A chacina que deixou seis pessoas mortas em um bar localizado em um reduto da milícia de Nova Iguaçu na noite deste domingo (8) simboliza o que especialistas em Segurança Pública veem como a combinação perfeita para crimes do tipo. Com menos policiamento, a Baixada concentra ataques em um ambiente onde as vítimas estão mais vulneráveis. Nesse contexto, os bares são vistos como espaços onde as vítimas na mira da disputa interna da milícia estão mais vulneráveis a ataques. Isso ocorre em meio a uma multidão que entra em pânico após os disparos, facilitando fugas.
Levantamento feito pelo Instituto Fogo Cruzado identificou que os municípios da Baixada Fluminense concentram 57% dos assassinatos em bares de 2025 para cá. Nesse período, foram 16 ataques, que deixaram um rastro de 28 mortes e de 15 feridos só na região. Ao todo, foram 49 pessoas mortas e outras 33 feridas desde o começo de 2025 na Região Metropolitana do Rio, que também inclui a Baixada.
A Agenda do Poder analisou 17 ocorrências com morte em bares na Baixada Fluminense de 2025 para cá. Desse universo, 70,5% tiveram indícios de crimes planejados pelos grupos paramilitares, o equivalente a 12 dos ataques. Duas ocorrências foram motivadas por brigas de bar, outras duas foram casos de feminicídio e um dos casos ocorreu após a vítima reagir a um assalto. (veja abaixo o resumo dos ataques).

“Esse tipo de ataque mostra o quanto as pessoas estão expostas e vulneráveis diante da violência armada. Ambientes de lazer, diversão e descontração se tornam palco de disputas entre grupos criminosos, acertos de contas e outras dinâmicas que impõem uma rotina de violência, medo e traumas”, diz Carlos Nhanga, coordenador-regional do Fogo Cruzado.
Especialistas em Segurança Pública acreditam que essas ações também refletem a disputa interna por poder na milícia. A situação se agravou nas últimas quatro semanas com a quebra de um “acordo de paz”, que desencadeou uma série de quase 20 assassinatos.
“As disputas se acirram nesses territórios por um único objetivo: lucrar mais. É um conflito que vai piorar, se não tiver um pacto de paz. A sociedade está a cada dia mais vulnerável, porque membros desses grupos passam por esses bares dando tiros de fuzil”.
Fransergio Goulart, cientista político
O sociólogo José Cláudio Souza Alves relaciona a alta frequência de ataques a bares na Baixada à intensificação da presença da milícia.
“É uma região onde o território miliciano é mais amplo, em um espaço geográfico menos marginalizado. Logo, as interações da estrutura miliciana com moradores e até com grupos políticos são mais próximas. E, também, mais aptas ao conflito, porque as disputas são diária em um cenário de extorsão generalizada”, explica.
“O bar é um espaço de lazer, com interações mais amistosas e menos controladas. Isso faz com que as estruturas de proteção sejam menos controladas, deixando as pessoas mais distraídas. Assim, o bar se torna um ambiente mais favorável para ataques em um território com intensas disputas entre grupos criminosos rivais”.
José Cláudio Souza Alves, sociólogo
‘Violência enraizada’, diz antropóloga
A antropóloga Carolina Grillo, uma das coordenadoras do Grupo de Novos Ilegalismos (Geni) da UFF, diz ver conexão entre os ataques com uma violência já enraizada na Baixada Fluminense em decorrência da existência histórica de grupos de extermínio.
“Já existe historicamente um padrão de assassinatos por encomenda ligados a disputas entre grupos rivais. Existem grupos na Baixada Fluminense são especializados em homicídios planejados. Somado a isso, a região também é uma importante frente de expansão da milícia nos últimos anos”, avalia.
Ignácio Cano, sociólogo e especialista em Segurança Pública, acredita que a milícia tem enfraquecido devido às disputas por poder dentro da própria organização. “Houve muitas mortes em conflitos internos porque o grupo não conseguiu um grau de interação capaz de estruturar um poder hegemônico e unificado”.
Cronologia dos casos de 2025
18 de janeiro – O PM Washington Souza da Silva, 36, e sua companheira, Ariane Barreto, foram mortos a tiros em um bar em Nova Iguaçu. O crime foi cometido pelo sargento Jorge Gutemberg, ex-marido de Ariane.
22 de janeiro – Dois homens foram mortos a tiros em um bar no Parque do Carmo, em Duque de Caxias. Os atiradores desceram de uma moto e já abriram fogo. Entre as vítimas, estava Marcelo de Souza, 44, o dono do estabelecimento, que já havia sobrevivido a um outro ataque no bar, três meses antes. Testemunhas afirmaram na época que o bar era frequentado por agentes de segurança, o que pode ter desagradado o tráfico local.
6 de fevereiro – Dono de um restaurante, André Luiz Fernandes Corrêa, 38, foi morto a tiros após chegar ao estabelecimento em Nova Iguaçu. Os disparos foram dados por um atirador a bordo de uma moto.
10 de fevereiro – O gerente de um bar no Jardim Alvorada, em Nova Iguaçu, foi morto com um tiro na cabeça em uma tentativa de assalto. Rodolfo Souza Fragoso, 41, foi baleado ao reagir a uma abordagem feita por criminosos armados. Um PM de folga que passava pelo local reagiu, dando início a uma troca de tiros. Mas os bandidos fugiram ao roubar um carro que passava pelo local. A ação foi gravada por testemunhas.
12 de março – PM da reserva, Marcos Antônio Lacerda, 63, foi morto ao ser atingido por tiros no peito e no abdômen durante uma briga de bar em Mesquita. O responsável pelos disparos foi preso em flagrante por homicídio.
3 de abril – Dois homens morreram e outros dois ficaram feridos após um ataque a tiros a um bar em Ouro Verde, em Nova Iguaçu. A ação matou Lucas Santos Azeredo, 27, e Bruno Tiago Souza, 38, que assistiam a um jogo de futebol no momento dos disparos. O alvo da ação seria um homem que estava em frente ao bar. Ferido no braço, ele conseguiu escapar em uma moto. Câmeras de segurança registraram o crime.

