Embora o debate sobre uma suposta aliança entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) ainda gere dúvidas no âmbito do tráfico de drogas e armas, investigações recentes indicam que essas duas facções rivais mantêm uma espécie de pacto estratégico em outros setores econômicos. Enquanto o PCC tem expandido sua atuação no Rio de Janeiro com o furto e comercialização clandestina de combustíveis, o CV tem explorado o fornecimento ilegal de internet em comunidades fluminenses, estabelecendo monopólios por meio de empresas em nome de “laranjas”.
A entrada dessas organizações criminosas na economia formal se dá por meio de brechas legais. Um exemplo é o setor de telecomunicações: para abrir uma empresa com até 5 mil clientes de internet, não é necessário obter outorga da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), permitindo que criminosos atuem sob fachada legal.
Segundo o secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo, há um “acordo tácito” entre as facções, que ele já classifica como máfias. “Já classificamos essas grandes facções não mais como mero crime organizado. Elas já são máfias pelas características que apresentam. Essa consciência é importantíssima. A única resposta que o Estado brasileiro pode dar é se organizando. E é o que estamos fazendo.”
Sarrubbo explica que o PCC age com perfil mais empresarial e menos violento, enquanto o CV se sustenta pela força do terror. “O PCC tem histórico de manter atividades econômicas. Em tese, é menos violento e busca estruturar-se como um grande negócio. Diferentemente, o CV sempre foi pautado muito mais pela violência, apesar de também ter negócios.”
Essa infiltração nos setores de combustíveis e internet está no radar das forças de segurança. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, defendeu recentemente a Proposta de Emenda Constitucional da Segurança Pública, que visa à integração das polícias em todas as esferas para enfrentar o crime organizado de forma mais eficaz. A PEC foi entregue pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos presidentes do Senado e da Câmara.
No Rio de Janeiro, o secretário de Segurança Pública, Victor Santos, vê uma lógica econômica por trás dessa divisão de atuação: “Como a exploração do combustível é a maneira de o PCC auferir lucro em São Paulo e, agora, no Rio, o CV elegeu a internet como o seu atrativo número um. Então, tem que explorar serviços que deem lucro, e todo mundo precisa. É um dinheiro sem esforço.”
Ele denuncia que as facções se aproveitam de falhas na regulamentação para proliferar empresas de fachada: “Uma comunidade de 50 mil moradores, eles abrem 10 empresas sem outorga. Estamos fazendo um mapeamento delas. A maioria dessas empresas está em área do CV. Há provedores que estão em nome de parentes de criminosos ou laranjas.”
Dados da Anatel mostram que, no estado do Rio, há 890 empresas de banda larga sem necessidade de outorga e 820 prestadoras outorgadas. Todas devem estar registradas e cumprir os regulamentos.
Com informações do Extra.





