Nos últimos meses, a atuação de facções criminosas como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) tem preocupado empresários, gestores de fundos, economistas e investidores. Os grupos, que historicamente se dedicavam ao tráfico de drogas, passaram a infiltrar-se em atividades econômicas legítimas, o que gera incertezas e preocupações sobre a segurança do ambiente de negócios no Brasil.
De acordo com especialistas ouvidos por reportagem da Folha de S. Paulo, essas facções encontraram brechas no sistema econômico formal, o que tem gerado riscos não apenas para as grandes empresas que operam dentro da legalidade, mas também para a integridade do mercado. O coordenador da Esem (Escola de Segurança Multidimensional), Leandro Piquet, afirmou:
“Essa mudança, do crime violento e predatório para os crimes baseados em mercado, é uma realidade global, e o Brasil está nisso, de forma acelerada, porque está cheio de lacunas e de brechas regulatórias — e essas oportunidades são capturadas por organizações criminosas por meio de múltiplos vínculos”.
As investigações revelaram que o crime organizado tem se infiltrado em diversos setores econômicos. Entre os mais afetados estão o mercado de combustíveis, o mercado imobiliário, o transporte público, os serviços de saúde, a internet, a limpeza urbana, o setor financeiro e até a cultura. Confira a seguir os principais segmentos investigados e a extensão da atuação das facções.
Combustíveis: um mercado dominado pelo PCC
O setor de combustíveis é um dos mais atingidos pela atuação do PCC. Segundo investigações recentes, a facção praticamente “sequestrou” esse mercado, controlando desde a formulação e o refino de combustíveis até o transporte, distribuição e operação de postos de abastecimento. Além disso, a facção tem envolvimento com produtos como metanol, nafta, gasolina, diesel e etanol.
A operação realizada nesta quinta-feira (28) revelou que em uma das redes investigadas, com 200 postos de abastecimento, as bombas estavam viciadas, fazendo com que os consumidores pagassem por um volume inferior ao informado ou por combustível adulterado. A infiltração do PCC no setor de combustíveis é vista como uma ameaça à competição e à segurança das empresas que atuam de forma legal.
Mercado imobiliário: lavagem de dinheiro através de imóveis de luxo
O mercado imobiliário também tem sido uma área de interesse das facções. Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, um empresário que foi assassinado no Aeroporto de Guarulhos, havia detalhado em uma delação como o crime organizado utilizava os Fundos de Investimento em Participações (FIPs) para lavar dinheiro. De acordo com Gritzbach, a facção comprava imóveis de alto valor, como os localizados no bairro do Tatuapé, em São Paulo, e na Riviera de São Lourenço, no litoral paulista, para ocultar os lucros do tráfico de drogas.
Transporte público: facção infiltra licitações e ganha concessões
No setor de transporte público, a facção também tem se infiltrado. Em 2024, a operação Fim da Linha prendeu dirigentes de empresas de ônibus acusadas de lavar dinheiro do PCC. Segundo as investigações, as empresas ganharam licitações públicas por meio de uma rede de advogados especializados, que ajudaram a facção a criar empresas e disputar contratos com o poder público. Essas empresas chegaram a transportar cerca de 700 mil passageiros diários na capital paulista.
Clínicas odontológicas e serviços de saúde: fachada para o crime
O PCC também tem se infiltrado no setor de saúde, com a criação de clínicas odontológicas e serviços médicos. Em 2022, a Polícia Civil prendeu um homem suspeito de ser um dos maiores traficantes do Brasil, conhecido como “Escobar brasileiro”, que havia montado mais de 30 clínicas na Grande São Paulo. A facção também foi investigada por se infiltrar em serviços de saúde pública em Arujá, na Grande São Paulo.
Internet e telefonia: facções controlam provedores e aplicam golpes
Em um dos casos mais recentes, a Polícia Civil do Rio de Janeiro desmantelou um esquema de provedores de internet ligados ao tráfico de drogas. Essas empresas, que operavam na zona norte da capital fluminense, contavam com o apoio de criminosos armados para impedir a entrada de operadoras licenciadas. Além disso, facções como o PCC e o Comando Vermelho têm investido em falsos serviços de centrais telefônicas e aplicativos de mensagens, utilizando-os para aplicar golpes e gerar lucros ilícitos.
Limpeza urbana: corrupção em licitações favorece facção criminosa
Em Arujá, na Grande São Paulo, a facção criminosa conseguiu penetrar na administração da cidade, fraudando licitações para serviços de limpeza urbana. Segundo investigadores, o prefeito eleito teria financiado a campanha em troca de favores à facção, que prestava serviços de baixa qualidade e cobrava preços elevados.
Setor financeiro: o controle do dinheiro e a lavagem por fintechs
O PCC também tem utilizado o setor financeiro para lavar dinheiro. Na operação Carbono Oculto, realizada nesta quinta-feira, foi revelado que a facção utilizava fintechs e corretoras para movimentar recursos ilícitos. Além disso, as facções criaram um sistema de “contas bolsão”, que centraliza múltiplos depósitos de diferentes fontes para ocultar a origem do dinheiro. As investigações apontaram que o PCC também comprou instituições financeiras já estabelecidas no mercado por meio de fundos de participação.
Cultura: negócios no funk e expansão de patrimônio ilícito
No setor cultural, a facção tem se infiltrado no agenciamento de artistas, sem que estes sequer saibam disso, especialmente no funk. Uma investigação revelou que uma empresa de agenciamento de artistas movimentou R$ 173 milhões entre 2019 e 2022, um aumento de 26.000% durante a pandemia de Covid-19. A maior parte dos recursos movidos pelo grupo teria origem no tráfico de drogas e outras atividades ilícitas, o que permitiu a expansão de seu patrimônio, incluindo a compra de uma fazenda na Paraíba para criação de gado.






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