O prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, revelou, em entrevista ao programa Jogo do Poder, da Rede CNT, que vai ao ar neste domingo, às 23h20, os bastidores de sua reconciliação com Benedita da Silva, a estratégia para a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Rio de Janeiro e os planos para ampliar a bancada petista nas eleições de 2026. Segundo ele, a retomada da aliança com Benedita ocorreu após conversas com Lula, o prefeito Eduardo Paes e o deputado federal Pedro Paulo, com o objetivo de fortalecer a disputa pelas duas vagas ao Senado.
Na conversa com o jornalista Ricardo Bruno, Quaquá também confirmou que pretende disputar futuramente a presidência nacional do PT e defendeu uma mudança de rumo no partido. Para o dirigente petista, a legenda precisa voltar a priorizar a pauta social, ampliar o diálogo com os evangélicos e reduzir o foco em pautas identitárias, que, segundo ele, passaram a ocupar espaço maior do que a luta contra a desigualdade.
O prefeito ainda explicou as razões do rompimento político com seu antecessor, Fabiano Horta. Quaquá afirmou que herdou uma prefeitura com déficit de R$ 480 milhões, apesar de um orçamento de cerca de R$ 7 bilhões, criticou o elevado volume de gastos de custeio e acusou o ex-aliado de descumprir acordos políticos firmados antes das eleições municipais.
Ao longo da entrevista, Quaquá apresentou um amplo conjunto de investimentos previstos para Maricá, incluindo centro de convenções, museus, estádio para 50 mil pessoas, hotéis, companhia aérea, indústria de aviões e um complexo turístico. Segundo ele, a meta é cortar despesas e contratos para alcançar R$ 3 bilhões destinados a investimentos e preparar o município para o período posterior à redução das receitas do petróleo.
Ricardo Bruno – Recentemente, você se reconciliou com Benedita da Silva. Você havia rompido, dado declarações públicas de que não a apoiaria e, há cerca de 15 dias, encontrou-se com ela e declarou apoio à candidatura. O que levou a essa reconciliação?
Quaquá – Ricardo, você sabe que, no PT, nós temos muitas divergências e muitas brigas. Mas costumo dizer que, na vida e na política, o coração é para a nossa mulher e para os nossos filhos. O fígado, no meu caso, é para a cachaça, já que eu bebo um pouquinho. Não vou usar o fígado para nada que não seja o processamento da cachaça que eu bebo. Fui procurado pelo Eduardo Paes, pelo Pedro Paulo e recebi vários recados do presidente Lula. Nós tínhamos algumas divergências razoáveis. Eu falei para a Benedita: “Bené, esquece o passado. A vida é olhar para a frente”. O importante é que o Rio de Janeiro não eleja senadores que sejam uma tragédia. Qual é o senador do Rio de Janeiro que defende o estado e trabalha efetivamente pelo Rio? É uma tragédia a nossa representação no Senado. Falei que deveríamos concentrar nossas forças na eleição de dois senadores que contribuam com o Rio de Janeiro, com o Brasil e com a democracia brasileira. Esses dois senadores são Benedita da Silva e Pedro Paulo. Estaremos muito firmes, ajudando as duas campanhas.
Ricardo Bruno – Uma semana depois dessa reconciliação, você foi escolhido pelo diretório para coordenar a campanha do presidente Lula no Rio. Como será essa coordenação e qual trabalho você pretende realizar?
