Os irmãos e ex-policiais civis Jerominho e Natalino ganharam fama por terem sido os fundadores da temida Liga da Justiça, milícia que impôs o terror na Zona Oeste do Rio com assassinatos à plena luz do dia, cobranças de taxas e pelo monopólio de serviços ilegais. Mas a quadrilha, que surgiu com o pretexto de “proteger” os moradores do tráfico de drogas, tinha um símbolo que personificava a mensagem usada para atrair a simpatia da população. Dos quadrinhos, o grupo paramilitar buscou inspiração na figura dos heróis de uma área onde havia pouca presença policial.
O ex-PM Ricardo Teixeira Cruz ganhou fama como Batman. Aldemar Almeida dos Santos, seu amigo inseparável, era o Robin. Eles faziam parte de um grupo de cerca de dez homens que ficou conhecido há 30 anos como “os caras do posto” porque ficavam em um local de abastecimento de combustível na Rua Guarujá, no bairro Cosmos, próximo à linha do trem na Zona Oeste do Rio. A maioria deles eram servidores das forças de segurança. Eles eram apontados como “matadores de aluguel” muito antes do surgimento do Escritório do Crime.
Parecia ser apenas um grupo se encontrando em um local onde as pessoas costumavam jogar conversa fora. Mas era o embrião do surgimento de uma milícia que se reunia para definir estratégias de extorsão e de atuação dos antigos “grupos de autodefesa”, que depois passou a controlar serviços como gás, TV a cabo e transporte. Segundo a CPI das Milícias, a Liga da Justiça foi responsável por mais de 100 assassinatos em apenas três anos.

Batman chegou a atuar no Batalhão de Choque da PM do Rio. Mas acabou sendo expulso da corporação em 1992 por motivos nunca esclarecidos. Já Robin foi citado brevemente na CPI das Milícias de 2008 por ter atuado como cabo eleitoral do então vereador e ex-policial civil Jerominho, apontado como fundador da milícia.
Solto em outubro de 2018 após cumprir pena por organização criminosa, Jerominho foi assassinado a tiros de fuzil em um atentado em agosto de 2022. Segundo o MP, o caso está relacionado a uma disputa de poder que se arrasta até hoje.
Os matadores de aluguel de blazer: como surgiu ‘a dupla dinâmica’ do crime
A parceria de Batman e Robin começou de forma bem mais discreta. Mas, também, com relatos de uma atuação violenta. Antes, faziam “bico” como seguranças de um mercado em Cosmos. Depois, se tornaram membros do núcleo mais temido da milícia. Moradores da região na época ainda guardam recordações da “dupla dinâmica do crime”.
Há quem acredite, até hoje, que o grupo ajudava a garantir segurança em uma área onde havia pouca presença das forças policiais. “O Ademar foi a única pessoa que se prontificou a ajudar a minha mãe dando muitos remédios caros para o tratamento do câncer”, diz um dos moradores que presenciou a chamada “era de ouro” da Liga da Justiça.
Batman e Robin também eram conhecidos pela elegância. Eles costumavam circular vestidos de blazer pela área onde atuavam, com revólver na cintura. “Era uma época em que vagabundo não se ‘criava’ em Cosmos”, diz um morador.
Versões de pessoas que viveram na Zona Oeste do Rio de Janeiro no período de domínio da Liga da Justiça indicam um desfecho trágico da dupla. Robin teria sido morto em maio de 2005 em uma troca de tiros em uma ação orquestrada pelo próprio parceiro. Segundo essa versão, Robin teria sido assassinado por não aceitar a liderança de Jerominho. Mas essa versão nunca foi confirmada oficialmente.

Batman tem mais de 80 anos em condenações
Batman ganhou fama por impor o terror e ordenar execuções para expandir o domínio da Liga da Justiça. Ele acumula mais de 80 anos de condenações impostas pela Justiça por envolvimento em crimes como homicídio qualificado, milícia armada e extorsão qualificada, segundo levantamento feito pela Agenda do Poder, que analisou os processos.
Uma dessas sentenças foi proferida em 2022 pelo Tribunal do Júri, quando ele recebeu uma pena de 16 anos de prisão em regime fechado por ordenar o assassinato do motorista de van Ilton do Nascimento, morto a tiros em uma emboscada em abril de 2007 em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, por ter se recusado a entregar a sua linha de transporte alternativo. Luciano Guinâncio Guimarães, filho de Jerominho, também foi condenado pelo crime.

