Um brutal ataque com mais de 100 tiros para matar três homens em frente a um bar lotado em Nova Iguaçu na madrugada da última quinta-feira (20) tem como pano de fundo uma guerra interna por poder na milícia que se arrasta há quatro anos. E que se expandiram da Zona Oeste do Rio, principal reduto do Bonde do Zinho, para a Baixada Fluminense.
A ação causou pânico. Vídeos feitos por testemunhas mostram pessoas no chão do bar, enquanto é possível ouvir os disparos. “Abaixa! Abaixa! É tiro”, diz uma das mulheres, enquanto as imagens mostram clientes no chão do estabelecimento. Segundo testemunhas, dois homens armados com fuzis desceram de um carro preto e abriram fogo contra as vítimas, que haviam acabado de chegar.
O ataque a tiros matou Antony Cruz Eiras e Patrick Vieira dos Santos. Mas o principal alvo do ataque era Luiz Carlos Pereira dos Santos Cruz, o Nem Corolla, que também foi assassinado no ataque. Fontes da Agenda do Poder nas forças de segurança indicam que ele era homem de confiança de Gilson Ingrácio de Souza Junior, o Juninho Varão, que assumiu o grupo paramilitar na Baixada após o racha interno. Mas acabou sendo atraído por Paulo David Guimarães Ferraz Silva, o Naval, que hoje chefia o Bonde do Zinho nas ruas.

Nem Corolla ganhou destaque na milícia por ter se tornado um dos líderes do grupo paramilitar em Austin, em Nova Iguaçu. E, com o apoio de Naval, fez investidas nos bairros de Tinguá e Miguel Couto recentemente, segundo informações obtidas pela reportagem.
Ele tinha sete anotações criminais. Cinco delas por homicídio. Ele inclusive foi denunciado pelo Ministério Público pelo assassinato de Nilton Gonçalves de Oliveira, morto em uma praça em Vassouras (RJ) em setembro de 2021. A vítima era pai do ex-prefeito da cidade, Renan Vinícius Santos de Oliveira. Nem Corolla foi flagrado em vídeo descendo do carro e disparando três vezes contra a vítima, que estava tomando café.
“As milícias sempre tiveram conflitos internos, com mortes e represálias em meio a disputas por poder. Mas ela também sempre soube se adaptar às mudanças ao longo dos anos”.
Ignácio Cano, sociólogo e especialista em Segurança Pública
A onda de violência na Baixada Fluminense se intensificou nos últimos dois meses, em uma série de mortes possivelmente ligadas à disputa interna da milícia. No dia 4 de setembro, um homem foi morto em confronto entre milícias rivais na divisa entre Itaguaí e Seropédica.
No dia 7 do mesmo mês, o motorista Wendel de Oliveira Ruivo foi morto a tiros no quintal de casa no bairro Comendador Soares, em Nova Iguaçu. A Polícia Civil investiga se o crime foi motivado pela possível participação dele na milícia.
No dia seguinte, dois homens foram mortos por bandidos encapuzados que desceram de um carro atirando em Marapicu, Nova Iguaçu. Um deles era o policial militar Allan de Oliveira, que estava de folga. O outro era William da Silva Oliveira André, que já havia sido preso por homicídio e adulteração de veículo. Investigadores apuram se há um possível envolvimento do crime organizado nos assassinatos.

Quem é Juninho Varão, o homem que desafia a milícia de Zinho na Baixada
Juninho Varão tem várias passagens pela polícia por crimes como homicídio, tortura e organização criminosa. Seu grupo é responsável por extorsões contra moradores e comerciantes, exploração ilegal de serviços de gás, água, internet, agiotagem, cobranças de taxas de segurança e até gestão de transportes clandestinos.
A milícia chefiada por ele na Baixada Fluminense movimentou cerca de R$ 10 milhões nos últimos dois anos, segundo informações das autoridades.
A quadrilha usou uma empresa para fazer a lavagem de dinheiro, movimentando mais de R$ 6 milhões de 2022 a 2023, segundo investigações. A milícia também utilizava carros de luxo e outros bens para ostentar riqueza e dificultar o rastreamento do dinheiro.
Juninho Varão tem sido alvo de operações policiais nos últimos anos. Em 18 de julho de 2023, mandados foram cumpridos para prender membros da milícia ligada ao criminoso.
Em outubro de 2024, há relatos de uma guerra entre milicianos e traficantes pelo controle do bairro Ipiranga, em Nova Iguaçu, com Juninho Varão como um dos líderes do conflito tentando retomar territórios para monopolizar o comércio ilegal.

