A saída de Sérgio Moro do Podemos deixou um pequeno grupo de órfãos e um grande número de ressentidos contra ele. Muitos políticos migraram para o Podemos para se cacifar nas eleições na sombra da candidatura presidencial do ex-juiz condenado por suspeição pelo STF. Agora, ficaram sem candidato, num partido com o qual não tinham identidade alguma, e passaram a considerar o ex-juiz um traidor.
Por outro lado, ao trocar o Podemos pelo União Brasil, Moro contava com apoio inquestionável à sua pretensão presidencial, mas isto ainda não aconteceu. Pelo contrário, por enquanto: o partido quer que ele concorra a deputado federal por São Paulo, para puxar votos e fazer uma grande bancada.
Mais: Moro ganhava um salário alto do Podemos e tinha acesso a verbas para sua peregrinação pelo país, e não tem a mesma certeza de que contará com tal privilégio no União Brasil, já que, a depender da cúpula paulista do partido, que é muito forte, nem sera candidato a presidência.
O Painel da Folha abordou estes assuntos desta forma, na edição de hoje:
A saída de Sérgio Moro do Podemos provocou ressentimentos na cúpula do partido, que, nos bastidores, acusa o ex-juiz de traição e argumenta ter dado liberdade, destinado recursos e atendido a todas as suas demandas.
O anúncio do ex-ministro [de que estava trocando o Podemos pelo União Brasil] deixou um grupo de “órfãos”, parlamentares e pessoas sem mandato que haviam migrado para a legenda justamente para acompanhar o então presidenciável.
Na última quinta-feira (31), Moro anunciou que deixaria o Podemos, partido ao qual se filiou em novembro do ano passado com a intenção de disputar a Presidência da República. Ele migrou para a União Brasil e não há garantia, agora, de que conseguirá manter sua candidatura presidencial.
Nos quase cinco meses em que ele esteve no Podemos, o partido avalia ter desembolsado cerca de R$ 3 milhões com o ex-juiz, em cálculo que inclui o pagamento de salários mensais de R$ 22 mil brutos, R$ 210 mil no evento de filiação e R$ 600 mil em uma pesquisa qualitativa de intenção de voto.
Em nota, a presidente do Podemos, Renata Abreu, disse que o partido ofereceu estrutura e garantia de recursos para a futura campanha. “Para a surpresa de todos, tanto a Executiva Nacional quanto os parlamentares souberam via imprensa da nova filiação de Moro, sem sequer uma comunicação interna do ex-presidenciável”, disse a deputada, na nota.
A insatisfação não ficou restrita à Executiva Nacional do partido. Nos quase cinco meses, o Podemos atraiu parlamentares e aspirantes a políticos que acreditavam que o ex-juiz poderia liderar a terceira via para romper a polarização eleitoral entre o presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Para explicitar o apoio a Moro, integrantes do MBL (Movimento Brasil Livre), como o deputado estadual Arthur do Val, migraram ao Podemos —ele foi forçado a se desfiliar após o vazamento de áudios sexistas sobre as mulheres da Ucrânia.
Em vídeo postado nas redes sociais na quinta, Renan Santos, coordenador do MBL, disse estar “atônito” com o anúncio de Moro. O dirigente também havia deixado o Podemos após a expulsão de Arthur do Val, mas disse que seguiria com o ex-juiz.
Na avaliação de Renan, a saída do ex-ministro abriria caminho para a vitória de Lula ou Bolsonaro.
“Eu não entendi direito como o Moro se posicionou. Não acho que foi a forma mais correta. Acho que foi um pouco atabalhoada a forma como ele conduziu. Ele deveria ter avisado aos demais aliados. A gente foi pego de surpresa, porque veja só: o Arthur retirou a candidatura dele para o governo do estado de São Paulo para não atrapalhar a candidatura do Moro”, afirmou.
Também acompanhou Moro no Podemos o ex-procurador da República Deltan Dallagnol, que ganhou notoriedade na Operação Lava Jato. Ele anunciou que permanece na legenda.
Além de Deltan, a ida de Moro ao Podemos atraiu sua mulher, Rosângela —que depois acabou se unindo ao ex-juiz na União Brasil—, além de deputados e o ex-ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz. Nesta segunda (4), o general disse que continuaria no partido, mas revelou que, por ora, desistiu dos planos eleitorais.
A saída de Moro do Podemos também prejudicou aliados do ex-ministro. Catarina Rochamonte, ex-colunista da Folha, disse ter sido informada pelo presidente do Podemos no Ceará de que não conseguiu montar chapa de candidatos a deputado federal, inviabilizando sua pré-candidatura ao cargo.
A decisão do ex-juiz causou irritação na Executiva Nacional do Podemos especialmente pelo fato de, pouco mais de uma semana antes do anúncio, Moro ter sido consultado sobre se queria negociar uma eventual aliança com a União Brasil. O ex-ministro teria dito que não.






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