Quaquá – O diretório me escolheu para coordenar a campanha. Consultaram-me e eu disse que seria uma honra coordenar a campanha do presidente Lula. Sou lulista do dedo do pé até o último fio de cabelo. Todo mundo sabe disso. Muitas vezes, divirjo do que uma parte da esquerda fala e faz, mas Lula é o nosso ídolo. Lula é uma unanimidade e uma figura nacional. Para mim, é uma honra contribuir com a campanha do presidente Lula, sendo ou não coordenador. Eu contribuiria de qualquer maneira. Acho que Lula não apenas ganhará essa eleição, como as pessoas ainda se surpreenderão com esse quarto mandato. Será um mandato em que ele não precisará mais ficar pensando em reeleição ou em lutas pelo poder. Tenho certeza de que ele alterará muitas coisas. A partir desse quarto mandato, Lula poderá construir um verdadeiro projeto de desenvolvimento nacional. Esse projeto passa pela reestruturação de muitos programas e projetos e também passa pelo Rio de Janeiro. Ninguém que queira transformar o Brasil em uma potência pode esquecer a principal cidade e o principal estado do país. Pode não ser o principal economicamente, mas, quando você fala do Brasil no exterior, todo mundo abre a porta e enxerga o Rio de Janeiro. Precisamos voltar a ter um Rio de Janeiro que seja a porta de entrada do Brasil. Por isso, Lula e Eduardo Paes são necessários ao Brasil e à refundação do Rio de Janeiro.
Ricardo Bruno – Dentro dessa discussão sobre os rumos do Brasil, você está promovendo um grande encontro em Maricá, em dezembro. O evento está sendo chamado de “Davos do Brasil” e deverá discutir um projeto para o país. Como será esse encontro?
Quaquá – Você sabe que sou um admirador completo de Darcy Ribeiro. Embora tenha nascido e sido criado em favela, fiz Ciências Sociais na Universidade Federal Fluminense e sou apaixonado por Darcy Ribeiro e pelo pensamento nacional. Maricá terá um enredo baseado na ideia da nova Roma tropical. Estamos em uma quadra da história mundial marcada pelo declínio claro do império americano e pelo surgimento de novos blocos de poder. Temos China, Rússia, Índia e Brasil. Esse imenso Brasil tem tudo para ser a nova Roma tropical, como dizia Darcy Ribeiro. Esse também será o enredo da União de Maricá. Estive em Nova York com André Esteves, Joesley Batista, Luiz Araújo e várias figuras importantes do empresariado e da vida brasileira. Conversei com André Esteves e levei os projetos de Maricá para o BTG Pactual, buscando investimentos para a cidade. Disse a ele que os grandes empresários brasileiros não podem falar apenas de vez em quando. Eles precisam estar próximos. Os grandes empresários precisam se reunir com os presidentes da Câmara e do Senado, os ministros do Supremo e as demais lideranças para que tenhamos uma articulação permanente em favor do desenvolvimento nacional. O evento está marcado para o dia 1º de dezembro. O Financial Times, um dos maiores jornais do mundo, será um dos promotores do encontro, junto com a Associação Brasileira de Municípios, que eu presido. O encontro será realizado em Maricá, no Mirante das Utopias, que é um lugar lindo. Será a “Davos do Brasil”. As 50 figuras mais importantes do país estarão reunidas para discutir o futuro do Brasil.
Ricardo Bruno – André Esteves já confirmou presença?
Quaquá – André Esteves confirmou. Eu falei para ele: “Você é o meu principal player. Se você confirmar, o negócio vai”. Ele já confirmou. O outro nome que coloca o encontro de pé é Joesley Batista. Vou procurá-lo na próxima semana para que ele também confirme a presença em Maricá.
Ricardo Bruno – O advogado Kakay também participará?
Quaquá – Kakay não será apenas participante. Ele será o curador do encontro. Estou indo a Brasília e a lista das 50 pessoas, que será uma lista bem pequena, será elaborada e coordenada por ele.
Ricardo Bruno – Você também tem o plano de disputar a presidência nacional do PT no período pós-Lula. Você já está em campanha para assumir o comando do partido?
