Um ex-assessor de Domingos Brazão aparece no centro de um dos episódios destacados pela Polícia Federal (PF) na investigação sobre supostas vantagens recebidas pelo ex-governador do Rio Cláudio Castro. Antonio Carlos da Conceição Santos, conhecido como “Pipo”, é dono da empresa que, segundo os investigadores, fez o pagamento de R$ 10,5 mil referente a uma encomenda de caviar solicitada por Castro em abril de 2026.
Pipo foi assessor do ex-deputado estadual e ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) Domingos Brazão, condenado como mandante do assassinato da vereadora Marielle Franco. Na investigação sobre Castro, o advogado é apontado pela PF como “figura central no esquema de branqueamento de capitais no mais alto escalão do governo do Rio”.
As informações constam de relatório da Polícia Federal que embasou a Operação Sem Refino 2, deflagrada em agosto. O documento, que estava sob sigilo, tornou-se público nesta quinta-feira (3), por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A investigação apura suspeitas envolvendo integrantes do governo Castro e possíveis fraudes que teriam beneficiado a Refit, antiga Refinaria de Manguinhos. A defesa do ex-governador nega lavagem de dinheiro, recebimento de vantagem indevida ou favorecimento a terceiros.
Pix saiu de empresa de ex-assessor de Brazão
O episódio envolvendo Pipo começou com uma encomenda feita por Castro em 24 de abril deste ano. Segundo a PF, o ex-governador solicitou diferentes tipos e quantidades de caviar diretamente a um representante da BML Caviar Giaveri.
Parte dos produtos seria consumida naquele mesmo dia no Hotel Emiliano, em São Paulo, onde Castro estava hospedado, enquanto outra parcela seria levada para o Rio. O pedido totalizou R$ 10,5 mil. Castro havia deixado o comando do governo estadual no mês anterior.
Ao receber a cobrança, segundo o relatório, Castro disse ao representante da empresa que enviaria o comprovante do Pix. Dois minutos depois, encaminhou um comprovante indicando que o pagamento havia sido feito pela AC Santos Participações e Empreendimentos, empresa pertencente a Pipo.
Para a Polícia Federal, a operação financeira é relevante por indicar o uso de uma empresa de terceiro para quitar uma despesa privada relacionada ao ex-governador.
O relatório afirma que o episódio reforça indícios de lavagem de capitais por meio de interposta pessoa. A defesa de Castro, por sua vez, afirma que a encomenda pertencia a um amigo e que o ex-governador apenas retirou os produtos e consumiu um deles com autorização do comprador.
PF aponta Pipo como figura central
A ligação de Pipo com Brazão acrescenta um novo personagem de peso ao caso. Além de ter trabalhado como assessor do ex-deputado e ex-conselheiro do TCE-RJ, o advogado é apontado pela investigação como suspeito de ligação com Ricardo Magro, da Refit.
Segundo a PF, Pipo seria uma “figura central” no suposto esquema de lavagem envolvendo recursos ilícitos que teriam sido pagos por Ricardo Magro a autoridades estaduais para garantir interesses da refinaria.
A investigação também aponta indícios de que Pipo mantinha uma relação societária oculta com Renato Jordão Bussiere, ex-presidente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Bussiere é acusado pelos investigadores de atuar de forma ilícita para garantir a concessão de licenças ambientais à Refit.
Ainda conforme a PF, Bussiere pagava despesas de outra empresa de Pipo, a AC Santos Escritório Jurídico, embora não aparecesse formalmente como sócio.
Mansão, adega e cobertura também são investigadas
O caviar não é o único benefício analisado pela Polícia Federal. O relatório relaciona outros episódios envolvendo Castro que, segundo os investigadores, podem ter relação com supostas vantagens indevidas associadas aos interesses da Refit.
Entre eles está uma casa no condomínio Locanda, em Petrópolis, onde teria sido construída uma adega avaliada em R$ 245 mil. A PF também investiga reformas em uma cobertura na Barra da Tijuca onde Castro mora atualmente.
Segundo os investigadores, Castro supervisionou diretamente intervenções nos dois imóveis apesar de não figurar como proprietário. Ele manteve contrato de locação em Petrópolis até o início de 2026 e assinou contrato de aluguel da cobertura na Barra em abril, embora, conforme a PF, acompanhasse as obras anteriormente.
A investigação sustenta que os elementos encontrados indicariam que a relação entre Castro e o Grupo Refit não teria ficado restrita a contatos institucionais. Para a PF, existiria um canal direto entre o então governador, Ricardo Magro e representantes da empresa.
A defesa contesta essa conclusão e afirma não existir relação entre os episódios envolvendo a compra de caviar e os imóveis e a Refit.
Íntegra da nota da defesa de Cláudio Castro
“A defesa do ex-governador Cláudio Castro nega qualquer participação em esquema de lavagem de dinheiro, recebimento de vantagem indevida ou favorecimento a terceiros.
O imóvel onde reside tem contrato regular de locação, com pagamentos comprováveis. O imóvel utilizado em Petrópolis também era alugado e o contrato já foi encerrado.
Sobre a compra mencionada, o episódio ocorreu mais de 30 dias após Cláudio Castro deixar o Governo do Estado. A encomenda havia sido feita por um amigo e ele apenas retirou os produtos em São Paulo para entregá-los, tendo consumido um deles com autorização do comprador.
Não há qualquer ligação entre os episódios envolvendo a compra e os imóveis com a Refit. São situações distintas, sem relação com a empresa ou com eventual favorecimento. Cláudio Castro reafirma que não praticou qualquer ato ilícito.”







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