Apenas três dias depois do assassinato, Batman e Luciano integraram um comboio formado por seis carros com homens fortemente armados. O grupo foi até a sede da cooperativa de vans Rio da Prata, em Bangu, para ameaçar os responsáveis pelo transporte alternativo.
Segundo denúncia que consta na CPI das Milícias de 2008 e resultou em uma condenação por extorsão qualificada na Justiça, eles teriam dito que, se os comerciantes resistissem à tentativa de tomada de território da Liga da Justiça, enfrentariam o mesmo destino de outras duas pessoas ligadas a cooperativas de vans clandestinas. Entre elas, o homem que havia sido assassinado três dias antes.
Mais mortes em guerra da milícia, prisão e fuga de R$ 1 milhão
Batman também foi condenado a 18 anos e 6 meses de prisão pelo atentado contra o também ex-policial Francisco Cesar da Silva de Oliveira, o Chico Bala, líder de uma milícia rival. A ação, em agosto de 2007, matou Maria Clara Silva de Oliveira e Yan Coutinho da Silva, esposa e enteado de apenas 13 anos do alvo ao ataque. Chico Bala conseguiu escapar.
Apontado como comparsa de Batman no crime, o ex-policial civil André Luiz da Silva Malvar foi sentenciado a 72 anos e 6 meses por dois homicídios qualificados e duas tentativas de homicídio qualificado. Na sentença, em fevereiro de 2023, a Justiça destacou a audácia dos criminosos, que “praticaram o crime em plena luz do dia, aos olhos da população ao redor, certos de sua impunidade”.

Batman acabou sendo preso após o crime. Mas escapou do Complexo de Gericinó, em Bangu, pouco mais de um ano depois. Com autorização para ir a uma consulta médica dentro do presídio, ele deixou a unidade prisional em agosto de 2008 ao entrar em um carro com três homens usando coletes da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap).
Imagens do circuito interno do presídio gravaram a fuga, que teria custado R$ 1 milhão. Seis agentes penitenciários envolvidos no plano de Batman para escapar da prisão foram demitidos por violação de seus deveres funcionais.
Batman e o ‘abraço da morte’
Após a fuga, Batman voltou a cometer crimes. Ele foi condenado a 30 anos de prisão por ter sido o mandante do assassinato de Alexandre Pinheiro Gouvêa, morto em março de 2009 com mais de dez tiros em Campo Grande. Segundo as investigações, o assassinato foi autorizado pela Liga da Justiça porque o grupo paramilitar não aceitava que outras pessoas fizessem segurança por lá. A vítima exercia essa função em um supermercado.
Escutas telefônicas autorizadas pela Justiça registraram o momento em que a vítima foi assassinada diante de testemunhas. Na ligação, Ricardo Coelho da Silva, o Cara Torta, liga para Batman. “Vou resolver o… Dentão, Alexandre. Vou ali conversar com ele, valeu?”, perguntou. Era o código com pedido de autorização para matar.

A reação de Batman foi macabra. Ele riu e respondeu: “Dá uma ideia nele, diz que mandei um abraço”. Em seguida, continuou, seguido de gargalhadas: “Um abração mesmo”. Segundo as investigações, a resposta foi o aval do chefe da milícia para o crime.
Logo em seguida, um homem não identificado passa a localização da vítima. “Ele saiu. Tá aqui conversando com o maluco do Peugeot. Tá do lado de fora”. Cara Torta, que havia pedido autorização de Batman para matar, questiona: “Ele tá tranquilão? Pode chegar aí?”.
O informante responde que sim, que ele está na porta do restaurante. Mas pede pressa: “Tem que ser agora, rápido”. É possível ouvir o som de quatro tiros. “Dá ré, dá ré”, diz uma voz ao fundo do áudio captado do celular do atirador. “Qual é?”, pergunta o informante. “Peraí, rapidinho”, responde Cara Preta. Outros quatro tiros.
Em mais uma conversa interceptada com grampos autorizados pela Justiça, o atirador detalha o crime. “Explodiu o coco [cabeça] dele. Bagulho doido, parada de cinema”.
Cara Torta foi condenado a 25 anos de prisão pelo assassinato. Maciel Valente Souza, o Zaca, também identificado nas investigações, foi sentenciado a 21 anos de reclusão.
Logo após o crime, ainda em 2009, Batman foi preso novamente. Desta vez, em uma operação coordenada pela Polícia Federal. Desde então, cumpre pena em presídios de segurança máxima do sistema penitenciário federal. Mas, ainda atrás das grades, parece fazer articulações criminosas. Em maio deste ano, uma operação sigilosa para “enfraquecer o comando das facções criminosas e evitar o contato entre líderes e subordinados” o transferiu do presídio de Campo Grande (MS) para a unidade de Brasília (DF).


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