10 de maio – Um vídeo registrou o momento em que o pintor Jorge Ruas de Paiva, 51, foi morto à queima-roupa durante um pagode em um bar em Comendador Soares, Nova Iguaçu. As imagens mostram o homem se aproximando com um copo em uma mão e uma arma na outra em meio à multidão. O autor do crime foi identificado como o PM Vinicius Rodrigues Pacheco, que teve a prisão decretada pela Justiça do Rio após o crime.

18 de maio – Três homens morreram e outros cinco ficaram feridos em um ataque a tiros a um bar em Miguel Couto, Nova Iguaçu. Segundo testemunhas, os atiradores chegaram ao local em uma moto.
5 de julho – Marcos Antônio de Lima, 56, foi morto a tiros quando estava sentado em uma cadeira em frente a um bar no Parque Elian, em São João de Meriti.
19 de julho – Dois homens foram executados em um bar no Parque Fluminense, em Duque de Caxias.
2 de agosto – Luana Rejane Figueiredo Freitas, 28, foi morta a tiros dentro de um bar no bairro Ouro Verde, em Nova Iguaçu. Após os disparos, o autor do crime tentou fugir, mas foi localizado e preso em flagrante por policiais militares. Com ele, os agentes apreenderam um revólver.
28 de agosto – Imagens de câmeras de segurança registraram quando dois homens chegaram a pé em um bar na Vila Geni, em Itaguaí. Um deles já aparece com uma arma na mão. Enquanto o comparsa rendeu as pessoas do lado externo, o atirador foi atrás de Kaik de Azevedo, 21, morto a tiros quando tentava se esconder nos fundos do bar.
5 de outubro – Um segurança foi assassinado a tiros em uma festa de forró no Lote 15, em Belford Roxo. Após um desentendimento com agressões físicas, um homem deixou a feta e voltou armado para matar a vítima, atingida por um tiro no peito.

20 de novembro – Um ataque com mais de 100 tiros deixou três mortos em frente a um bar no Jardim Monte Castelo, em Nova Iguaçu. As vítimas foram surpreendidas ao saírem de um carro em frente ao estabelecimento lotado. Segundo testemunhas, dois homens armados com fuzis desceram de um carro preto e abriram fogo contra as vítimas. Dois dos mortos estavam sendo investigados por possível ligação com a milícia local, responsável por ameaçar e extorquir dinheiro de moradores.
20 de novembro – Paulo Roberto Lopes, 44, foi assassinado a tiros em um bar no bairro Sabugo, em Paracambi. Testemunhas afirmaram que dois criminosos estavam a bordo de uma moto e atiraram na direção da vítima, que morreu no local.
17 de dezembro – Câmeras de segurança flagraram quando Vanderson da Silva, 38, foi executado com tiros à queima-roupa em um bar do qual era sócio na Rua Egídio, em Mesquita.
Tribunal do crime, guerra do CV e mortes: a disputa interna da milícia
Acuada e sem saída após ataques do grupo da Baixada e tentativas de invasões do Comando Vermelho (CV), a milícia da Zona Oeste do Rio passou a conduzir tribunais do crime para descobrir possíveis traições dentro da sua própria estrutura de criminosos por suspeitar de que estariam repassando informações privilegiadas aos seus rivais.
O caso mais recente envolveu o assassinato de um dos milicianos mais antigos de Manguariba, reduto do chamado Bonde do Zinho em Paciência, Zona Oeste do Rio. Cláudio Vinicius Santos Silva, o Federinha, apontado como líder da milícia na região, foi morto pelo tribunal do crime ao ser acusado de ser X-9, como são chamados os delatores na gíria.
Segundo informações obtidas junto a fontes da Agenda do Poder ligadas às forças de segurança, Federinha teria sido acusado de ter repassado a rivais informações sobre o paradeiro de Daniel Oliveira de Souza, o Primavera, morto a tiros na madrugada do dia 31 de janeiro na favela do Rodo, em Santa Cruz, outro reduto da milícia.
O corpo de Federinha foi encontrado dentro de um veículo abandonado às margens da Estrada de Paciência na manhã de 4 de fevereiro.
‘Bota a cara, é a Tropa do Zinho’: vídeo grava tiroteio na Zona Oeste
Na madrugada desta quinta-feira (5), mais um banho de sangue em um novo ataque contra o Bonde do Zinho. Um vídeo nas redes sociais mostra o confronto, e homens usando coletes falsos onde se lê “polícia”. “Bora a cara, fdp! Vai morrer! É a tropa do Zinho, porra”, grita um jovem em meio ao som de disparos.

Após moradores relatarem intenso tiroteio, o corpo de um homem brutalmente executado com tiros de fuzil foi achado em uma rua. Segundo testemunhas, o ataque foi feito por criminosos fortemente armados, que invadiram a região em ao menos dez veículos.
Investigações da Polícia Civil indicam que o ataque pode ter sido orquestrado pela milícia chefiada por Gilson Inácio de Souza Júnior, o Juninho Varão. Ele integra o núcleo do grupo paramilitar na Baixada Fluminense, que agora tenta tomar o poder do Bonde do Zinho e se expandir para a Zona Oeste do Rio.


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