Quaquá – Falarei mais sobre isso depois da eleição. Agora, não quero criar muita polêmica antes do pleito. O PT foi capturado por um discurso de classe média. Um discurso que, na minha opinião, não é de esquerda. É um discurso identitário, de ONG, que fica defendendo comportamentos, muitos deles diferentes dos comportamentos tradicionais da sociedade brasileira. São comportamentos da pós-modernidade que foram financiados, inclusive por meio de organizações não governamentais, por grandes fundos e instituições internacionais, como a Fundação Ford. Esses fundos entraram nas universidades brasileiras e transformaram as pautas identitárias na principal luta da esquerda. A pauta principal deveria ser a questão social. A esquerda tem se esquecido da luta de classes, da defesa dos pobres e dos interesses da população mais pobre. Passou a defender prioritariamente comportamentos. Quero disputar a direção do partido. Lembro daquela campanha contra Bolsonaro, quando setores da esquerda promoveram um ato no centro, o “Ele Não”, com mulheres de peito de fora. Aquilo tirou muitos votos do presidente Lula naquele momento e Bolsonaro acabou ganhando a eleição. Somos do tempo em que o movimento de mulheres discutia a criação de creches nas favelas e a igualdade salarial. O movimento negro discutia as cotas nas universidades e a necessidade de reparação social e econômica. Hoje, saímos da luta principal, que é a luta de classes, para defender outras questões. Essas pautas são importantes, obviamente, mas não podem se sobrepor ao que é fundamental. Ninguém é contra pautas civilizatórias. Ninguém é favorável a que as pessoas sejam mortas ou agredidas. Mas o comportamento majoritário da sociedade brasileira é mais conservador. Eu mesmo sou um moleque nascido em favela e tenho pensamentos mais conservadores do ponto de vista comportamental. Sou católico, sou cristão e tenho comportamentos mais conservadores. Por causa disso, algumas pessoas não querem que eu seja considerado de esquerda. Há ainda a questão da intolerância. Deixem a intolerância para a direita. Tirei uma fotografia com um deputado que é meu amigo e queriam me cassar.
Ricardo Bruno – Era o general Pazuello?
Quaquá – Era o Pazuello. Diziam que eu era fascista porque tirei uma fotografia com ele. Mas é o fascismo que persegue uma pessoa por causa de uma fotografia. A esquerda é generosa. A esquerda agrega, chama, junta e faz com que as pessoas se unam em torno do país. Quero construir um novo PT e uma nova esquerda raiz. Aquela esquerda antiga, da luta de classes, que dialoga e muda a vida do povo. Há muita gente que se diz de esquerda, mora em Ipanema, não dá bom-dia para a empregada doméstica, paga um salário mínimo de miséria e depois vai para a rua fazer discurso de esquerda. Existe claramente uma divergência entre o que represento, que é um PT raiz, e o que representa um “PTzinho” de classe média.
Ricardo Bruno – O número de evangélicos no Rio de Janeiro cresceu muito e já se aproxima de 40% da população. A esquerda parece não ter um discurso claro para esse segmento. Como sair dessa encruzilhada?
Quaquá – Na eleição passada, propus e organizei um evento para o presidente Lula em São Gonçalo. Foi um encontro com evangélicos e, acredito, o primeiro grande evento realizado depois desse desencontro entre a esquerda e o segmento evangélico. Foi o primeiro grande encontro político que a esquerda fez com os evangélicos e foi muito positivo para o presidente Lula. Vários pastores oraram por ele. Foi um evento muito bonito e nós o organizamos. Eu digo o seguinte: o evangélico que quer ser verdadeiramente evangélico e fazer a comunhão com Deus não pode gostar de armas ou defender que uma pessoa mate a outra. Deus é amor e tolerância. Jesus, quando esteve na Terra, acolheu a todos, das prostitutas aos leprosos. Deus sempre esteve ao lado dos pobres. Jesus não entrou em Jerusalém em uma carroça de ouro. Entrou montado em um jumento. Deus sempre esteve ao lado dos mais pobres. “A verdade vos libertará.” Deus nunca foi complacente com a maldade, o assassinato, a violência ou os maus-tratos contra os pobres. A esquerda erra muito quando fala em “eles, os evangélicos”. Não são “eles”. Somos nós, os cristãos. Somos irmãos dos evangélicos. O PT precisa entender que não existe “eles e nós”. Somos todos parte de uma comunidade de irmãos brasileiros que acreditam em Cristo ou que seguem outras religiões. Tudo o que representa briga, tudo o que faz um irmão deixar de falar com outro ou uma mãe brigar com um pai por causa de política não é cristão. Por isso, acredito que temos condições de reconciliar o Brasil. E somente Lula pode reconciliar o país, trazendo todos para um mesmo projeto nacional. Com a tolerância e a experiência que possui, Lula pode fazer com que o Brasil se reencontre, que as famílias voltem a se abraçar e que todos se unam em torno de um projeto de desenvolvimento nacional. Precisamos trazer os evangélicos cada vez mais para perto.
