Marcelo Freixo, que esteve à frente da CPI das Milícias de 2008 no auge da atuação do grupo paramilitar na Zona Oeste do Rio, traçou um paralelo entre o período de atuação da Liga da Justiça e o avanço desse tipo de organização criminosa. “Era um Estado leiloado, já com estrutura de máfia. A milícia não nasce do cárcere. Ela nasce da relação entre política, periferia e polícia”, diz.

Em entrevista exclusiva à Agenda do Poder, Freixo disse que a milícia deixou para trás a estratégia de buscar conexões políticas e de ter lideranças ligadas às forças de segurança para uma ação mais voltada à expansão de território. Isso inclui uma aliança com o tráfico de drogas, algo que parecia improvável no seu surgimento. “A milícia abandona o discurso moral de que não é crime”, compara.

Marcelo Freixo com placa em homenagem a Marielle Franco / Crédito: Reprodução

Freixo, que preside a Embratur há três anos, relembra das ameaças de morte sofridas após a CPI, relaciona as milícias ao assassinato da juíza Patrícia Acioli em 2011 e fala ainda sobre a relação do Escritório do Crime com os grupos paramilitares. “Quem mata uma juíza também mata um deputado. A morte da Marielle destampou esse bueiro e fez com que a sociedade passasse a cobrar respostas”.

Uma série sobre a ascensão da maior milícia do país contou como os irmãos Jerominho e Natalino impulsionaram a atuação do grupo paramilitar para a política na Zona Oeste do Rio, mostrou como agiam os “matadores de aluguel” que antecederam o Escritório do Crime, relembrou como foi o declínio de uma cúpula formada por ex-policiais após um plano para matar Freixo e ainda detalhou como agia o ex-PM Carlão, acusado de ao menos 16 homicídios e que fugiu do presídio com o auxílio de agentes do Estado.

Apontado como fundador da Liga da Justiça, Jerominho foi morto em um atentado / Crédito: Montagem

Agenda do Poder – Como a Liga da Justiça atuava no período em que ocorreu a CPI das Milícias?

Marcelo Freixo – A CPI ocorreu em 2008. Mas eu havia proposto a abertura da comissão um ano antes. Era um período de grande avanço da milícia com esse domínio de território e de serviços em um Estado leiloado, já com estrutura de máfia. Mas ela surgiu no início dos anos 2000.

Com Jerominho reeleito vereador em 2004 e Natalino deputado em 2006, a milícia passa a ter representação política. Ela surge com discurso vinculado à ordem. Tinha uma moral miliciana, que dizia que o crime era o tráfico.

Tem escutas telefônicas curiosas, de milicianos dizendo: “Poxa, a polícia está tratando a gente como se a gente fosse bandido”. Apesar de cometerem crimes, como assassinatos e extorsão, eles não se viam como bandidos.

Liga da Justiça usava símbolo do Batman em seu reduto, na Zona Oeste do Rio / Crédito: Reprodução

Agenda do Poder – É possível traçar um paralelo entre a Liga da Justiça e a atuação da milícia hoje no Rio?

Freixo – O que determina a milícia é economia, não ideologia.

A milícia abandona o discurso moral de que não é crime. E assume que consolida-se como grupo criminoso.

Passa a ter tráfico de drogas na milícia em uma mistura de práticas do ecossistema do crime. A CPI teve algumas ações vitoriosas além das prisões. Ela também teve um impacto na opinião pública. As pessoas passaram a conhecer e a entender que milícia é crime.

Antes, tinha muita gente que dizia que era um mal menor e até a defendia.

A milícia também passou por um processo de muita expansão de Campo Grande para os municípios da Baixada e até para o interior do Rio.

Pichações em parede em alusão à área de domínio da Liga da Justiça / Crédito: Reprodução

Agenda do Poder – Como você vê essas mudanças no perfil da milícia?

Freixo – A milícia passou por transformações ao longo do tempo com a aliança com o tráfico. O crime sempre vai atrás de dinheiro e poder. Passou a atender a lógica financeira de qualquer organização criminosa. Por isso, é preciso ter maior eficiência para combater o coração financeiro do crime.

Agenda do Poder – No período da CPI das Milícias, você chegou inclusive a receber ameaças de morte. Como você lidou com isso?

Freixo – Eu estava tendo muita visibilidade por presidir a CPI das Milícias. Sempre me protegi, evitando exposição e andando com escolta. A CPI prendeu mais de 200 pessoas, incluindo deputados e vereadores. Houve uma mudança da opinião pública. Então, recebia muitas informações da Secretaria de Segurança Pública sobre planos para me matar. Em agosto de 2011, mataram a juíza Patricia Acioli. Ela já tinha ido ao meu gabinete para pegar o relatório da CPI.

Ronnie Lessa está preso pela morte da vereadora Marielle Franco / Crédito: Reprodução

Quem mata uma juíza, também mata um deputado. Ali, percebi que havia um risco real. O próprio Ronnie Lessa chegou a dizer que havia uma encomenda para me matar. Dizia-se que havia uma lista de pessoas que seriam assassinadas.

