Ganhos dos bancos no país atingem maior nível em mais de uma década, revelam números do BC

Diferença entre custo de captação e juros cobrados ao consumidor supera 15 pontos percentuais, impulsionada por inadimplência elevada e avanço do crédito mais arriscado

A diferença entre os juros pagos pelos bancos para captar recursos e as taxas cobradas em empréstimos, conhecida como spread bancário, alcançou o maior patamar desde pelo menos 2013, segundo dados do Banco Central.

Em março deste ano, o indicador chegou a 15,17 pontos percentuais, ultrapassando a marca dos 15 pontos e registrando avanço de 3,46 pontos em comparação ao fim de 2020.

O spread funciona como uma espécie de ganho bruto das instituições financeiras nas operações de crédito. É por meio dele que bancos cobrem custos administrativos, impostos, perdas com inadimplência e ainda garantem margem de lucro.

Na prática, o mecanismo funciona como qualquer operação comercial: bancos captam dinheiro a uma taxa menor e emprestam por juros mais altos para equilibrar despesas e obter retorno financeiro.

Inadimplência elevada pressiona custo do crédito

Especialistas apontam que o aumento da inadimplência tem sido um dos principais fatores por trás da disparada do spread bancário.

Atualmente, a inadimplência acima de 90 dias está em 4,3%, um dos níveis mais altos da série histórica. O cenário preocupa economistas e instituições financeiras, já que o risco maior de calote tende a ser repassado ao consumidor em forma de juros mais elevados.

Outro fator relevante é a taxa Selic em 14,5%, que encarece o custo do dinheiro e amplia a percepção de risco do mercado.

Segundo economistas, juros elevados dificultam o pagamento das dívidas por famílias e empresas, criando um ciclo em que bancos cobram ainda mais caro para compensar possíveis perdas futuras.

Com famílias mais endividadas, instituições financeiras endurecem critérios e ampliam o custo das novas operações de crédito.

Crédito a pessoas físicas cresce e aumenta risco do sistema

O avanço do crédito voltado para pessoas físicas também contribuiu para a alta recente do spread.

Linhas como cartão de crédito e crédito pessoal, tradicionalmente associadas a taxas mais altas e maior risco de inadimplência, ganharam espaço nos últimos anos.

Dados do setor mostram que a participação das pessoas físicas no total da carteira de crédito saltou de 58,7% em janeiro de 2020 para 62,8% em março deste ano.

A mudança representa uma alteração estrutural no perfil das carteiras bancárias, antes mais equilibradas entre empresas e consumidores.

Além disso, companhias passaram a buscar mais financiamento via mercado de capitais, utilizando instrumentos como debêntures e outros títulos privados, reduzindo sua dependência dos bancos.

Esse movimento fez com que instituições financeiras ampliassem exposição justamente em segmentos mais rentáveis, porém mais arriscados.

Rentabilidade dos bancos segue em alta

Mesmo com inadimplência crescente, a lucratividade do sistema financeiro brasileiro segue em trajetória positiva.

O retorno sobre patrimônio líquido (ROE), principal indicador de rentabilidade do setor, saiu de níveis abaixo de 15% em 2023 para quase 17% no primeiro semestre de 2025, conforme relatório do Banco Central.

Levantamentos apontam ainda que grandes bancos brasileiros mantêm rentabilidade superior à de instituições de países desenvolvidos.

Nos últimos 16 anos, a média de ROE dos principais bancos nacionais ficou em 17,4%, acima dos 11,02% registrados por grandes instituições financeiras dos Estados Unidos.

Entre os cinco maiores bancos listados na Bolsa brasileira, dois superaram 20% de retorno sobre patrimônio no ano passado.

Brasil segue entre países com spreads mais altos do mundo

Independentemente da metodologia utilizada, o Brasil permanece entre os países com maior spread bancário do planeta.

Dados internacionais colocam o país entre os cinco maiores spreads do mundo entre 84 economias monitoradas pelo Banco Mundial.

Especialistas atribuem esse cenário a fatores estruturais como elevada inadimplência, dificuldade de recuperação de garantias, carga tributária elevada e custos operacionais.

A expectativa do mercado é de que o spread possa começar a desacelerar a partir do quarto trimestre, caso haja redução do ritmo de concessão de crédito e melhora gradual das condições econômicas.

Ainda assim, economistas alertam que o elevado endividamento das famílias brasileiras não deve ser resolvido rapidamente, mantendo pressão sobre juros e crédito ao longo dos próximos meses.

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