A dificuldade de garantir que crianças completem todas as doses previstas no calendário de vacinação tornou-se o principal desafio da imunização infantil em todo o mundo. É o que revela um novo relatório divulgado nesta quarta-feira (15) pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que aponta retrocessos na conclusão dos esquemas vacinais, apesar da ampliação do acesso à primeira dose de diversos imunizantes.
O levantamento mostra que, embora mais crianças tenham iniciado a vacinação em 2025, uma parcela significativa interrompeu o processo antes de receber todas as doses recomendadas, aumentando o risco de circulação de doenças que já estavam sob controle.
Em meio ao cenário global de desafios, o Brasil aparece como um dos principais destaques positivos, com avanços expressivos tanto na redução do número de crianças sem nenhuma vacina quanto na ampliação da cobertura de importantes imunizantes.
Abandono do esquema vacinal cresce no mundo
Um dos indicadores que mais preocupam os organismos internacionais é a chamada taxa de abandono vacinal.
Segundo o relatório, o percentual de crianças que receberam a primeira dose da vacina contra difteria, tétano e coqueluche (DTP1), mas não completaram a terceira aplicação, aumentou de forma significativa entre 2024 e 2025.
A taxa passou de 4% para 12%, indicando que milhões de crianças iniciam a imunização, mas deixam de concluir a proteção necessária.
Como consequência, a cobertura da terceira dose da vacina caiu de 90% para 86% no período analisado.
Situação semelhante foi observada na vacinação contra o sarampo, cuja cobertura da primeira dose também apresentou redução.
Apesar disso, o relatório destaca que o acesso inicial às vacinas melhorou em diversos países, permitindo que mais crianças recebessem ao menos a primeira aplicação.
Número de crianças sem nenhuma vacina diminui
Outro dado considerado positivo foi a redução global das chamadas crianças “dose zero”, aquelas que não receberam qualquer imunizante.
O total caiu de aproximadamente 14,2 milhões em 2024 para 13,5 milhões em 2025, uma redução de cerca de 745 mil crianças em apenas um ano.
Ainda assim, o número continua elevado.
Segundo a OMS e o Unicef, atualmente 13,5 milhões de crianças permanecem completamente desprotegidas, enquanto outras 6,2 milhões iniciaram a vacinação, mas abandonaram o esquema antes da conclusão.
No total, 107 países alcançaram cobertura igual ou superior a 90% para a terceira dose da vacina DTP, meta estabelecida pela Agenda de Imunização 2030.
Brasil aparece entre os destaques mundiais
O relatório coloca o Brasil entre os países que mais avançaram na recuperação da cobertura vacinal.
Entre 2024 e 2025, o país registrou o segundo maior crescimento do mundo na aplicação da primeira dose da vacina contra difteria, tétano e coqueluche, com aumento de 19 pontos percentuais. Apenas a Líbia apresentou desempenho superior, com avanço de 23 pontos.
Outro indicador que chama atenção é a redução do número de crianças classificadas como “dose zero”.
O Brasil registrou a terceira maior queda absoluta do planeta nesse indicador, com 204 mil crianças deixando essa condição em apenas um ano. Apenas Sudão e Índia apresentaram reduções maiores.
Nas Américas, o desempenho brasileiro foi ainda mais expressivo.
O país liderou a redução absoluta de crianças sem nenhuma vacinação entre 2024 e 2025, consolidando uma recuperação importante após anos de queda nas coberturas vacinais.
Em 2021, o Brasil ocupava a liderança mundial negativa nesse indicador, com cerca de 687 mil crianças sem receber qualquer dose de vacina.
Quatro anos depois, caiu para a nona posição, contabilizando aproximadamente 50 mil crianças nessa situação.
Vacinação contra HPV também avança
O relatório também destaca o desempenho brasileiro na imunização contra o HPV.
Em 2025, a cobertura da dose final entre meninas alcançou 86%, um dos melhores resultados de toda a região das Américas.
O índice brasileiro ficou atrás apenas de Cuba, que atingiu cobertura de 94%, superando países como Canadá e Estados Unidos.
O desempenho reforça os esforços recentes do Programa Nacional de Imunizações para ampliar a proteção contra doenças preveníveis por vacinação.
Américas registram melhora, mas desafios permanecem
Na análise regional, as Américas também apresentaram avanços importantes.
A cobertura da primeira dose da vacina contra difteria, tétano e coqueluche aumentou de 90% para 92% entre 2024 e 2025.
Já a cobertura da terceira dose permaneceu estável em 86%.
A região conseguiu reduzir em aproximadamente 266 mil o número de crianças classificadas como “dose zero”.
Mesmo assim, ainda existem cerca de 1,1 milhão de crianças sem qualquer vacinação e outras 709 mil que iniciaram o esquema, mas não receberam todas as doses recomendadas.
Especialistas reforçam importância de completar o calendário
Os dados apresentados pela OMS e pelo Unicef reforçam que ampliar o acesso à primeira dose representa um avanço importante, mas não é suficiente para garantir proteção coletiva.
A interrupção dos esquemas vacinais compromete a eficácia dos programas de imunização e aumenta o risco de reintrodução de doenças já controladas em diversas regiões do mundo.
Nesse cenário, o desempenho brasileiro é apontado como um exemplo de recuperação da cobertura vacinal, ao mesmo tempo em que o relatório alerta para a necessidade de manter campanhas permanentes de conscientização e facilitar o acesso da população às unidades de saúde para garantir que crianças completem todas as doses previstas no calendário oficial.






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