Ele foi apontado pelas autoridades como o fundador da milícia conhecida como Liga da Justiça, que surgiu em meados dos anos 1990 na Zona Oeste do Rio e se tornou uma das maiores organizações criminosas do país. Com aprovação popular em seu reduto por supostamente oferecer proteção aos moradores no combate ao tráfico, foi eleito vereador da capital fluminense nas eleições de 2000 e 2004. Um dos principais alvos da CPI das Milícias de 2008 da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), o policial civil aposentado Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, ficou preso por dez anos após ser condenado por formação de quadrilha.
De volta às ruas em outubro de 2018, chegou a cogitar uma candidatura à Prefeitura do Rio. Mesmo afastado do poder da milícia, ainda exercia influência na Zona Oeste da capital fluminense. Fazia parte dos “cabeças brancas”, como são chamados os milicianos mais antigos que ainda têm negócios e recebem uma espécie de pensão do crime organizado, indicam investigações. Mas acabou sendo morto a tiros de fuzil em agosto de 2022 em um atentado que também vitimou o seu amigo Maurício Raul Attalah. Especialistas e profissionais ligados às forças de segurança pública ouvidos pela Agenda do Poder contam como foi a ascensão e a queda do fundador da milícia acusada de movimentar mais de R$ 7 milhões de acordo com os valores atuais.

O sociólogo José Cláudio Souza Alves vê Jerominho como o responsável pela consolidação, expansão e funcionamento do que chama de “era de ouro da Liga da Justiça”. Em um período em que a milícia contava com o apoio popular por enfrentar o tráfico de drogas em áreas onde havia pouco policiamento, o grupo paramilitar tirou proveito dessa popularidade e conseguiu se infiltrar no meio político junto com o irmão mais novo, o também policial civil aposentado e ex-deputado estadual Natalino Guimarães.
Assim como Jerominho, Natalino também foi solto em 2018. Mas acabou sendo preso novamente em dezembro de 2024 por suspeita de envolvimento com grilagem de terras por invadir áreas públicas para loteamento irregular e venda fraudulenta.
“O Jerominho traz toda a concepção de cobrança de taxas por segurança e de controle do transporte alternativo. Ele representava a imagem daquele ex-policial que agia como protetor da população. Depois, se tornou o elo da estrutura criminosa com o poder público. As dinâmicas atuais surgiram como desdobramentos da Liga da Justiça”.
José Cláudio Souza Alves, sociólogo
Para o cientista político Fransergio Goulart, Jerominho tirou proveito da sua experiência como policial civil para colocar em prática uma estratégia de ocupação e domínio do espaço público. “A Liga da Justiça foi pioneira nesse tipo de iniciativa criminosa, ocupando cargos legislativos para dialogar com o Executivo. O Jerominho pensou nessa estratégia como processo de ampliação das milícias”, diz.
O sociólogo Ignacio Cano, que tem acompanhado a atuação das milícias nas últimas décadas no Rio, diz ver no surgimento da Liga da Justiça um processo de expansão dos grupos paramilitares apoiada em eleições como forma de impulsionar a popularidade dos líderes desse grupo. “Em função disso, o Jerominho foi um dos primeiros alvos da repressão estatal. Depois, também figurou na CPI das Milícias. Ele tentou continuar com a linha política, mas essa tentativa ficou comprometida depois da reação do Estado”.
Um dos delegados da Polícia Civil que deu início às investigações contra a Liga da Justiça nos anos 2000, que não quis se identificar, compara a atuação da milícia da Zona Oeste do Rio às máfias italianas. “O objetivo deles era interagir com o Estado e se envolver com a política”.

Terror e violência extrema: como agia milícia de Jerominho
Um dos principais investigados na CPI das Milícias, Jerominho foi apontado como o líder de uma organização criminosa que tinha domínio territorial “por meio de terror, extorsão e violência extrema”, com estimativa de ao menos 98 homicídios atribuídos à milícia nos três anos anteriores à CPI de 2008. A Liga da Justiça, sob o seu comando, praticava execuções cruéis para mostrar poder. Ainda segundo as investigações, o ex-PM Luciano Guimarães, filho de Jerominho, operacionalizava os crimes violentos.
O início da ação miliciana de Jerominho está ligado à criação de um “curral eleitoral” nas comunidades carentes, que garantiu sua reeleição em 2004. Essa atuação foi firmada no controle e exploração econômica das áreas dominadas pela milícia, com uso sistemático de violência e intimidação contra moradores e adversários.

Na CPI das Milícias, Jerominho foi acusado de participar de uma invasão a uma delegacia em Seropédica, na Baixada Fluminense, ocorrida em dezembro de 2006. Na ocasião, criminosos armados roubaram quatro fuzis, quatro metralhadoras e uma pistola da unidade.
As armas teriam sido usadas em uma emboscada orquestrada pela Liga da Justiça no ano seguinte para matar Francisco Cesar da Silva de Oliveira, o Chico Bala, em meio a uma disputa pelo controle de pontos de transporte alternativo em áreas sob o domínio da milícia. Na ação, morreram a mulher e o enteado de Chico Bala, que conseguiu escapar do atentado junto com o seu primo. Dois ex-policiais ligados à Liga da Justiça foram condenados pelo 3º Tribunal do Júri do Rio em fevereiro de 2023 por envolvimento no crime.