Ricardo Bruno – Qual é a sua expectativa para as eleições no Rio de Janeiro? Pesquisas indicam que o número de candidatos que podem ser eleitos pelo PT e pela federação será expressivo.
Quaquá – Acredito que o PT será um dos partidos mais votados desta eleição no Rio. Teremos a maior bancada da história do partido no estado. Tivemos uma bancada grande em 1994, quando elegemos Fernando Gabeira e vários outros nomes. Depois, a bancada foi diminuindo. Agora, elegeremos a maior bancada da nossa história.
Ricardo Bruno – Será maior do que a bancada de 1994?
Quaquá – Será maior. Elegeremos, no mínimo, dez deputados federais. Temos uma chapa muito forte e temos trabalhado muito essa nominata. O grupo ligado ao Quaquá também terá um peso grande nessa chapa.
Ricardo Bruno – Dos dez deputados federais que você projeta, quantos seriam vinculados ao seu grupo político?
Quaquá – Dos dez, diria que estamos trabalhando para eleger cerca de sete.
Ricardo Bruno – E para deputado estadual, qual é a sua expectativa?
Quaquá – Acredito que o PT e a federação elegerão nove ou dez deputados estaduais. Também vamos eleger uma pessoa que será um luxo para a Assembleia Legislativa: Adilson Pires. Ele foi vice-prefeito de Eduardo Paes, secretário e vereador. É uma pessoa de amplo diálogo e uma aposta minha para ser o grande interlocutor do PT e da esquerda na composição política da Alerj em torno de Eduardo Paes.
Ricardo Bruno – Entre os candidatos a deputado federal, o nome mais óbvio é Lindbergh Farias, que aparece liderando algumas pesquisas. Que outros candidatos você destacaria?
Quaquá – Lindbergh provavelmente será o mais votado da federação e do PT. Ele passou quatro anos utilizando muito bem a estrutura e a visibilidade do mandato federal. Temos também Marcelo Freixo, que não apenas é muito conhecido, como possui um longo trabalho no Rio de Janeiro e realizou um grande trabalho à frente da Embratur. Acho que Freixo terá uma votação muito grande. Depois, temos o meu filho, Diego. Ele também terá mais votos do que eu tive, até porque trabalha mais do que eu. Vai para as comunidades e faz campanha. Eu já estou mais velho e fico mais em casa. Viajo bastante a trabalho. O próprio Eduardo Paes falou que tomaria o meu passaporte para eu ficar no Rio. Agora, ele tomou o meu passaporte e não viajo mais até o fim de outubro. Temos Diego, Celso Pansera, que deverá ser eleito, e Rubens Bomtempo, ex-prefeito de Petrópolis. Temos ainda Léo Picciani e Bandeira de Mello, pelo PV. Temos Benny Briolly, vereadora trans de Niterói, que, na minha opinião, terá uma votação explosiva. Também temos Nísia Trindade, ex-ministra, que realiza um grande trabalho nas universidades, na Fundação Oswaldo Cruz e na área da saúde. A campanha dela está crescendo extraordinariamente. Temos ainda Dimas Gadelha, de São Gonçalo, que sempre possui uma boa votação no município e também alcança votos em outros lugares. É um conjunto muito forte.
Ricardo Bruno – E entre os candidatos a deputado estadual, quais nomes você destacaria?
