STF mantém afastamento de desembargador do TJRJ investigado por favorecer líderes do CV

Ministro Flávio Dino nega liminar e valida quebra de sigilo bancário e fiscal do magistrado fluminense

O Supremo Tribunal Federal (STF) manteve o afastamento de desembargador do Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ) e autorizou a continuidade da investigação sobre as acusações contra o magistrado. A decisão do ministro Flávio Dino foi publicada no Diário da Justiça Eletrônico (DJE) desta quinta-feira (19). O ministro rejeitou o mandado de segurança apresentado pela defesa do desembargador Cairo Ítalo França David, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), que tentava suspender o afastamento determinado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e barrar a quebra de seus sigilos bancário e fiscal dos últimos cinco anos.

O magistrado foi afastado após ser acusado de conceder decisões durante plantão judiciário que supostamente beneficiaram integrantes de facções criminosas, entre eles líderes do Comando Vermelho.

A investigação do CNJ apura decisões concedidas em agosto de 2025, durante plantão judicial — período destinado apenas a casos urgentes.

Entre os casos investigados pelo CNJ e citado na decisão está:

Caso “Sardinha da Cidade de Deus”

O desembargador autorizou a saída temporária de Luciano da Silva Teixeira, conhecido como “Sardinha”, apontado como chefe do tráfico na Cidade de Deus. Condenado a mais de 24 anos de prisão, ele deixou o presídio e não retornou, sendo considerado foragido desde agosto de 2025.

Segundo o CNJ, as decisões do desembargador teriam fragilizado o sistema prisional e colocado em risco a segurança pública.

O que alegou a defesa?

Ao recorrer ao STF, o desembargador argumentou que:

  • Está afastado há mais de 100 dias sem abertura de processo disciplinar formal;
  • A quebra de sigilo bancário e fiscal por cinco anos seria desproporcional;
  • Atuou dentro da chamada independência funcional da magistratura, decidindo conforme sua interpretação da lei em casos considerados urgentes.

O que decidiu o ministro Flávio Dino?

Na decisão, Flávio Dino afirmou que, neste momento inicial, não há elementos que justifiquem suspender as medidas adotadas pelo CNJ.

O ministro destacou que:

  • O plantão judicial é mecanismo excepcional e não pode ser usado para rever decisões anteriores ou contrariar determinações de tribunais superiores sem urgência comprovada;
  • A independência judicial não é um “escudo” para afastar eventual responsabilidade funcional;
  • O contexto de atuação de facções criminosas exige atenção redobrada do Judiciário quanto às consequências práticas das decisões.

Para Dino, o afastamento e a quebra de sigilos são medidas cautelares necessárias para garantir a apuração dos fatos e não configuram punição antecipada.

O que acontece agora?

Com a decisão:

  • O desembargador permanece afastado do cargo;
  • Continua válida a quebra de sigilo bancário e fiscal dos últimos cinco anos;
  • Equipamentos e materiais de trabalho seguem apreendidos;
  • O CNJ prossegue com a investigação administrativa.

O mérito do pedido ainda será analisado pelo STF. No âmbito administrativo, o processo pode resultar em punições como advertência, censura ou até aposentadoria compulsória.

Apesar do afastamento, o magistrado continua recebendo salário-base, sem gratificações e benefícios. Segundo o Portal da Transparência do TJRJ, o valor líquido recebido no último mês foi de R$ 34.925.

O Tribunal de Justiça do Rio informou que não comenta o caso porque o processo tramita sob sigilo.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading