Ruído, insegurança e mais aeronaves: a preocupação de quem vive sob as rotas dos helicópteros no Rio
Reportagem Especial

Ruído, insegurança e mais aeronaves: a preocupação de quem vive sob as rotas dos helicópteros no Rio

Acidente que matou seis pessoas reacende discussão sobre fiscalização, ordenamento do espaço aéreo, infraestrutura e convivência com áreas urbanas cada vez mais adensadas

“Nos últimos 10, 15 anos, a gente vem sentindo um número crescente de aeronaves, de helicópteros, e isso tem criado vários tipos de transtornos. Um dos principais é exatamente o ruído e a sensação de insegurança.” A avaliação é de David Zee, vice-presidente da Câmara Comunitária da Barra da Tijuca. Após a colisão entre dois helicópteros que matou seis pessoas no Recreio dos Bandeirantes, moradores da região e de bairros vizinhos voltaram a discutir um tema que, segundo representantes, já preocupa a população há anos: o aumento da circulação de aeronaves sobre áreas cada vez mais ocupadas da Zona Sudoeste. 

O acidente ocorreu no dia 14 de junho. Segundo relatos de testemunhas, as aeronaves colidiram ainda em voo antes de caírem em um estacionamento de carro elétricos. Em um dos helicópteros estavam o piloto Alexandre Souza, o influenciador argentino Gaspar Prim Díaz, o DJ Lucas Frota, o diretor de videoclipes Lucas Vignale e o cantor norte-americano Oliver Tree. Todos morreram. O piloto da segunda aeronave, Charles Marsillac, que estava sozinho, também não resistiu.

Veja o vídeo:

As causas da colisão ainda são desconhecidas. O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) já iniciou a coleta de dados e a análise dos fatores envolvidos na ocorrência. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), por sua vez, apura aspectos relacionados à regularidade das aeronaves, dos pilotos e do tipo de operação realizada.

Todas as seis vítimas do acidente | Crédito: Reprodução

Mas, para além da investigação, os números mostram que o cenário aéreo do Rio mudou significativamente nos últimos anos.

Segundo a Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag), com dados do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), a movimentação de helicópteros no estado cresceu 18% em apenas dois anos. Foram 182 mil operações em 2023, entre pousos e decolagens, contra 215 mil em 2025.

O crescimento da movimentação aérea ocorre em um momento em que também chama atenção o aumento das ocorrências de acidentes envolvendo aeronaves.

Para entender essas questões, Agenda do Poder ouviu especialistas em segurança de voo, representantes dos moradores da Barra da Tijuca e do Recreio, o Corpo de Bombeiros e consultou os posicionamentos oficiais da Anac e do Cenipa.

Uma frota maior em um espaço aéreo mais movimentado

O crescimento não ocorreu apenas no número de voos. A própria frota aumentou. Ainda de acordo com a Abag, o Rio de Janeiro passou de 247 helicópteros em condição de voo em 2023 para 319 em 2026, uma expansão de 29%.

Para o perito aeronáutico Daniel Calazans, esse crescimento exige atenção constante das autoridades responsáveis pelo sistema.

“O crescimento do número de aeronaves e também do número de movimentos, deve sempre acompanhar a estrutura aeronáutica. Quando faz estrutura, a gente abrange a área da Anac e, principalmente, o Decea, que regula, fiscaliza e também promove todos os procedimentos”, explica.

Segundo ele, a ampliação das operações não significa, necessariamente, perda de segurança.

“Normalmente, periodicamente, as autoridades aeronáuticas fazem estudos e revisão para ver se o aumento do número de aeronaves e o aumento da movimentação tem, de uma forma ou outra, comprometido a segurança de voo”, garante.

A própria Anac informou que acompanha o crescimento da densidade de tráfego aéreo em algumas regiões do estado e participa de debates com diferentes atores do setor para discutir infraestrutura e organização do espaço aéreo destinado às operações de helicópteros.