Quaquá – Maricá elegerá três: Zeidan, Renato Machado e Aldair de Linda. Aldair é filho do presidente da Câmara Municipal. Temos também Igor Menezes, em Belford Roxo, que vem muito forte. Anotem o que estou dizendo. Temos José Alexandre, na Região Serrana, em Nova Friburgo, que está alcançando índices muito altos. Ele tem força tanto para deputado quanto para disputar futuramente a prefeitura, mas agora será eleito deputado. Temos Léo França, em Petrópolis, que realiza um grande trabalho como vereador, fiscalizando o dinheiro público, e cresce muito como candidato a deputado estadual. Temos Maicon Cruz, de Campos, que é um ótimo candidato. Será eleito deputado estadual e, depois, deverá disputar a Prefeitura de Campos. E, obviamente, temos Adilson Pires, que será o nosso principal nome na Alerj. Será o número um do nosso grupo na Assembleia.
Ricardo Bruno – Quando você diz que Adilson Pires será o número um, significa que ele poderá disputar a presidência da Alerj?
Quaquá – Ele será o nosso candidato. Uma vez eleito, disputará uma posição na Mesa Diretora e participará da construção do bloco majoritário da Assembleia Legislativa.
Ricardo Bruno – Vamos falar de Maricá. Você já havia governado o município em dois mandatos anteriores. Qual foi a situação encontrada ao retornar à prefeitura e qual é a diferença entre a administração atual e aquela que você deixou?
Quaquá – O último ano do meu segundo mandato foi, disparado, o meu melhor ano. Naquela época, tive um orçamento de R$ 680 milhões. Recebi a prefeitura, no ano passado, com um orçamento de aproximadamente R$ 7 bilhões. É uma diferença de dez vezes. Quando entrei, pensei: “Que maravilha governar com todo esse dinheiro”. Mas não é assim. Quando cheguei, havia um déficit de R$ 480 milhões. Imagine como é possível consumir um orçamento de R$ 7 bilhões apenas com custeio. Costumo dizer que construir uma casa do zero é mais barato, menos desgastante e mais fácil do que pegar o barraco onde morei, no Caramujo, e transformá-lo em uma casa. Você precisa demolir porque não há fundação. É necessário cortar, derrubar e reconstruir tudo. Cheguei à prefeitura e encontrei contratos absurdos, além de pessoas mal-acostumadas a não trabalhar. Havia programas sociais em que uma pessoa poderia vir de qualquer cidade do estado ou de qualquer lugar do Brasil, se cadastrar e receber dinheiro. Parecia o programa do Silvio Santos jogando dinheiro para a plateia. Estou há um ano e meio cortando despesas. O que mais me consome hoje não são os grandes projetos. Temos mais de dez projetos de Oscar Niemeyer e acabamos de anunciar a licitação de alguns deles. Daqui a dois anos e meio, as pessoas olharão para Maricá e dirão: “Esse cara é maluco”. Estou acostumado a ouvir que sou maluco. Até meu pai dizia isso. Mas todo mundo sabe que sou uma pessoa que realiza. Tiro os projetos do papel. O problema é que não está sendo fácil fazer isso com a estrutura de gastos existente. Vou cortar cada vez mais. Estou cortando e continuarei cortando. No próximo ano, quero alcançar um superávit de R$ 3 bilhões para investimentos, sem contar o Fundo Soberano. Quero R$ 3 bilhões para investir. Vou cortar, doa a quem doer. Estou cheio de inimigos e há muita gente falando mal de mim. A imprensa é financiada por empresários e políticos que estavam pendurados em contratos absurdos. Estão pagando pivetes, pivetes e “Garotinhos”, Estou cortando tudo e essas pessoas estão pagando vagabundos e jovens nas redes sociais para falarem mal de mim. Estou retirando R$ 3 bilhões das mãos de pessoas que se beneficiavam desse sistema para colocar R$ 3 bilhões em obras e grandes projetos para a cidade. Isso também é perigoso. Reforcei a minha segurança porque retirar dinheiro de criminosos é perigoso. Mas não tenho medo de morrer.
