Receita internacional dos Correios despenca de 22% para 8% com ‘taxa das blusinhas’

Participação no faturamento despenca após mudanças no mercado e estatal admite ciclo de prejuízos com perda de clientes

A participação das receitas com a distribuição de encomendas internacionais nas contas dos Correios sofreu uma queda acentuada nos últimos dois anos, refletindo mudanças estruturais no setor e dificuldades operacionais da estatal. Dados das demonstrações financeiras divulgadas no Diário Oficial da União indicam que essa fatia caiu de 22% em 2023 para apenas 7,8% em 2025.

O recuo está diretamente associado à criação do programa Remessa Conforme, que alterou as regras do comércio internacional no país e pôs fim ao domínio dos Correios na entrega de encomendas vindas do exterior. As informações são do portal g1.

Impacto direto no faturamento

Os efeitos da mudança regulatória aparecem de forma clara nos números. Em 2024, a estatal registrou receita de R$ 3,9 bilhões com encomendas internacionais, já com redução de R$ 530 milhões em relação ao ano anterior. Em 2025, a queda se intensificou: o valor despencou para R$ 1,3 bilhão, uma retração de R$ 2,6 bilhões em apenas um ano.

A própria diretoria da empresa reconhece que a nova realidade do mercado evidenciou fragilidades internas. Em documento da área econômico-financeira, a diretora Loiane de Carvalho Bezerra de Macedo afirma que a mudança expôs a falta de adaptação da estatal.

“A redução da participação de mercado no segmento de encomendas internacionais, que até agosto de 2024 representava uma espécie de “monopólio” para os Correios, evidenciou a ausência de reposicionamento negocial da Empresa, diante das transformações do comportamento da sociedade”, afirmou.

Mudança nas regras e concorrência

Criado em 2023 pelo Ministério da Fazenda, o programa Remessa Conforme introduziu a cobrança de imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 — medida que ficou conhecida como “taxa das blusinhas”.

Além da tributação, a principal mudança foi permitir que empresas privadas realizassem o transporte e a distribuição dessas encomendas dentro do Brasil. Antes, esse serviço era obrigatoriamente feito pelos Correios, o que garantia à estatal uma posição dominante no segmento.

Com a abertura do mercado, o impacto foi imediato. Um estudo interno divulgado no início de 2025 estimou perdas de R$ 2,2 bilhões em receitas após a implementação do programa.

Queda no volume de encomendas

A retração também se reflete no volume de objetos transportados. Dados internos mostram que, nos nove primeiros meses de 2025, os Correios movimentaram cerca de 41 milhões de encomendas internacionais, contra 149 milhões no mesmo período de 2024 — uma redução de aproximadamente 110 milhões de pacotes.

O desempenho mensal reforça a tendência de queda. Em julho de 2024, a estatal transportou 21 milhões de encomendas e arrecadou R$ 449 milhões. Já em setembro de 2025, foram apenas 3 milhões de pacotes, com receita de R$ 87 milhões — o menor patamar em quase dois anos.

Apesar do crescimento das compras em marketplaces internacionais, que impulsionaram esse segmento nos últimos anos, a participação dessas receitas no faturamento total da empresa caiu para cerca de 8,8%, bem abaixo dos quase 25% registrados anteriormente.

Ciclo de prejuízos e perda de clientes

A combinação de perda de mercado, queda de receitas e problemas operacionais gerou um cenário preocupante para a estatal, que passou a enfrentar dificuldades crescentes para manter sua sustentabilidade financeira.

“Formou-se, assim, um ciclo vicioso de perda de clientes e receitas, decorrente da baixa qualidade operacional, que reduziu progressivamente a geração de caixa necessária para regularizar as obrigações dos Correios”, afirmou a diretora Loiane de Carvalho Bezerra de Macedo.

Segundo o documento, a deterioração operacional tem impacto direto na relação com grandes clientes, responsáveis por mais da metade da receita da empresa.

“As negociações com grandes clientes — responsáveis por mais de 50% da receita de vendas — tornaram-se cada vez mais sensíveis, comprometendo acordos e frustrando expectativas de resultado”, completou.

O cenário descrito pela própria gestão indica que a estatal enfrenta um momento de transição delicado, pressionada por mudanças no mercado, aumento da concorrência e desafios internos que ainda dificultam uma resposta mais rápida às novas demandas do setor logístico.

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