A Prefeitura do Rio passou a incluir o rastreamento do vício em apostas esportivas, as chamadas bets, nas consultas de rotina realizadas nas clínicas da família e nos centros municipais de saúde. A estratégia começou a ser adotada em agosto e prevê a identificação de apostadores e familiares afetados pelo problema, além do encaminhamento para tratamento conforme o grau de risco.
Durante os atendimentos, os profissionais fazem duas perguntas específicas sobre a relação do paciente com as apostas e registram as respostas no prontuário. Caso haja indicação de comportamento problemático, a equipe pode iniciar o acompanhamento sem esperar que o usuário procure o serviço especificamente por causa do vício.
Na primeira semana da iniciativa, 3.070 pacientes responderam ao questionário. Desse total, 22 disseram sentir necessidade de apostar, enquanto 15 afirmaram já ter mentido para familiares para esconder quanto haviam gasto com jogos.
Acolhimento de famliares
A abordagem prevê desde orientações para casos considerados de menor risco até acompanhamento com equipes multiprofissionais e serviços de atenção psicossocial nas situações mais graves de vício em bets. Familiares também poderão ser acolhidos mesmo quando o apostador não aceitar iniciar o tratamento.
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, a medida foi adotada após profissionais da rede perceberem um aumento na procura por atendimento relacionado a problemas associados às apostas. Os casos chegam às unidades por meio dos próprios jogadores ou de familiares afetados pelas consequências do comportamento.
Um levantamento realizado pelo Núcleo de Inteligência Assistencial da SMS, com apoio de modelo de linguagem natural aplicado aos prontuários eletrônicos, identificou 1.378 pessoas com registros de sofrimento relacionado a possíveis casos de vício em apostas. Entre os problemas associados estavam ansiedade, insônia, depressão e dificuldades financeiras que atingiram o núcleo familiar.
Perfil dos pacientes
Entre os 1.378 casos identificados no levantamento, 567 eram apostadores que buscaram ajuda por conta própria. Quase 60% eram homens. A idade mediana foi de 37 anos, e 53% tinham entre 18 e 39 anos.
Entre os familiares afetados pelas bets, o perfil era diferente. Das 325 pessoas identificadas, 276 eram mulheres, o equivalente a 85%. A idade mediana foi de 45 anos, com maior concentração entre pessoas acima dos 40 anos. Segundo a Secretaria, muitas eram esposas e mães de apostadores.
O levantamento também identificou 25 pacientes menores de 18 anos. Desse grupo, 22 eram meninos. Embora as apostas sejam proibidas para menores de idade, o resultado chamou a atenção da Secretaria diante da facilidade de acesso a aplicativos de apostas e jogos de azar pelo celular.
Além do rastreamento durante as consultas, a prefeitura prevê a capacitação de agentes comunitários de saúde e outros profissionais da rede. As equipes também receberão materiais para orientar a população sobre os sinais de dependência e os caminhos para buscar atendimento.
A Prefeitura afirma que a estratégia pretende tratar o vício em apostas como uma questão de saúde pública, considerando seus possíveis impactos não apenas sobre o jogador, mas também sobre a saúde mental e a situação financeira de familiar







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