‘Homem de guerra’ e ex-fuzileiro: Quem é Naval, o líder do Bonde do Zinho nas ruas
Naval usa esse apelido no meio do crime por ter sido fuzileiro na Marinha. Segundo as forças de segurança, ele é considerado um homem de guerra da milícia, violento e responsável por vários homicídios.
“[O Naval] tende a assumir o papel de unir cada vez mais os grupos armados, ainda fragmentados”
Promotor Fábio Corrêa, Gaeco

Ele é investigado pelo assassinato de Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, em 2022, fundador da antiga “Liga da Justiça” no fim dos anos 1990, que deu origem ao grupo que hoje é chamado de Bonde do Zinho.
As investigações apontaram que Jerominho foi morto porque o então chefe da organização criminosa, Zinho, havia descoberto um suposto plano dele para retomar a liderança da quadrilha. Segundo a denúncia do MPRJ, Naval foi um dos autores da execução de Jerominho e de seu amigo, Maurício Raul Atallah, em Campo Grande, em plena luz do dia.

Morte de prima de Zinho: guerra também na Zona Oeste do Rio
O assassinato de Marta Silva de Oliveira, a Martinha Sapatão, morta a tiros há mais de um mês em Cabo Frio, é outro importante episódio da disputa sangrenta por poder na maior milícia do Rio que se arrasta há quatro anos e envolve até o Comando Vermelho.
Fontes ligadas ao MP e à Polícia Civil detalham uma guerra interna que teve início após a morte de Wellington da Silva Braga, o Ecko, baleado em uma ação policial em junho de 2021.
E que deu início à ascensão do seu irmão mais novo. Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho, se entregou às autoridades em dezembro de 2023, deixando um novo vácuo de poder. A disputa interna na milícia voltou a se intensificar no episódio que resultou na invasão de oito homens armados com fuzis ao Hospital Pedro II, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio.

Na cena, gravada por câmeras de segurança na madrugada de 18 de setembro, eles estavam à procura de Lucas Fernandes de Sousa, que havia sobrevivido a uma emboscada da quadrilha em uma tentativa de assumir o poder.
Um inquérito da Draco, unidade da Polícia Civil especializada em investigações contra grupos paramilitares, liga o ataque a Martinha Sapatão. Ela é apontada pela investigação como a responsável por tramar o assassinato em um plano para assumir o poder da milícia.
Mas a ação foi descoberta. No dia seguinte à invasão ao hospital, o corpo de Erlan Oliveira, o Orelha, principal aliado da Martinha Sapatão, foi encontrado em Sepetiba. Com isso, Martinha foi obrigada a fugir, mas não escapou das mãos da milícia.
Como Zinho impediu invasão e manteve império do crime

Ecko havia herdado o clã da família Braga após a morte do seu irmão mais velho Carlos da Silva Braga, o Carlinhos Três Pontes, que havia sido baleado em uma ação policial quatro anos antes. Ele era apontado como o responsável por unir a milícia. Mas a sua morte abalou a estrutura do grupo, dando início a uma dissidência.
A transcrição de áudios mostram a reação de criminosos até então ligados a Ecko após a tentativa de invasão à Zona Oeste do Rio. “Pica, mano. Invadiram Manguariba [reduto de Ecko em Paciência]. Maluco da outra milícia invadiu. Colocaram mais de 30 carros, filho. Tudo de bico [gíria para se referir a armas de grosso calibre]”, disse um homem.
Segundo o MP, o grupo era ligado a Danilo Dias Lima, o Tandera, um aliado de Ecko na expansão da milícia para a Baixada Fluminense que acabou sendo sucedido por Juninho Varão no comando da milícia na região. E viu na morte do líder da milícia da Zona Oeste do Rio uma chance para assumir o controle da organização criminosa.
Mas Tandera levou a pior ao encontrar resistência. O irmão mais novo de Carlinhos Três Pontes e Ecko, até então encarregado pela lavagem de dinheiro da quadrilha, foi um dos responsáveis por um período sangrento de disputas internas que se arrasta até hoje. Agora, com a participação de outros milicianos nas ruas: Naval e Juninho Varão.


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