O ex-policial civil André Luiz da Silva Malvar foi sentenciado a 72 anos e 6 meses por dois homicídios qualificados e duas tentativas de homicídio qualificado. Já o ex-PM Ricardo Teixeira da Cruz, o Batman, foi condenado a 18 anos e 6 meses por uma tentativa de homicídio duplamente qualificada e por associação armada. Ambas as penas deverão ser cumpridas em regime fechado.
Na sentença, a Justiça destacou a audácia dos criminosos, que “praticaram o crime em plena luz do dia, aos olhos da população ao redor, certos de sua impunidade”. Segundo o júri, os dois milicianos podem ser considerados os responsáveis pela “banalização” das regras comportamentais com a criação da Liga da Justiça.
Prisões e mudança da cúpula: a nova era da milícia

Após a prisão de Jerominho em 2007, o ex-PM Toni Angelo assumiu o controle da milícia, segundo investigações da Polícia Civil. Mas Toni também acabou sendo preso em 2013 após ser baleado em uma boate.
Com o vácuo de poder, a milícia passou por uma mudança significativa na sua cúpula. Em vez de agentes do Estado, como policiais, bombeiros e agentes penitenciários, o grupo paramilitar passou a ser chefiado por um criminoso sem qualquer tipo de passagem pelas forças de segurança.
Apontado como homem de confiança de Toni Angelo, o ex-traficante Carlos Alexandre Braga, conhecido como Carlinhos Três Pontes, deu início a um plano de expansão territorial da milícia e de quebra com uma das suas principais características no auge da Liga da Justiça. Em vez de coibir, também passou a lucrar com o tráfico de drogas. E, com a nova filosofia, chegou até a estabelecer parcerias com facções criminosas do Rio.

Em 2016, apenas três anos após assumir o comando da milícia, Carlinhos Três Pontes expandiu o território da organização criminosa da Zona Oeste para a Baixada Fluminense, segundo denúncia do Ministério Público. Com uma ação envolvendo veículos com fuzis projetados para fora, a milícia de Carlinhos Três Pontes conseguiu expulsar grupos criminosos locais e impor o seu domínio territorial nessas áreas.
Nem mesmo a morte de Carlinhos Três Pontes em uma operação policial em abril de 2017 inibiu esse processo de expansão. O grupo passou a ser chefiado por seu irmão Wellington da Silva Braga, o Ecko. Mas ele também foi morto em uma ação das forças de segurança, em junho de 2021. Com a morte dos irmãos mais velhos, Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho, até então responsável pela contabilidade do grupo paramilitar, assumiu o poder. Mesmo após se entregar à polícia em dezembro de 2023, Zinho seguiu à frente da organização criminosa.
Saída da prisão, perda de poder e morte
Após ser solto em outubro de 2018, Jerominho cogitou se candidatar à Prefeitura do Rio. Ele sempre negou chefiar a milícia. Mas falava abertamente sobre como os grupos paramilitares começaram a se organizar entre as décadas de 1990 e 2000.
“Você [é pai de] uma mocinha, novinha. Aí, o traficante começa a olhar e diz: ‘Pô, gostosa essa garota, vou dar um repasse nela’. Você, como chefe de família, tá desesperado. Aí, um ‘polícia’ moram ali na esquina. Eles têm umas armas e começam a expulsar os traficantes. A família não vai mais ser esculachada, os comerciantes não vão mais ser esculachados. Aí, reúne um grupo e pronto: conseguiram criar uma milícia”, contou, em entrevista ao UOL concedida em janeiro de 2020.
De bermuda e chinelo na casa onde morava em Campo Grande, complementou: “A milícia foi criada num momento em que a população estava acuada. Depois, realmente, a coisa ficou terrível. Hoje, as autoridades querem resolver o problema. Mas é mais difícil”.
“Três caras assaltaram a minha filha no portão. Aí, fui lá, os caras atiraram em mim, papapa, eu atirei nos caras. Acertei os três. Aí, a população falou: ‘o Jerominho matou dez’. Depois, ouviram dizer que eu era um miliciano, que eu era o brabo, que eu era isso, que eu era aquilo. Já chegaram aqui com uma ideia formada. Como vou provar que sou inocente?
Jerominho, em entrevista ao UOL
Investigações policiais mais recentes indicam que Jerominho não tinha mais o mesmo poder da chamada “era de ouro” da milícia. Mas ainda nutria influência política na Zona Oeste do Rio. Segundo o Ministério Público, Jerominho foi morto a mando da organização criminosa agora chefiada por Zinho. Interceptações telefônicas da Polícia Federal indicavam que os membros do grupo já estavam incomodados com o ex-policial civil e tramavam a sua morte.
“Resolver esses velhos logo. Praga do crl [sic]’, diz um deles. “Levanta logo eles”, responde Matheus da Silva Resende, sobrinho de Zinho, que acabou sendo morto em uma operação policial em outubro de 2023. “Família Braga até o fim”, finalizam, em referência ao clã que assumiu o poder do grupo paramilitar após as prisões dos antigos líderes.
“Após sair da prisão, o Jerominho tenta retomar a estrutura da milícia e passa a ser visto como uma ameaça. E, por isso, acaba sendo assassinado por criminosos que surgiram dos desdobramentos dessa organização que se originou desde os tempos da Liga da Justiça. O Jerominho acabou sendo engolido pelo monstro que ele próprio criou por achar que poderia voltar a dominar e controlar a milícia, que já tinha outra estrutura de poder”.
José Cláudio Souza Alves, sociólogo
Em um vídeo gravado nas redes sociais em 3 de agosto de 2022, Jerominho aparecia ao lado do irmão Natalino para falar sobre a reconstrução de um serviço social que garantiria atendimento à população na Estrada Guandu do Sapé, em Campo Grande. No dia seguinte, outro vídeo registrou o assassinato do homem acusado de fundar a Liga da Justiça, morto a tiros de fuzil aos 73 anos na mesma região onde ajudou a desenvolver a atuação da milícia.


Deixe um comentário