“Da mesma forma, a Anac acompanha permanentemente os indicadores de segurança operacional da aviação civil brasileira, incluindo os números de incidentes e acidentes aeronáuticos registrados pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão vinculado ao Comando da Aeronáutica”, diz.

A agência ressalta, porém, que o planejamento, monitoramento e controle do tráfego aéreo brasileiro são atribuições do Decea.

A preocupação dos moradores cresce junto 

Se para os órgãos técnicos a discussão gira em torno de procedimentos, infraestrutura e segurança operacional, para quem vive na Barra da Tijuca e no Recreio o debate tem outro componente: a convivência diária com o aumento do tráfego aéreo.

Em abril, um helicóptero fez um pouso forçado na Praia da Barra. O incidente aconteceu na faixa de areia entre os postos 3 e 4. O acionamento das equipes de emergência ocorreu às 11h20, na altura do número 3100 da Av. Lúcio Costa. Três pessoas foram resgatadas com vida.

Vice-presidente da Câmara Comunitária da Barra da Tijuca, David Zee afirma que a percepção dos moradores mudou ao longo dos últimos anos. Segundo ele, o crescimento urbano também ampliou a preocupação da população.

“É a questão do adensamento, a cada dia que passa, os espaços que eram vazios estão, pouco a pouco, sendo ocupados por edificações, por ruas, por vias.”

David Zee, vice-presidente da Câmara Comunitária da Barra

Para Zee, o desafio é compatibilizar a atividade aérea com a ocupação urbana. Ele afirma que representantes da comunidade vêm discutindo o tema com autoridades há anos.

David Zee, vice-presidente da Câmara Comunitária da Barra | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

“A sociedade da Barra da Tijuca entende que é um serviço que é necessário, mas o que ela não entende é que aumente a vulnerabilidade. É quase uma década estamos alertando que a coisa está crescendo, que o risco está aumentando. Então o que está faltando? Uma normatização mais efetiva, porque normas existem, o que falta é, eventualmente, uma fiscalização”, diz.

Uma tragédia rara, mesmo para os padrões da aviação

Embora o acidente tenha gerado forte repercussão, especialistas destacam que colisões entre aeronaves estão entre os eventos mais raros da aviação.

“É uma ocorrência muito, muito rara. É preciso levar em consideração que é uma das ocorrências mais desastrosas tanto para os controladores de tráfegos aéreo, quanto para os pilotos envolvidos. Se tratando de helicóptero, é mais rara ainda.”

Daniel Calazans, perito aeronáutico

O Cenipa reforça que ocorrências aeronáuticas raramente decorrem de um único motivo. Segundo o órgão, acidentes e incidentes costumam resultar da combinação de diversos fatores que, reunidos em determinado contexto, contribuem para a ocorrência.

Calazans faz avaliação semelhante: “Quando um acidente aéreo ocorre, envolvendo aeronaves dos mais diversos tipos, helicóptero, até mesmo avião, raramente ocorre diante de um único fator. Normalmente é uma combinação de vários fatores, pilotagem do avião, às vezes o controle de tráfego aéreo, condições climáticas ou até mesmo falhas mecânicas.”

O perito explica que a investigação busca justamente identificar quais elementos contribuíram para o acidente e transformá-los em recomendações para evitar novas ocorrências.

O impacto para quem responde às emergências

Não é só a movimentação e o crescimento da atividade que vem se expandindo. Dados do Corpo de Bombeiros mostram que a corporação chegou a ser acionada dez vezes para ocorrências envolvendo aeronaves entre 1º de janeiro e 18 de junho deste ano. No mesmo período de 2025, foram três acionamentos.

“A corporação vem percebendo que tem aumentado bastante a estatística e a gente já vai, obviamente, para uma operação como essa, com a técnica específica para o combate”, afirma o tenente-coronel Fabio Contreiras.

Segundo ele, o acidente do Recreio apresentou características incomuns e, ao chegarem no local, os bombeiros encontraram um cenário complexo. 