Na época, eu precisava ter uma escolta mais preparada, porque o risco estava aumentando. Mas o Estado não estava permitindo. Aí, houve o convite da Anistia Internacional para que eu pudesse sair um pouco de cena, até que melhorassem a minha escola para eu voltar. Foi o que aconteceu.

Jerominho foi assassinado em agosto de 2022 / Crédito: Montagem

Agenda do Poder – Por que a milícia passou a deixar de lado a estratégia de ter ligações políticas ao eleger vereadores e deputados, por exemplo?

Freixo – Todas as facções criminosas surgiram dentro de presídios. É mais uma razão para que as pessoas pensem melhor sobre o sistema penitenciário na hora de combater o crime.

Mas a milícia não nasce do cárcere. Ela nasce da relação entre política, periferia e polícia. A frase que resumia melhor os sete meses de investigações na CPI era: “Crime, polícia e política não se separam no Rio”. Esse é o DNA da milícia.

Por dominar o território e a economia, ela sempre entendeu que também poderia dominar o território politicamente. E, ao eleger candidatos, ela também se protege. A CPI foi um divisor, porque fica muito claro quem eram os donos da milícia. Depois disso, ela deixa de lado o plano de ter candidatos. Assim, evita a exposição.

O ex-PM Ricardo Teixeira Cruz, o Batman, e Aldemar Almeida dos Santos, o Robin, fizeram parte do surgimento da Liga da Justiça na Zona Oeste do Rio / Crédito: Reprodução

Agenda do Poder – Líderes antigos da Liga da Justiça ainda dão demonstrações de influência em Campo Grande. Um dia antes de ser assassinado, em agosto de 2022, o ex-policial Jerominho postou um vídeo ao lado do irmão para divulgar um projeto social na região. Investigadores se referem a essas figuras como “os cabeças branca”. Qual a influência deles nessas áreas, quase 20 anos depois da CPI?

Freixo – Eles perderam muito poder, porque a forma antiga de gestão deles se fragilizou. Natalino era deputado, Jerominho era vereador. Isso não seria possível hoje. A milícia tem outra dinâmica hoje devido à aproximação dos seus negócios com o tráfico.

Agenda do Poder – Mas em municípios da Baixada, ainda há figuras políticas relacionadas à milícia

Freixo – É que os municípios da Baixada são secundarizados pelos governos, sem grandes aportes em termos de investimento. E essa representação política que perdura até hoje caracteriza um pouco desse abandono por parte do poder público.

Agenda do Poder – Como você vê a ascensão do Clã Braga no poder após a prisão dos antigos líderes?

Freixo – Isso acontece bem depois da CPI e das prisões em massa de milicianos. Então, não tenho maiores informações em relação a esse período. Mas as mudanças acontecem em função dos resultados da CPI, e geram transferência de poder em relação à maneira de existir da milícia. Então, as milícias se adaptaram. Há toda uma nova geração que estabeleceu outra relação de poder. Como o discurso moral é importante para eleger candidatos e isso deixa de ser prioridade, a milícia abandona essa prática.

Adriano da Nóbrega morreu em 2020 em uma operação policial na Bahia para prendê-lo / Crédito: Reprodução

Agenda do Poder – Qual a relação entre o Escritório do Crime e a milícia?

Freixo – O Escritório do Crime é formado por matadores de aluguel, que cometiam crimes a serviço de diversos grupos criminosos. Mas eram matadores que tinham negócios em áreas de milícia. O Adriano da Nóbrega tinha investimentos em imóveis nesses territórios.

O Ronnie Lessa diz que parte do pagamento por matar a Marielle era ganhar um território e se tornar dono de milícia. O Escritório do Crime só funcionava porque estava dentro de um Estado corrupto.

Foram diversos assassinatos, e pouquíssimos foram solucionados. A morte da Marielle destampou esse bueiro e fez com que a sociedade passasse a cobrar respostas.

Agenda do Poder – A Liga da Justiça deixou de existir?

Freixo – Aquela Liga da Justiça de 2008, sim. A Liga da Justiça daquela época não existe mais. O próprio assassinato do Jerominho indica isso.

Agenda do Poder – Como é possível combater a milícia hoje?

Freixo – A CPI indicava que, se não há meios de transportes eficientes em determinada região, isso abre espaço para que a milícia passe a dominar vans irregulares.

O crime organizado se alimenta das falhas do Estado. Hoje, a questão da Segurança Pública passa muito pela retomada de território. Mas é preciso que isso seja feito de forma planejada. Não foi o que aconteceu com o projeto das UPPs.

Agenda do Poder – Foi o que aconteceu na megaoperação no Complexo do Alemão e Penha?

Freixo – Não questiono se quem morreu era ou não bandido. A minha pergunta é se a ação foi eficiente no combate ao crime organizado. Se voltar lá, o que está diferente? O crime ficou mais fraco? A vida das pessoas melhorou? Se a ação não mudou nada na dinâmica do crime, não foi eficaz.

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