Seis pacientes perderam a visão de um dos olhos após passarem por cirurgias de catarata realizadas no dia 26 de fevereiro, em uma clínica particular de Salvador que atendia pelo SUS. Os casos vieram à tona após relatos de fortes dores, sangramentos e infecção no pós-operatório.
A unidade, identificada como Clivan, localizada na Avenida Anita Garibaldi, foi interditada cautelarmente pela Secretaria Municipal de Saúde de Salvador (SMS) na segunda-feira (2), após a repercussão das denúncias.
Até o momento, seis pessoas precisaram retirar o globo ocular devido à gravidade da infecção. Familiares de pacientes registraram boletins de ocorrência e cobram responsabilização dos envolvidos.
Pacientes relatam dores intensas e perda total da visão
Entre as vítimas está o idoso Damário Antônio da Silva, de 75 anos, cuja família procurou a Delegacia Especial de Atendimento ao Idoso (Deati), no bairro do Engenho Velho de Brotas, para formalizar denúncia contra a clínica.
Segundo relatos, os sintomas começaram poucos dias após o procedimento: dores intensas, olhos lacrimejantes, sangramentos e rápida perda de visão. Em todos os seis casos confirmados, houve necessidade de remoção do olho afetado para evitar complicações mais graves.
Cinco pacientes foram submetidos ao procedimento no Hospital Geral do Estado (HGE). O sexto caso foi atendido no Hospital Santa Luzia, no bairro de Nazaré.
Número de afetados pode ser maior
De acordo com familiares, ao menos 38 pessoas relataram algum tipo de problema após as cirurgias. A SMS informou que conseguiu rastrear 26 pacientes que passaram pelo procedimento em uma das salas da unidade no mesmo dia.
As cirurgias teriam sido realizadas em duas salas. Em uma delas, ocorreram cerca de 110 atendimentos; na outra, 26. Segundo apuração, os casos de infecção estariam concentrados na sala com menor número de procedimentos.
A clínica mantinha parceria com o município para realização de cirurgias via SUS. Após as denúncias, a Secretaria suspendeu o contrato e adotou medidas como a suspensão cautelar do alvará sanitário e a abertura de processo administrativo para apurar as condições de funcionamento.
Infecção bacteriana é investigada
Ainda não há confirmação oficial sobre a causa das complicações. Os pacientes diagnosticados apresentaram quadro infeccioso grave. Em um dos casos, segundo a defesa da vítima, foi identificada a presença de bactéria.
A advogada de um dos pacientes informou que médicos tentaram controlar a infecção com antibióticos, mas houve risco de disseminação e possíveis complicações sistêmicas, o que levou à decisão pela retirada do globo ocular.
O oftalmologista responsável pelos procedimentos afirmou, em entrevista, que aguarda o resultado da investigação da vigilância sanitária e que atua na área desde 2013 sem histórico semelhante. Ele não descartou a hipótese de contaminação de insumos ou instrumentos cirúrgicos.
Órgãos de saúde acompanham o caso
Além da Secretaria Municipal, o caso é acompanhado pela Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), pelo Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb) e pelo Ministério Público da Bahia.
A Sesab informou que o convênio da clínica com o Estado foi encerrado em dezembro de 2025 e destacou que nenhum dos pacientes com complicações foi encaminhado pela rede estadual.
O Cremeb realizou fiscalização no local e informou que eventuais sanções dependerão da conclusão da análise técnica. Já a SMS classificou a apuração como complexa, devido ao cruzamento de dados de pacientes de diferentes municípios e possíveis inconsistências cadastrais.
O que diz a clínica
Em nota, a Clivan afirmou que todos os protocolos clínicos, técnicos e de biossegurança foram rigorosamente seguidos durante as cirurgias.
A unidade destacou que realiza mais de 8 mil procedimentos por ano e que possui histórico consolidado de segurança e qualidade, classificando o episódio como pontual. A clínica declarou ainda que permanece à disposição das autoridades e que os pacientes seguem sendo acompanhados.
As investigações continuam para esclarecer a origem da infecção e apurar possíveis responsabilidades no caso que chocou pacientes e profissionais de saúde na capital baiana.






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