Ricardo Bruno – Essa foi uma das razões que levaram você a romper com o ex-prefeito Fabiano Horta?
Quaquá – Essa foi a principal razão. A outra é que ele fez um acordo comigo de que seria candidato majoritário, mas não me avisou que também seria candidato a deputado. Não haveria problema. Eu apoio 13 candidatos a deputado federal. Não sou uma pessoa exclusivista e todo mundo sabe disso. Atualmente, nem peço votos para o meu filho. Estou pedindo que as pessoas ajudem outros amigos, porque considero que meu filho já está eleito. O que não aceito são traições sucessivas. Desde que assumiu a prefeitura, Fabiano começou a me trair. Naquela época, ele não elegia nem vereador. Eu aguentei por muito tempo, mas agora que sou prefeito e tenho a responsabilidade sobre o orçamento e sobre o governo, não aceitarei que tentem me desrespeitar.
Ricardo Bruno – Você tem divulgado vídeos nas redes sociais dizendo que, anteriormente, o governo apenas distribuía o dinheiro de Maricá. Agora, sua intenção é investir nas pessoas, qualificá-las e prepará-las para trabalhar. O que mudou?
Quaquá – Criei a moeda Mumbuca porque o Rio Mumbuca matava literalmente a minha fome quando eu era criança. A moeda social foi criada para as pessoas que passam fome, enfrentam dificuldades ou têm filhos com deficiência e precisam de recursos para cuidar deles. Ela não foi criada para uma pessoa forte e em idade de trabalhar simplesmente receber dinheiro. Para essa pessoa, você precisa oferecer alfabetização, ensino técnico, ensino superior e condições para crescer na vida. Maricá havia se transformado em um auditório do Silvio Santos, apenas distribuindo dinheiro. Agora, queremos que Maricá se transforme primeiro em uma grande escola, onde todos possam se aprimorar. Isso deve atender desde a pessoa analfabeta, com escolas para idosos e adultos que não tiveram acesso à alfabetização, inclusive nas áreas rurais, até quem será formado como soldador para trabalhar na indústria chinesa de tratores que estamos levando para a cidade. Também inclui os 50 engenheiros que acabamos de contratar para a Desaer, a empresa de aviões instalada no município.
Ricardo Bruno – Quando a empresa começará efetivamente a produzir aviões em Maricá?
Quaquá – Ela já está funcionando. Estamos contratando 50 engenheiros e produzindo o protótipo. Em breve, teremos os aviões da Desaer produzidos em Maricá. Mais do que isso, estou discutindo com o governo do Piauí e com outros empreendedores a criação de uma companhia aérea chamada Maricá. Essa empresa ligará o Aeroporto de Maricá, cuja pista já foi ampliada e será ampliada novamente, a destinos como Porto Seguro, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Goiás. Será uma companhia aérea de Maricá.
Ricardo Bruno – Maricá será sócia dessa empresa e aportará recursos?
Quaquá – Sim, Maricá será sócia e aportará recursos para participar da companhia. Já estamos negociando com empresários. Temos dinheiro no Fundo Soberano e esse dinheiro não pode ficar parado apenas dando lucro para banqueiros. Os recursos precisam gerar economia, empresas, empregos e desenvolvimento para Maricá. Estamos investindo e coinvestindo, por exemplo, no complexo Maraey, que terá cinco grandes hotéis.
Ricardo Bruno – O Maraey é um empreendimento que deverá se transformar em símbolo do turismo na região?
Quaquá – Sim. As obras já começaram com recursos de um empréstimo concedido por Maricá ao grupo responsável. O empreendimento já está gerando empregos. Será um grande complexo turístico.
Ricardo Bruno – O empreendimento também está integrado à aldeia indígena e à vila de pescadores?
Quaquá – Está integrado à aldeia indígena e à vila de pescadores. A vila será completamente qualificada e requalificada do ponto de vista urbanístico. Será a mais bela vila de pescadores do Brasil. A aldeia indígena também deverá se transformar na mais bela aldeia indígena do país, mantendo sua cultura e suas tradições.
