Uma investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro revelou a existência de um acordo entre facções criminosas rivais que permitiu ao Comando Vermelho utilizar uma comunidade controlada pela Amigos dos Amigos como rota estratégica para expansão territorial na Zona Oeste da capital. A descoberta foi possível após a interceptação de mensagens trocadas entre criminosos investigados.
Segundo as autoridades, o entendimento entre os grupos garantiu ao CV acesso a áreas dominadas pela ADA, facilitando a circulação de integrantes e o planejamento de ataques contra territórios controlados por milícias e pela facção rival Terceiro Comando Puro. As informações são do jornal O Globo.
Conversas interceptadas detalham estratégia
As mensagens analisadas pela polícia envolvem Carlos da Costa Neves, conhecido como Gardenal, apontado como um dos principais operadores do Comando Vermelho, e um integrante de milícia. No diálogo, ele menciona ter livre acesso à comunidade Jardim Novo, em Realengo.
“Jardim Novo. Posso entrar a hora que eu quiser”, escreveu Gardenal. “Lá é o Índio. Vi ele ainda menor. Bom de bala”, respondeu o miliciano.
A comunidade citada é controlada por Lucas Apostólico da Conceição, conhecido como Índio, considerado foragido da Justiça. A partir desse ponto, segundo a investigação, o CV passou a utilizar o local como corredor logístico para alcançar regiões como Bangu, Campo Grande e Santa Cruz, além de avançar em direção à Taquara, Praça Seca e Itanhangá, onde está a Favela Rio das Pedras, área estratégica ainda sob domínio de milícia.
Troca de favores e proteção mútua
Em contrapartida ao uso da comunidade, o grupo liderado por Índio teria recebido garantias de não sofrer ataques por parte do Comando Vermelho, além de contar com suporte da facção para manter suas atividades.
“A investigação evidencia indícios da existência de um corredor criminoso usado por organizações criminosas distintas. A ADA teria a garantia de não ser atacada. Já o CV usaria o local como base ou passagem para favelas da Zona Oeste”, explicou o delegado Alamberg Medeiros Miranda, responsável pelo caso na Delegacia de Repressão a Entorpecentes.
Dados de inteligência indicam que, até março, o Comando Vermelho mantinha presença em 1.283 comunidades no estado do Rio.
Zona Oeste concentra disputa entre grupos
De acordo com a polícia, a Zona Oeste é atualmente a única região da cidade onde atuam simultaneamente quatro forças criminosas: Comando Vermelho, Terceiro Comando Puro, milícias e Amigos dos Amigos. A ADA, considerada a menor entre elas, mantém atuação em áreas como Padre Miguel e Realengo.
Em abril, uma operação da 44ª DP (Inhaúma) no Jardim Novo cumpriu 24 mandados de prisão contra suspeitos ligados à facção local. Seis pessoas foram detidas, mas Índio conseguiu escapar.
A localização da comunidade é considerada estratégica por sua proximidade com vias de acesso importantes e regiões dominadas por diferentes grupos, o que a torna peça-chave na disputa territorial.
Investigação aponta crimes violentos ligados ao grupo
O grupo chefiado por Índio também é investigado por envolvimento em um caso de extrema violência ocorrido em janeiro deste ano, na comunidade da Light, em Realengo. Três mulheres foram torturadas após suspeitas de desvio de dinheiro.
A vítima fatal, Naysa Kayllany da Costa Borges Nogueira, chegou a buscar atendimento na Unidade de Pronto Atendimento de Magalhães Bastos, mas não resistiu aos ferimentos. A outra mulher conseguiu sobreviver após a entrega do valor exigido pelos criminosos.
O caso é analisado pela 20ª Vara Criminal, que já determinou a prisão de suspeitos envolvidos.
Histórico de liderança e conexões entre facções
Outro nome citado nas investigações é Celso Luís Rodrigues, apontado como um dos líderes da ADA. Ele chegou a ter a prisão solicitada no contexto das investigações, mas o pedido foi negado pela Justiça.
Celsinho foi preso em maio de 2025 durante uma operação em Padre Miguel, mas obteve habeas corpus no mesmo mês e passou a responder em liberdade. Considerado figura histórica do crime no Rio, já foi um dos criminosos mais procurados do estado nos anos 1990 e cumpriu cerca de 25 anos de prisão por tráfico, formação de quadrilha e homicídios.
Segundo as investigações, ele teria articulado alianças com integrantes do Comando Vermelho em disputas por território na Zona Oeste, reforçando a complexidade das relações entre facções na região.






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