O fim da trégua da guerra interna na maior milícia do Rio tem sido marcado por uma série de mais de dez assassinatos nas últimas três semanas em um cenário que ainda parece longe do fim. A Agenda do Poder fez um levantamento desses crimes, marcados por ações violentas que envolvem execuções a sangue frio e até corpos decapitados.

Houve uma articulação para uma espécie de “acordo de paz” no começo deste ano para colocar um desfecho em uma sangrenta disputa interna pelo controle do grupo paramilitar. Os assassinatos se arrastam há mais de quatro anos. Mas a execução de Cristiano Lima de Oliveira, o Jiraya, está no centro da quebra desse acordo. Ele foi morto a tiros de fuzil há três semanas em uma emboscada com criminosos encapuzados a bordo de quatro carros em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Câmera de vigilância captou o assassinato de Jiraya em Nova Iguaçu / Crédito: Divulgação

A milícia se dividiu em dois núcleos nos últimos anos. O reduto da organização criminosa na Zona Oeste do Rio, berço da milícia, é chefiado por Paulo David Guimarães Ferraz Silva, conhecido como Naval devido ao seu passado militar. Na Baixada, a quadrilha é coordenada por Gilson Inácio de Souza Júnior, o Juninho Varão.

A Polícia Civil trabalha com duas linhas de investigação. Uma delas indica que Jiraya teria sido morto a mando de Varão, até então apontado como seu aliado. A morte dele seria o preço pelo acordo de paz, já que Jiraya era apontado como traidor na Zona Oeste do Rio por ter deixado esse núcleo para se associar a Varão. Contudo, os investigadores não descartam que Jiraya tenha sido assassinado a mando da milícia da Zona Oeste sem o aval de Varão. Isso teria motivado uma nova onda de mortes, com assassinatos de ambos os lados.

Uma série de execuções brutais ocorreram após a morte de Jiraya. Um ataque a tiros na madrugada de 17 de janeiro em Manguariba, Zona Oeste do Rio, deixou ao menos cinco pessoas mortas. O crime teria sido cometido a mando de Varão. Como resposta ao ataque, a milícia da Zona Oeste matou e esquartejou dois homens no dia seguinte. Os corpos foram abandonados na altura do km 32, um dos redutos da milícia do Varão em Nova Iguaçu.

Corpos esquartejados foram encontrados pela PM no km 32 de Nova Iguaçu, reduto da milícia de Varão / Crédito: Divulgação

Mas os crimes não pararam por aí. Uma nova onda de assassinatos teve início na madrugada do último sábado (31) quando Daniel Oliveira de Souza, o Primavera, foi morto a tiros na favela do Rodo, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio. Ele era apontado como um dos homens de confiança de Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho, líder preso da milícia. Em liberdade desde setembro de 2023, Primavera tinha três mandados de prisão em aberto.

Luan Rafael Venancio Rodrigues foi encontrado morto em área de domínio de Varão em Nova Iguaçu / Crédito: Reprodução

No dia seguinte, Luan Rafael Venancio Rodrigues, o Sucessinho, foi encontrado morto no Morro do Cruzeiro, em Nova Iguaçu, reduto de Varão. A Polícia Civil investiga a hipótese de que o crime tenha sido orquestrado em represália ao assassinato de Primavera.

Até as autoridades têm encontrado dificuldade para apurar a série de assassinatos, concentrados na Zona Oeste do Rio e em Nova Iguaçu, reduto de Varão. “A única coisa que é possível afirmar é que a milícia está enfrentando uma disputa de poder, mas seria muito especulativo indicar quem são os envolvidos”, diz Elisa Ramos Pittaro Neves, promotora de Justiça especializada em ações envolvendo a atuação da milícia na Baixada Fluminense.

Cronologia dos crimes

Cristiano Lima de Oliveira, o Jiraya, foi morto a tiros em Nova Iguaçu / Crédito: redes sociais

13 de janeiro – Uma ação gravada por câmeras de segurança registrou a morte de Jiraya. A autoria do crime ainda não está esclarecida.

16 de janeiro – Membros da milícia de Campo Grande invadiram o bairro Valverde para matar um membro da milícia do Varão.

17 de janeiro – Um vídeo mostra um ataque a tiros em Manguariba, Zona Oeste do Rio, que deixou ao menos cinco pessoas mortas.

18 de janeiro – Como resposta ao ataque, a milícia da Zona Oeste matou e esquartejou dois homens. Os corpos foram abandonados na altura do km 32, um dos redutos da milícia do Varão em Nova Iguaçu.

Daniel Oliveira de Souza, o Primavera, foi morto a tiros em Santa Cruz / Crédito: Divulgação

31 de janeiro – Daniel Oliveira de Souza, o Primavera, foi morto a tiros na favela do Rodo, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio.

