* Paulo Baía
A história das eleições na cidade de São Paulo é um reflexo das mudanças sociais, econômicas e políticas que marcaram o Brasil ao longo dos séculos. A trajetória da maior cidade do país nas urnas não é apenas um espelho das transformações locais, mas também um indicador dos rumos que o Brasil tomava em diferentes momentos de sua história. A cada ciclo eleitoral, São Paulo se tornou o cenário de disputas que moldaram seu destino, ao mesmo tempo em que influenciaram profundamente o cenário político nacional.
No início do século XX, São Paulo vivia sob a hegemonia de uma elite cafeeira que dominava a política local e nacional. A “Política do Café com Leite”, uma aliança entre as oligarquias paulistas e mineiras, definia os rumos do país, e as eleições eram, em grande parte, um jogo de cartas marcadas, onde o voto do cidadão comum tinha pouco impacto real. Nessa época, o coronelismo era uma prática comum, e as eleições eram frequentemente manipuladas para garantir a manutenção do poder nas mãos dos mesmos grupos. O voto de cabresto, que mantinha o controle eleitoral nas mãos dos coronéis, limitava a participação popular e impedia a renovação política.
Com a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, o panorama começou a mudar. A ruptura com a velha ordem oligárquica trouxe uma nova fase para a política brasileira e, consequentemente, para as eleições paulistanas. As reformas eleitorais introduzidas durante o governo Vargas, como a implementação do voto secreto e a criação da Justiça Eleitoral, visavam a tornar o processo eleitoral mais transparente e democrático. Embora as mudanças não tenham eliminado de imediato as práticas corruptas, elas abriram caminho para uma participação mais efetiva da população nas decisões políticas.
A década de 1950 marcou um ponto de virada na política de São Paulo. A eleição de Jânio Quadros para a prefeitura em 1957 foi um marco na história da cidade. Jânio, com seu estilo populista e seu discurso moralista, conseguiu angariar um grande apoio popular, rompendo com as tradições políticas da cidade. Sua gestão, que se destacou pela austeridade e pelas medidas impopulares, consolidou sua imagem de líder que desafiava o status quo. A vitória de Jânio foi um prenúncio de sua ascensão à presidência do Brasil em 1960, mostrando o poder de São Paulo como trampolim político em âmbito nacional.
Os anos 1980 trouxeram uma nova dinâmica para as eleições de São Paulo, em meio ao processo de redemocratização do Brasil. A eleição de Luiza Erundina em 1988 foi um marco não só para São Paulo, mas para a política nacional. Erundina, uma nordestina com forte compromisso social, representou a ascensão de movimentos populares e partidos de esquerda que haviam crescido durante os anos de repressão militar. Sua vitória, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), simbolizou a busca por maior inclusão social e a necessidade de dar voz às populações mais marginalizadas da cidade.
Contudo, a alternância entre visões progressistas e conservadoras permaneceu uma constante na política paulistana. Em 1992, Paulo Maluf, uma figura controversa e carismática, voltou ao poder. Sua gestão foi marcada por grandes obras e projetos de infraestrutura, mas também por acusações de corrupção e práticas autoritárias. Maluf se tornou um símbolo de uma forma de fazer política que ainda ecoava os tempos do coronelismo, mas adaptada às novas realidades urbanas. Seu retorno à prefeitura evidenciou que, apesar dos avanços democráticos, velhas práticas ainda encontravam espaço em São Paulo.
A virada do século trouxe novas figuras e novas disputas para a cena política paulistana. Em 2000, Marta Suplicy venceu a eleição com uma proposta centrada na inclusão social e na redução das desigualdades. Sua administração foi marcada por políticas voltadas para as populações mais vulneráveis, mas também enfrentou forte oposição de setores conservadores. A polarização que emergiu durante sua gestão antecipou o que se tornaria uma característica constante nas eleições paulistanas e brasileiras nas décadas seguintes.
A cidade de São Paulo, com sua complexidade e diversidade, tem sido palco de uma alternância constante de poder entre partidos de esquerda e direita. Figuras como José Serra, Gilberto Kassab e João Doria representaram um novo conservadorismo, que buscava modernizar a cidade com uma agenda de privatizações e austeridade fiscal. Doria, em particular, utilizou a prefeitura como trampolim para suas ambições políticas em nível nacional, mostrando como a administração da maior cidade do país pode servir de vitrine para projetos políticos mais amplos.
Mas São Paulo também é uma cidade marcada por profundas desigualdades sociais e pela segregação urbana. As eleições refletem essa realidade, com as disputas eleitorais muitas vezes dividindo a cidade entre o centro rico e as periferias pobres. Os candidatos que conseguiram articular propostas que dialogassem com as necessidades das periferias, como políticas de transporte e habitação, frequentemente se destacaram nas urnas. A luta por inclusão e justiça social sempre foi um tema central nas campanhas eleitorais paulistanas, especialmente em tempos de crise econômica e social.
As eleições em São Paulo são mais do que simples eventos políticos; elas são momentos de definição dos rumos da cidade e do país. A capital paulista, com sua importância econômica e cultural, sempre teve um papel central nas decisões políticas do Brasil. O comportamento do eleitorado paulistano, com sua mistura de progressismo e conservadorismo, é um termômetro para o restante do país.
Além disso, cada eleição em São Paulo traz consigo um reflexo das transformações sociais pelas quais o Brasil passa. A diversidade do eleitorado, que abrange desde as áreas mais ricas da cidade até as comunidades periféricas, torna o processo eleitoral paulistano uma verdadeira representação da complexidade do Brasil. A cada ciclo eleitoral, São Paulo se reinventa, ora reafirmando antigas tradições, ora abraçando novas ideias e propostas.
Olhar para a história das eleições de São Paulo é compreender a evolução política do Brasil. Cada eleição é um capítulo que conta um pouco sobre o que a cidade foi, o que é e o que deseja ser. O processo eleitoral, com todas as suas dificuldades e desafios, se mantém como um dos principais instrumentos de mudança e de expressão da vontade popular. Em um país onde a democracia ainda é um processo em construção, as eleições de São Paulo continuam a ser um símbolo de resistência, de luta por direitos e de busca por um futuro mais justo e igualitário.
Assim, a cada nova eleição, São Paulo reafirma sua posição como um dos principais centros de poder do Brasil, uma cidade que, mesmo diante das dificuldades, não para de se reinventar. A história das eleições paulistanas é a história de uma cidade que nunca deixou de buscar o progresso, enfrentando os desafios de cada época e moldando seu próprio destino nas urnas.
* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.






