Silva, o Naval, é apontado como chefe da milícia nas ruas do Rio | Crédito: Reprodução

Conhecido pela postura violenta, Naval também é apontado como um dos suspeitos de envolvimento na morte do homem que fundou a milícia no fim dos anos 1990.

O ex-policial civil Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, foi morto a tiros em uma ação gravada por câmeras de segurança na Zona Oeste do Rio em agosto de 2022. Condenado na Justiça a dez anos de prisão por formação de quadrilha, ele estava solto desde 2018.

Jerominho foi assassinado em agosto de 2022 / Crédito: Montagem

Jerominho é apontado como o fundador de uma milícia surgida ainda como organização responsável por extorsões, cobranças por taxa de segurança e execuções sob o pretexto de proteger moradores de criminosos. Era a chamada Liga da Justiça.

Como a Liga da Justiça deu lugar ao clã dos Braga

Esse modelo de atuação das milícias persistiu até 2013, sob a gestão do ex-PM Toni Angelo, preso naquele ano após trocar tiros com um agente penitenciário na saída de uma casa noturna. E foi justamente após a saída de cena de criminosos com passagens pelas forças de segurança que o clã Braga assumiu a milícia com uma nova visão sobre o crime.

Com a ascensão de Carlinhos Três Pontes, a milícia mudou de vez a sua forma de atuar. Ex-traficante, expandiu a operação do grupo, até então restrito à Zona Oeste do Rio, para os municípios da Baixada Fluminense. E mudou de vez a estrutura da milícia, que passou a atuar com roubo de cargas e a fazer aliança com o tráfico. Algo impensável nos tempos da antiga Liga da Justiça.

Carlinhos Três Pontes morreu em uma operação policial em 2017. Mas a atuação da milícia sob a sua gestão teve continuidade com uma dinastia seguida pelo seu irmão mais novo, Ecko. Ele também acabou sendo assassinado em confronto com as forças de segurança, quatro anos depois.

Com isso, quem assumiu o controle do grupo foi Zinho. Com perfil menos bélico, ele era o responsável pela lavagem de dinheiro da quadrilha, o que deu margem para o início de uma sangrenta disputa interna pelo poder que dura até hoje.

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