Ele dividia o seu tempo entre as atividades de policial militar e o mundo do crime. Quando não estava fardado, Carlos Ari Ribeiro era um dos homens mais temidos em Campo Grande, Zona Oeste do Rio. Apontado como o principal matador da Liga da Justiça entre 2007 e 2012, Carlão respondia por ao menos 16 assassinatos ligados à milícia. E, mesmo após ter sido preso, em junho de 2010, ainda ostentava uma vida luxuosa atrás das grades. Três meses depois da sua captura, Carlão deu uma festa em comemoração ao aniversário de um dos seus filhos regada a cerveja, uísque e energético dentro do antigo Batalhão Especial Prisional (BEP), em Benfica, na Zona Norte da capital fluminense.

É o último capítulo de uma série sobre o surgimento da maior milícia do país. As reportagens contaram como foi o surgimento do grupo paramilitar criado pelos irmãos Jerominho e Natalino, impulsionados ao ambiente político com a ascensão do domínio na Zona Oeste do Rio. Como agiam os “matadores de aluguel” que antecederam o Escritório do Crime. E como o foi o declínio de uma cúpula formada por ex-policiais após um plano para matar o então deputado Marcelo Freixo e um assassinato dentro de uma boate em Campo Grande, em 2013.

Carlão deu festa em comemoração ao aniversário do filho quando estava preso no BEP / Crédito: Reprodução

As fotos da festa dentro do presídio, em setembro de 2010, mostravam Carlão com cordão de ouro, relógio, anel e pulseira em um ambiente decorado com bolas de aniversário no corredor de uma das alas, perto das celas. Também havia lá cartazes com trechos bíblicos colados nas paredes. Um ano depois da festa, Carlão fugiu do presídio com ajuda interna.

Segundo as investigações da época em caso denunciado à Auditoria Militar, um agente deixou as galerias destrancadas e deixou de fazer a conferência dos presos. Um carcereiro encarregado de vigiar as celas se ausentou do local onde estava Carlão por uma hora, facilitando a fuga.

O ex-cabo saiu do segundo andar da unidade, passou por três portões até chegar a uma sala, no térreo. Ali, retirou um aparelho de ar-condicionado, passou pelo buraco e teve acesso ao pátio. Em seguida, usou uma corda para pular um muro. A unidade acabou sendo desativada em 2015, após denúncias de regalias, e transferida para Niterói.

Carlão foi preso em julho de 2010, quando ainda era PM da ativa / Crédito: TV Globo

Carlão havia sido preso quando ainda estava na ativa da Polícia Militar. Em julho de 2010, foi detido quando dirigia um carro roubado e portava uma pistola calibre 45. Exames balísticos comprovaram que a arma foi utilizada no assassinato de ao menos três pessoas. Na casa do miliciano, os agentes da Corregedoria da corporação encontraram uma fortuna construída com o dinheiro das atividades ilícitas da Liga da Justiça: sete carros, duas motos e até uma lancha avaliada em cerca de R$ 90 mil.

Em setembro de 2012, Carlão acabou sendo morto ao reagir a tiros a uma abordagem policial em uma operação conjunta entre a Polícia Civil e a PM para prendê-lo em Cosmos, berço da Liga da Justiça e um dos principais redutos da milícia na época.

Fuzil batizado e disposição para matar: como agia Carlão

Carlão passou por dez anos na PM, entre 2001 e 2011, quando acabou sendo excluído em meio a investigações sobre a Liga da Justiça. Após passagens como soldado por batalhões de Campo Grande, Tijuca, Botafogo, Bangu e Jacarepaguá, foi promovido a cabo por tempo de serviço e chegou a fazer estágio no Bope, a tropa de elite da PM.

Carlão era temido pela ousadia e disposição para matar. Em outubro de 2007, questionou um homem sobre o paradeiro de um traficante. A resposta veio em tom de deboche: “Não está no meu bolso”, disse Ricardo Jesus Pinheiro, que caminhava por Campo Grande. Carlão sacou a arma e o matou ali mesmo. Valdemir da Silva Chaves, amigo da vítima que presenciou o crime, acabou sendo assassinado a tiros três meses depois, na porta de casa.

Carlão morreu após reagir a uma operação policial em setembro de 2012 / Crédito: Montagem

Na sua lista de assassinatos, há predomínio de mortes relacionadas a disputas territoriais. O ex-cabo foi acusado de matar ao menos quatro milicianos. Um deles era Ricardo Gomes Lima, ex-segurança de baile funk responsável pela cobrança de pedágio a responsáveis pelo transporte alternativo. Ele teria sido morto em abril de 2010.

Carlão batizou o próprio fuzil como “Gabriel”, segundo investigações. Em uma escuta telefônica autorizada pela Justiça, ele cita a arma de grosso calibre que seria usada em um assassinato, ocorrido em maio de 2010. “Estou esperando para pegar o Gabriel. Vou levar o Gabriel para passear. Vou passar mais tarde. O Vilder é o mecânico que eu gosto”. Três horas depois da conversa, Vilder Eduardo do Espírito Santo foi morto por Carlão a tiros de fuzil.

Ele também foi acusado de matar Jadir Jeronymo Júnior, o Gorilão, então responsável pela segurança do ex-PM Toni Ângelo, que chefiava a Liga da Justiça na época. Outros milicianos identificados como Leandro Soares Matias e Denilson Santos também foram mortos por Carlão, segundo o Ministério Público. Após os assassinatos, os corpos das vítimas foram carbonizados e despachados dentro de um carro, abandonado na Zona Norte.

Como Liga da Justiça virou Bonde do Zinho

Com o vácuo de poder após a morte e prisão das suas principais lideranças, a milícia passou por uma mudança significativa na sua cúpula a partir de 2013. Em vez de agentes do Estado, como policiais, bombeiros e agentes penitenciários, o grupo paramilitar passou a ser chefiado por um criminoso sem qualquer tipo de passagem pelas forças de segurança.

Apontado como homem de confiança da organização criminosa, o ex-traficante Carlos Alexandre Braga, conhecido como Carlinhos Três Pontes, deu início a um plano de expansão territorial da milícia e de quebra com uma das suas principais características no auge da Liga da Justiça. Em vez de coibir, também passou a lucrar com o tráfico de drogas. E, com a nova filosofia, chegou até a estabelecer parcerias com facções criminosas do Rio.

Irmãos Carlinhos Três Pontes (esq), Ecko e Zinho (dir) criaram o Clã Braga na milícia / Crédito: Montagem

Em 2016, apenas três anos após assumir o comando da milícia, Carlinhos Três Pontes expandiu o território da organização criminosa da Zona Oeste para a Baixada Fluminense, segundo denúncia do Ministério Público. Com uma ação envolvendo veículos com fuzis projetados para fora, a milícia de Carlinhos Três Pontes conseguiu expulsar grupos criminosos locais e impor o seu domínio territorial nessas áreas.

Nem mesmo a morte de Carlinhos Três Pontes em uma operação policial em abril de 2017 inibiu esse processo de expansão. O grupo passou a ser chefiado por seu irmão Wellington da Silva Braga, o Ecko. Mas ele também foi morto em uma ação das forças de segurança, em junho de 2021. Com a morte dos irmãos mais velhos, Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho, até então responsável pela contabilidade do grupo paramilitar, assumiu o poder. Mesmo após se entregar à polícia em dezembro de 2023, Zinho seguiu à frente da organização criminosa.

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