O Senado Federal vive um período de intensa reorganização política e registrou o maior número de mudanças partidárias de sua história recente. Em meio à corrida eleitoral de 2026, a Casa se consolidou como um dos principais focos da disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o grupo político liderado pelo senador Flávio Bolsonaro.
Levantamento do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), mostra que ocorreram 86 trocas de legenda entre fevereiro de 2019 e abril de 2026. Trata-se do maior volume registrado desde o início da série histórica, em 1991. Desse total, 37 mudanças aconteceram apenas na atual legislatura.
Os números revelam uma crescente volatilidade partidária no Senado, tradicionalmente considerado mais estável do que a Câmara dos Deputados. Nas duas últimas legislaturas, a média foi de 11 mudanças de partido por ano.
Senado se torna terreno instável para o governo
A instabilidade política tem impactado diretamente a relação entre o Executivo e o Congresso. Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu com a rejeição da indicação do ministro Jorge Messias, da Advocacia-Geral da União (AGU), para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).
A derrota representou um duro golpe para o Palácio do Planalto e contou com articulações de lideranças do Senado, incluindo o presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Apesar da intenção de Lula de reapresentar o nome futuramente, o governo ainda avalia o momento adequado diante das tensões políticas existentes.
Outro revés enfrentado pelo Executivo foi a aprovação de uma lei que reduziu penas de envolvidos nos atos golpistas e beneficiou o ex-presidente Jair Bolsonaro. Posteriormente, o veto presidencial foi derrubado pelo Congresso Nacional.
Ainda no início do atual governo, o Senado também rejeitou a indicação de Igor Roque para comandar a Defensoria Pública da União (DPU), ampliando a lista de derrotas do Planalto.
Disputa eleitoral impulsiona movimentações
A proximidade das eleições de 2026 tem acelerado a reorganização partidária. A oposição definiu como prioridade ampliar sua presença no Senado, considerado estratégico por concentrar atribuições importantes, como a análise de pedidos de impeachment contra ministros do STF.
Mesmo cumprindo prisão domiciliar, o ex-presidente Jair Bolsonaro permanece influente nas articulações políticas e deve participar da definição dos candidatos apoiados pelo grupo conservador nas disputas estaduais e nacionais.
O crescimento das migrações partidárias ocorreu gradualmente ao longo dos anos. Entre 2011 e 2015 foram registradas apenas oito trocas de legenda. Nos quatro anos seguintes, esse número saltou para 35. Desde 2019, porém, as mudanças chegaram a 86, praticamente dobrando o volume anterior.
Busca por estrutura eleitoral explica mudanças
Especialistas apontam que os senadores costumam trocar de partido em busca de maior estrutura política, acesso a recursos eleitorais, tempo de propaganda e alinhamento com projetos nacionais mais competitivos.
Como exercem mandatos de oito anos e são eleitos pelo sistema majoritário, esses parlamentares possuem maior liberdade para mudar de legenda sem sofrer impactos imediatos sobre seus mandatos.
O senador Carlos Viana (PSD-MG) é um dos exemplos dessa dinâmica. Desde que chegou ao Senado, em 2019, já passou por seis partidos diferentes. Segundo ele, as mudanças ocorreram por questões de alinhamento ideológico e político.
Outros casos incluem Styvenson Valentim (Podemos-RN), que alternou entre Rede, Podemos e PSDB antes de retornar ao Podemos, além de Jorge Kajuru (PSB-GO), que já passou por quatro siglas durante o mandato.
Flávio Bolsonaro e Lula disputam influência na Casa
Entre as principais lideranças nacionais, Flávio Bolsonaro também simboliza esse movimento partidário. Eleito pelo PSL em 2018, passou por Republicanos e Patriota antes de se filiar ao PL, acompanhando a reorganização política liderada por seu pai, Jair Bolsonaro.
Hoje apontado como pré-candidato à Presidência da República, Flávio atua na articulação da direita para as eleições de 2026. Uma das estratégias inclui fortalecer alianças regionais e ampliar a presença de aliados no Senado.
Do lado governista, a senadora Eliziane Gama deixou o PSD para ingressar no PT. A mudança ocorreu durante o reposicionamento nacional de seu antigo partido e foi apresentada como um reforço ao projeto de reeleição do presidente Lula.
Já o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco também protagonizou mudanças importantes. Após trocar o DEM pelo PSD em 2021, filiou-se ao PSB em 2026. Apesar das expectativas do governo, decidiu não disputar o governo de Minas Gerais.
STF discute regras de fidelidade partidária
O aumento das migrações partidárias ocorre paralelamente a um debate em andamento no Supremo Tribunal Federal.
A Corte analisa uma ação que pode ampliar as regras de fidelidade partidária para cargos majoritários, incluindo presidente da República, governadores, prefeitos e senadores. Atualmente, as restrições são aplicadas de forma mais rígida aos cargos eleitos pelo sistema proporcional.
O julgamento chegou a ser pautado para março deste ano, mas acabou retirado da agenda e ainda não possui data definida para retomada.
Enquanto não houver mudança nas regras, senadores continuam podendo trocar de legenda sem risco de perder o mandato, cenário que contribui para a intensa movimentação política observada às vésperas da eleição presidencial de 2026.





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