Ricardo Bruno – Quando o complexo deverá começar a receber hóspedes?
Quaquá – Os primeiros hóspedes deverão chegar em 2029. Nossa previsão é concluir o complexo no início daquele ano.
Ricardo Bruno – Maricá também possui uma série de projetos assinados por Oscar Niemeyer. Quais são os principais?
Quaquá – São 13 obras de Oscar Niemeyer. Acabamos de licitar e dar a ordem de início para o centro de convenções. Será um centro belíssimo, com aproximadamente 50 mil metros quadrados. Começamos pelo centro de convenções porque Maricá receberá um encontro mundial de economia solidária, que tradicionalmente acontece em Bordeaux, na França. O evento será realizado em Maricá e deverá receber cerca de 10 mil turistas estrangeiros. Quero que o centro esteja pronto para esse encontro mundial, previsto para setembro de 2027. Vamos acelerar as obras.
Ricardo Bruno – Além do centro de convenções, quais outros projetos serão executados?
Quaquá – Já está com o projeto executivo pronto o Museu da Paz e das Utopias. O prédio será construído em um morro próximo ao aeroporto e terá o formato de uma pomba da paz. Será uma estrutura parecida, em termos de impacto arquitetônico, com o Museu de Arte Contemporânea de Niterói. É um projeto que Oscar Niemeyer havia criado para a União Soviética. Como a União Soviética acabou, o projeto ficou guardado. Nós o compramos e o transformamos no Museu da Paz e das Utopias. O espaço também terá o acervo do nosso grande fotógrafo Sebastião Salgado. Também começaremos a construir o Memorial Presidente João Goulart. Esse memorial estará ligado à discussão promovida pela “Davos do Brasil”, porque será um espaço para debater o novo Brasil e recordar as reformas de base defendidas pelo presidente João Goulart. Ali será a sede do debate sobre o novo Brasil e sobre a potência tropical imaginada por Darcy Ribeiro. Será um centro de debates e deverá ficar pronto ainda este ano.
Ricardo Bruno – E o Estádio João Saldanha?
Quaquá – Eu sempre tive muita vontade de conhecer Budapeste. Quando houve a final da Liga dos Campeões na cidade, Kakay me convidou para acompanhá-lo. Aceitei porque queria que ele me ajudasse a conversar com as pessoas mais importantes do futebol brasileiro e mundial. Conversei com representantes do setor e eles me disseram que um estádio com capacidade para 30 mil pessoas não seria suficiente para receber grandes jogos do Campeonato Brasileiro e partidas internacionais. Disseram que poderiam participar da operação de grandes jogos brasileiros e mundiais, mas que o estádio precisaria ter capacidade para 50 mil pessoas. Na mesma hora, liguei para a equipe responsável e determinei que o projeto fosse alterado de 30 mil para 50 mil lugares. Começaremos a licitação do estádio ainda este ano. A construção do Estádio João Saldanha deverá começar no próximo ano. Será uma obra de arte belíssima, também assinada por Oscar Niemeyer.
Ricardo Bruno – Qual será a ordem de execução das obras de Oscar Niemeyer?
Quaquá – Primeiro, o centro de convenções. Depois, o Museu da Paz e das Utopias, o Memorial João Goulart, o Balé Cubano em Araçatiba, o Museu de Artes e o Teatro Municipal. O Museu de Artes e o Teatro Municipal serão construídos em uma área onde estamos recuperando o antigo lixão. Também começará agora o N13, um projeto de hotel que Oscar Niemeyer havia elaborado para a União Soviética. O hotel será construído na Rua 13, na Barra de Maricá, e receberá o nome de N13.
Ricardo Bruno – O hotel será construído pela prefeitura, mas operado em parceria com a iniciativa privada?