“Não nos recordamos, recentemente, de ter atendido uma colisão de duas aeronaves em pleno ar. Geralmente é uma queda de uma aeronave única. Quando as equipes chegaram lá pela primeira vez, elas observaram em torno de 15 veículos em chamas. O endereço era de um pátio de uma concessionária […] Então o risco de propagação do incêndio era real. E os veículos elétricos, que também têm um potencial de incêndio alto”, relembra.

Tenente-coronel Fabio Contreiras, do Corpo de Bombeiro | Crédito: Verônica Américo / Agenda do Poder

Além do combate ao fogo, os bombeiros precisaram atuar no desencarceramento de uma das vítimas, o piloto Charles Marsillac, que já estava morto.

“A aeronave estava muito encarcerada, muito deformada, tivemos que realmente cortar muitas partes da aeronave para conseguir retirar a vítima”, conta.

Os desafios

Segundo Contreiras, incêndios envolvendo aeronaves exigem procedimentos diferentes daqueles utilizados em ocorrências urbanas convencionais. Isso acontece porque helicópteros e aviões são construídos com materiais específicos e transportam grandes quantidades de combustível.

“A construção de um helicóptero, por exemplo, envolve muitos componentes metálicos. A maioria deles é à base de alumínio, magnésio e titânio. Pensando também que a aeronave tem combustível dentro, tanques que podem variar de 280 litros para 4.000 litros, por exemplo. Dependendo do helicóptero, estamos trabalhando com líquido inflamável”, detalha.

Por essa razão, o combate ao fogo segue protocolos próprios. Em grande parte dos casos, a corporação vai usar água e, em alguns casos também, água com espuma, como explica o tenente-coronel.

“Para um combate como esse, é necessário ter um raio de proteção muito grande. Fazemos sempre primeiro o combate no combustível que está próximo da aeronave, para que os bombeiros possam se aproximar. Usamos Equipamento de Proteção Individual, extremamente preparado para irradiação térmica, porque a radiação do líquido é muito alta. Em alguns casos também existe a liberação de alguns vapores que são tóxicos”, enumera.

Para lidar com a complexidade, os militares precisam de um treinamento específico no combate a incêndio em aeronaves. Uma das principais referências é o Grupamento de Operações Aéreas (GOA).

Segundo Contreiras, parte da capacitação é realizada inclusive fora do Brasil, acompanhando os protocolos internacionais dos fabricantes. Além disso, a corporação mantém um centro especializado para simulações de incêndios.

“Nós temos uma cidade do fogo, um complexo onde se treinam incêndios, tanto em estruturas fechadas, como edificações, como também em veículos, carros, ônibus, e também em aeronaves. Isso nos ajuda a melhorar o atendimento na rua”, diz.

O que os investigadores analisam

No caso específico do acidente do Recreio, o Cenipa disse à Agenda do Poder que qualquer conclusão seria prematura. A investigação está em andamento e passa por três etapas principais: coleta de dados, análise das informações e elaboração do relatório final.

Durante a primeira fase, investigadores analisam destroços, documentos, registros operacionais, condições meteorológicas, informações de tráfego aéreo, imagens e depoimentos.

Fumaça foi vista por bairros vizinhos | Crédito: Reprodução

Depois, os dados são examinados por uma equipe multidisciplinar formada por especialistas de diferentes áreas, como pilotos, engenheiros, médicos, psicólogos e mecânicos.

Segundo o órgão, colisões entre aeronaves em voo apresentam complexidade adicional porque exigem a análise simultânea de duas aeronaves, duas operações e duas tripulações.

“Importante ressaltar, contudo, que eventuais fatores contribuintes somente poderão ser confirmados ou descartados ao longo da investigação”, destacou o órgão.

A 42ª DP (Recreio dos Bandeirantes) também investiga o caso. A Polícia Civil analisa se houve falha humana ou técnica. Entre as possibilidades avaliadas estão negligência ou imprudência.

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