A decisão da Petrobras de elevar em 19,2% o preço de venda do gás natural às distribuidoras reacende o debate sobre custos energéticos no país e a exposição do Brasil a fatores externos. O reajuste, anunciado na sexta-feira (1º), passou a valer imediatamente para o gás canalizado, utilizado por residências, comércios e indústrias.
A alta ocorre em meio a uma combinação de fatores internacionais e contratuais que, segundo a estatal, determinam revisões periódicas no valor da molécula de gás.
Regras contratuais e influência externa
De acordo com a Petrobras, os contratos com distribuidoras preveem atualizações trimestrais baseadas em indicadores do mercado global. Entre eles estão o preço do petróleo Brent, a cotação do dólar frente ao real e, mais recentemente, o índice Henry Hub, referência internacional para o gás natural.
No trimestre analisado, o Brent registrou alta de 24,3%, impulsionado por tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Ao mesmo tempo, a oferta de gás no mercado caiu 14%, enquanto o real apresentou valorização de 2,5% frente ao dólar. Esse conjunto de variáveis resultou no reajuste próximo de 20%, já esperado por agentes do setor.
Críticas do setor e defesa do gás natural
A reação das distribuidoras e representantes do setor veio antes mesmo do anúncio oficial. O diretor-executivo da Abegás, Marcelo Mendonça, questionou a dependência de fatores externos, apesar do crescimento da produção nacional.
“A gente vê algumas medidas que beneficiam combustíveis mais poluentes, em vez de gás natural. A gente vê dentro dessa agenda o esquecimento do gás natural, privilegiando o diesel, que tem maior pegada de carbono,” afirmou Mendonça em evento do setor.
A entidade também defende a criação de programas de incentivo ao gás canalizado, semelhantes aos já anunciados pela Agência Nacional do Petróleo para o gás de cozinha e o combustível de aviação.
Impacto ao consumidor ainda é incerto
Apesar do aumento na venda às distribuidoras, o impacto final nas contas dos consumidores não é automático nem uniforme. Segundo a Petrobras, o preço pago pelo usuário depende de contratos específicos, volumes consumidos e políticas comerciais adotadas pelas concessionárias estaduais.
A estatal afirma ainda que mantém mecanismos para reduzir oscilações bruscas. “Os contratos de venda de gás natural celebrados pela Petrobras com as distribuidoras já contam com dispositivo comercial, a média trimestral de variação dos índices, que tem o objetivo de mitigar a volatilidade de curto prazo das variáveis de indexação”, disse a empresa.
Queda acumulada desde 2022
Mesmo com o reajuste recente, a Petrobras destaca que o preço médio do gás natural apresenta redução acumulada de cerca de 26% desde 2022, considerando todas as atualizações contratuais ao longo do período.
O movimento atual, no entanto, reforça a sensibilidade do setor energético brasileiro às oscilações globais e recoloca em discussão a necessidade de políticas públicas voltadas à estabilidade de preços e ao incentivo de fontes consideradas mais limpas.






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