Quaquá – Exatamente. No dia 30, viajarei com o prefeito de Areal, Gutinho Bernardes. É um dos prefeitos mais articulados do estado. Ele esteve comigo recentemente em Portugal, em uma conversa com o presidente da rede Vila Galé, para levar um hotel da empresa para Areal. Minha mulher, Gabriela, é responsável pelo Camarote Favela no Rock in Rio Lisboa. Além de ser um empreendimento dela, o camarote me ajuda a construir redes de relacionamento. Levei para o camarote o empresário Jorge Rebelo de Almeida e suas duas filhas. Ele é o fundador e presidente da Vila Galé, uma grande rede hoteleira que faturou cerca de R$ 2 bilhões no ano passado e vem realizando investimentos fortes no Brasil. Ele pretende investir em Areal, na região da Serra dos Vinhos, onde Maricá também investe na Universidade Livre do Vinho. No dia 30, iremos de helicóptero até Areal para consolidar esse investimento. Depois, seguiremos para Maricá, onde ele também poderá consolidar um investimento.
Ricardo Bruno – Esse investimento em Maricá poderá ser no hotel N13?
Quaquá – Pode ser no N13 ou na Vila Medieval.
Ricardo Bruno – A Vila Medieval será construída no Espraiado?
Quaquá – Sim, no Espraiado. Teremos um castelo e uma vila medieval. Haverá casas medievais que poderão ser compradas, além de hotelaria e de um parque de exposições rurais que pretendemos transformar no maior do Brasil. Estou preparando Maricá para o período pós-petróleo. Estou preparando a cidade para o futuro. A estratégia envolve turismo, cultura, ciência, tecnologia e alimentação. Também temos a Amar, voltada à produção de alimentos e produtos naturais.
Ricardo Bruno – O que a Amar já produz e quais são os planos concretos da empresa?
Quaquá – Estamos adquirindo uma fazenda em Silva Jardim que já produz cacau e látex. A ideia é atuar em toda aquela região, promovendo reflorestamento e produção de alimentos saudáveis. Teremos café e cacau cultivados sob as árvores, além de frutas tropicais. Vamos criar uma sorveteria, uma queijaria, uma cervejaria e uma charcutaria. Teremos toda uma cadeia de produção de alimentos, inicialmente em Maricá e depois em toda a região. A Amar Brasil será uma grande produtora de alimentos saudáveis. Também abriremos lojas da Amar no Rio de Janeiro, em outras partes do Brasil e no exterior. A produção de alimentos é uma das grandes vocações brasileiras, ligada ao agronegócio.
Ricardo Bruno – Outro projeto de grande impacto social é o Passaporte Universitário. Recentemente, vimos a história da filha de um pedreiro que se formou em medicina graças ao programa. Como está o projeto e ele será ampliado?
Quaquá – É um projeto maravilhoso, mas estava desfocado. Havia muitas pessoas estudando enfermagem, assistência social e direito, enquanto a cidade está caminhando para as engenharias, para o turismo, a agroecologia, a nutrição, a veterinária e a agronomia. Estamos ajustando o programa e sincronizando a formação oferecida com as vocações econômicas de Maricá. Mais importante do que simplesmente formar pessoas é garantir que elas tenham onde trabalhar. O presidente Lula ajudou muita gente a se formar, mas algumas dessas pessoas acabaram trabalhando como motoristas de aplicativo porque não encontraram emprego em suas áreas. Não quero que os meninos e meninas do Passaporte Universitário recebam um diploma e depois não tenham onde trabalhar. Por isso, estou direcionando a formação, criando atividades econômicas e estruturando cooperativas. Todos os hotéis de Maricá poderão ser administrados por trabalhadores organizados em cooperativas da própria cidade. Estamos criando cooperativas de várias profissões para desenvolver um modelo semelhante ao de Mondragón, na Espanha. Mondragón possui um grande ecossistema cooperativo e está entre os maiores grupos empresariais espanhóis. Maricá terá um ecossistema econômico baseado nas pessoas qualificadas pelo Passaporte Universitário e organizadas em cooperativas.






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