Luan Rafael Venancio Rodrigues foi morto em Nova Iguaçu, em reduto do Juninho Varão / Crédito: Divulgação

1º de fevereiro – No dia seguinte, Luan Rafael Venancio Rodrigues foi encontrado morto no Morro do Cruzeiro, em Nova Iguaçu.

Como Jiraya ‘traiu’ o núcleo da Zona Oeste

Inicialmente, Jiraya era ligado ao Comando Vermelho (CV). Mas acabou se aliando à milícia para invadir Antares, em Santa Cruz, na Zona Oeste. Após a tomada do território, passou a chefiar o grupo paramilitar na região. Mas foi preso em flagrante por porte ilegal de arma em maio de 2020 em Paciência, um dos redutos da milícia na Zona Oeste do Rio. Na ocasião, usou a própria filha como escudo humano, segundo a Polícia Civil.

“Ele [Jiraya] estava na sala e correu para o interior da residência, diretamente para o quarto da filha com meses de idade e a agarrou. A companheira dele também se agarrou neles. Ele não queria se entregar. Mesmo abraçado com a filha, resistiu à voz de prisão e teve que ser contido”, disse na época o delegado Felipe Curi, hoje secretário da Polícia Civil.

Um ano depois da prisão de Jiraya, Wellington da Silva Braga, o Ecko, líder da milícia, morreu em uma ação policial em junho de 2021. Isso abalou a estrutura do grupo, dando início a uma dissidência.

Quando foi solto ao ganhar liberdade condicional, em novembro de 2025, Jiraya já havia perdido poder na Zona Oeste. E, por isso, teria se aliado a Juninho Varão na guerra interna da milícia contra Naval.

Como a guerra interna começou

Ecko havia herdado o poder após o assassinato do seu irmão Carlos da Silva Braga, o Carlinhos Três Pontes, baleado em uma ação policial em abril de 2017 e até então o líder da milícia. Três Pontes “inaugurou” um novo momento na milícia. Ele assumiu a posição do ex-PM Toni Ângelo, preso em julho de 2013 ao ser atingido por um tiro em uma boate em Campo Grande. A chegada de Três Pontes ao poder marcou o início de uma nova era da então chamada Liga da Justiça, que deixava de ser dominada por ex-policiais.

Ecko coordenou uma expansão para a Baixada Fluminense. Mas a sua morte há pouco mais de quatro anos fez com que os responsáveis por chefiar as ações nos municípios vizinhos se articulassem para dar uma espécie de “golpe de Estado”.

A transcrição de áudios obtidos pela reportagem mostram a reação de milicianos com a tentativa de invasão ao território de Ecko, reduto da milícia. “Pica, mano. Invadiram Manguariba [reduto de Ecko em Paciência]. Maluco da outra milícia invadiu. Colocaram mais de 30 carros, filho. Tudo de bico [gíria para se referir a armas de grosso calibre]”, disse um homem.

Investigações indicam que o grupo da Baixada viu uma chance para assumir o controle da organização criminosa. “Com a morte do Ecko, o ponto de equilíbrio acabou, dando início a uma disputa interna”, disse Elisa Ramos Pittaro Neves, promotora de Justiça do Rio.

Como Zinho impediu ‘golpe de Estado’

Mas a investida não deu certo ao encontrar resistência de Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho. O irmão mais novo de Carlinhos Três Pontes e Ecko articulou uma até então improvável aliança com o Comando Vermelho (CV) para se manter no poder e dar continuidade ao império construído pelo Clã Braga.

Surgiu, assim, o chamado Bonde do Zinho, nome que identifica o grupo até hoje.

Especialistas entendem que o cenário de disputa interna faz parte da própria história das milícias. “As milícias sempre tiveram conflitos internos, com mortes e represálias em meio a disputas por poder. Mas ela também sempre soube se adaptar às mudanças ao longo dos anos”, diz Ignácio Cano, sociólogo e especialista em Segurança Pública.

Mas Zinho se entregou às autoridades em dezembro de 2023, deixando um novo vácuo de poder, que voltou a intensificar as disputas internas atuais.

Guerra na milícia inclui invasão a hospital e assassinato planejado

A disputa interna na milícia voltou a se intensificar há apenas quatro meses no episódio que resultou na invasão de oito homens armados com fuzis ao Hospital Pedro II, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio. Na cena, gravada por câmeras de segurança, eles estavam à procura de Lucas Fernandes de Sousa, que havia sobrevivido a uma emboscada da quadrilha em uma tentativa de assumir o poder.

No dia seguinte à invasão ao hospital, o corpo de Erlan Oliveira, o Orelha, foi encontrado em Sepetiba. Investigações da Draco, unidade da Polícia Civil especializada em investigações contra grupos paramilitares, indicam que os crimes foram tramados por Marta Silva de Oliveira, a Martinha Sapatão, em um plano para assumir o poder.

Com isso, ela foi obrigada a fugir, mas não escapou das mãos da milícia. No mês seguinte ao ataque ao hospital, ela foi assassinada em Cabo Frio, onde estava escondida.

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