Abandonado por quase uma década, com janelas sem vidraças e fachada marcada pela deterioração, o antigo Hotel Ipanema Plaza, na esquina da Farme de Amoedo com a Prudente de Morais, deixou de ser símbolo de descaso para virar vitrine de uma virada. O prédio na quadra da praia será reaberto ainda este ano como The Tryst Rio de Janeiro, da Tryst Hospitality, rede de hotéis de luxo voltada ao público LGBTQIA+.
A proposta é transformar o endereço em um espaço com vista para o mar e rooftop com piscina e bar, apostando em hospitalidade personalizada e em uma narrativa de pertencimento ao destino. “Luxo é mais do que contagem de fios ou a melhor piscina; é sobre ser quem você é e acordar em Ipanema sabendo que está no lugar certo”, diz Tristan Schukraft, CEO do Tryst Hotels.
A reabertura não é caso isolado. A orla mais valorizada do país vai receber também a bandeira Four Seasons, que ocupará o antigo Marina Palace, no Leblon, e um novo Sofitel, na Avenida Vieira Souto, em Ipanema. São três cinco-estrelas a caminho, dois com inauguração prevista ainda para este ano, sinalizando um reposicionamento do Rio no mapa global da hotelaria de alto padrão.
Gastronomia como motor do novo luxo
O próximo Sofitel carioca, pensado como carro-chefe da marca francesa na América Latina, terá no 21º andar o Lasai, restaurante de duas estrelas no Guia Michelin, reforçando a aposta em culinária autoral como diferencial competitivo. Para Netto Moreira, diretor-geral do cluster luxo do Grupo Accor no Rio, o empreendimento marca “um novo e poderoso ciclo” que recoloca a cidade no epicentro do segmento.
A lógica que guia os investimentos vai além da imponência arquitetônica. Entre os viajantes de alta renda, o luxo ganhou novos contornos: menos ostentação e mais experiência. Paisagem, cultura e serviços sob medida passaram a ser o centro da proposta.
Hotéis passaram a incorporar hábitos locais à estadia, com personal trainer e aulas de ioga na praia, mordomos à beira-mar e roteiros personalizados. O Fairmont, em Copacabana, já oferece café da manhã no Cristo Redentor antes da abertura ao público, pôr do sol no Pão de Açúcar, visitas privadas ao Museu do Amanhã e experiências no AquaRio, além de ter lançado uma cachaça própria em edição limitada.
Experiência e integração com o entorno
Com 51 quartos, o Janeiro, no Leblon, aposta em atendimento altamente personalizado, com bicicletas para circular pela orla e serviço de mordomos “pé na areia”. “O turismo de luxo mudou; está muito mais voltado à autenticidade e às imersões culturais”, resume Edgard Tomazini, da área comercial do hotel.
Essa virada também aparece no desenho dos projetos: arquitetura aberta, diálogo com a paisagem, design assinado e gastronomia autoral se tornaram quase indispensáveis. “Toda a arquitetura do Janeiro foi pensada para trazer o mar para dentro e mostrar ao turista o que a população faz”, explica Tomazini.
O movimento é acompanhado pela Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), criada há 18 anos para posicionar o país no circuito global do turismo premium. Hoje com cerca de 70 associados, a entidade aponta o Rio como o destino nacional mais procurado por esse público, à frente de Foz do Iguaçu, Pantanal, litoral da Bahia, Manaus e Salvador.
Por que o Rio lidera o ranking
Para Camilla Barretto, CEO da BLTA, a liderança carioca não é casual. O segmento vive um momento de maior maturidade no país, impulsionado por infraestrutura mais qualificada, serviços sofisticados e uma agenda consistente de grandes eventos. Nesse contexto, o Rio soma conectividade aérea, oferta cultural, paisagem natural e identidade própria.
“Luxo não é só opulência; é o que não se encontra em qualquer lugar. O Copacabana Palace faz parte da história do país, e isso, junto com o verde e o mar, transforma o Rio em um destino por si só”, afirma Camilla.
O avanço também resulta de uma estratégia de reposicionamento que une setor público e iniciativa privada para atrair visitantes dispostos a gastar mais e permanecer mais tempo na cidade. “Há pelo menos cinco anos iniciamos um projeto para devolver o Rio à primeira prateleira. Ao aumentar o ticket médio, o impacto econômico se espalha por toda a cadeia”, diz Roberta Werner, diretora executiva do Visit Rio.
Apoio institucional e bandeiras globais
Segundo a secretária municipal de Turismo, Daniela Maia, a chegada de novas bandeiras internacionais reflete um ambiente de negócios mais favorável. “Existe um circuito global de luxo e, pela relevância turística, era fundamental que o Rio voltasse a atrair marcas como Four Seasons e Sofitel. É isso que está acontecendo”, resume.
Enquanto novos projetos avançam, endereços consagrados sustentam o protagonismo. O Copacabana Palace, símbolo da hotelaria de alto padrão no país e ativo estratégico do grupo Belmond, lidera o faturamento entre as 44 propriedades da companhia no mundo e passa por obras para atualizar a experiência do hóspede sem romper com seu imaginário centenário.
O apelo gastronômico segue como trunfo: o Cipriani, com uma estrela Michelin, está sendo repaginado, e o pan-asiático Mee, também estrelado, faz do Copa o único hotel da América do Sul a reunir dois restaurantes com estrelas no guia. Já o Fairmont se consolidou como endereço estratégico após eventos globais e grandes hospedagens oficiais, apostando em arte, design e gastronomia para conectar a identidade carioca à sofisticação francesa. “Virou um luxury lifestyle hub, onde o glamour dos anos 1950 dialoga com uma leitura contemporânea da cidade”, afirma Netto Moreira.
Com Tryst, Four Seasons e o novo Sofitel, o Rio transforma reaberturas e canteiros de obras em vitrine de uma ambição maior: voltar a ser, com consistência, um destino-chave do turismo de luxo mundial.






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